PORÇÕES DE FELICIDADE

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Por Nara Chiquetti 
Fotos Fábio Pitrez

Suely e Nilo Kato desenvolveram não só receitas diferenciadas, mas também um novo conceito em confeitaria

Diariamente são oferecidos quase 400 itens, cerca de 30 tipos de doces, dez tipos de bolos, além de pães, salgados, sanduíches e petitfour, todos de fabricação própria

Há momentos, sabores, cheiros capazes de marcar nossa alma. Há alimentos que vão muito além de nutrir, proporcionam algo a mais, um conforto, um momento de prazer, de alegria. Essas boas sensações são o grande diferencial que a confeitaria Hachimitsu busca oferecer a seus clientes, experiências únicas a cada visita.

Por 15 anos Suely e Nilo Kato viveram na terra do sol nascente. Ele se mudou para o Japão a trabalho, ela, para estudar. Lá se casaram e tiveram filho. Em 2004 decidiram retornar ao Brasil. Na bagagem da família, o sonho de ter um negócio próprio. A realidade totalmente nova encontrada aqui foi um dos desafios a serem vencidos. Kato lembra que a readaptação foi difícil. “Eu me sentia um estrangeiro no meu próprio país”, diz. No entanto, a vontade de ter o próprio negócio, de mostrar o que aprenderam do outro lado do mundo falou mais alto e decidiram encarar juntos o desafio de montar uma confeitaria. Mas, não estamos falando de mais uma loja de bolos e doces, e sim de todo um conceito diferenciado, dos produtos à ambientação.

Tudo começou a partir do hobby de Suely: cozinhar. Ela se encantou com a confeitaria feita no Japão, basicamente francesa. “A gente não conhecia aqueles doces, não sabíamos o quanto os japoneses são adeptos à pâtisserie francesa”, comenta Kato. Na primeira oportunidade, ela se matriculou em uma escola de confeitaria. Inicialmente, sem nenhuma intenção profissional na área. Aos poucos Suely passou a receber encomendas dos vizinhos de doces e bolos para festas na comunidade e, por cinco anos foi desenvolvendo técnicas, até o dia de retornar ao Brasil.

Sede Hachimitsu, uma arquitetura grandiosa, que tem por objetivo não só impressionar, mas também oferecer ambiente inovador e aconchegante

“Meu sonho era ter um negócio aqui, retomar a vida como empresário, mas não sabia o que fazer, por onde começar”, recorda-se Kato. Apesar do medo e insegurança, o casal abriu, em agosto de 2005, uma confeitaria, com um novo conceito em doces, feitos à moda nipônica – mais suaves, decorados com muitos requintes de detalhes e servidos individualmente. “Começamos com uma portinha pequenininha na avenida JK. No início trabalhamos apenas com sobremesas e doces, eu, Suely, sua irmã e mais uma funcionária”, conta.

Kato revela que os primeiros meses foram de descoberta. “Até nós conseguirmos achar o paladar ideal para o brasileiro sofremos bastante”, diz. Foram cerca de oito meses testando a reação dos clientes até chegar ao ponto que agrada a maioria dos paladares. “No início não tivemos uma boa aceitação porque o londrinense estava acostumado a produtos mais doces, o nosso era suave demais para os padrões brasileiros. Aí tivemos que adequar, mas sem fugir do conceito de um doce mais suave”, aponta.

As dificuldades causadas pelas diferenças culturais não param por aí. Até o modo de atender acabou sendo um problema. “Fazíamos um atendimento semelhante ao do Japão, atencioso, mas, pelo olhar do londrinense, era meio frio, reservado demais”, explica Kato. O tato para lidar com o público foi sendo desenvolvido pouco a pouco, conforme a família retomava os costumes locais. “Com o tempo a gente foi entrando no clima, e mantivemos o atendimento atencioso, mas com o calor humano que faltava. Aí a coisa começou a acontecer”. O boca a boca passou a atrair cada vez mais clientes. Ao final do primeiro ano, o espaço já teve de ser ampliado, e a Hachimitsu passou a servir outros produtos como cafés, salgados, sucos. “Digo a meus funcionários, tem de receber cada cliente como se fosse o primeiro. E em um quesito eu faço questão que meus funcionários sejam sempre nota dez: honestidade. Ser honesto em tudo”, assevera.

“O diferencial da empresa é se dedicar a proporcionar momentos de felicidade”, declara o proprietário Nilo Kato

Para Kato, o segredo não está só no sabor ou na apresentação do doce, é preciso remeter a alegria. “Isso você sente. A energia tem de ser boa, positiva, é nesse sentido que trabalhamos”, defende. “A gente não pode ter no olho o cifrão, mas sim o coração. Tem de ser um serviço, deixar o cliente a vontade”, ensina. Por isso, caprichar na apresentação e no sabor é fundamental, mas a marca registrada da empresa é oferecer um momento de prazer e felicidade ao cliente. “O mais importante é o momento Hachimitsu, o seu momento de felicidade. Isso é o que eu quero perpetuar. Doce a gente inventa, reinventa, mas esse momento, o desejo de querer estar aqui é que tem que marcar”.

Em 2013, foi inaugurada a sede da Hachimitsu, no bairro Bela Suíça, um projeto que teve a preocupação não só de uma arquitetura grandiosa, como também de criar um ambiente inovador e aconchegante. “Foi um salto grande, praticamente triplicamos o espaço, o atendimento, e não paramos mais de crescer”, avalia Kato. Na sequência, vieram as filiais no aeroporto, a reforma da primeira loja, na JK, e a inauguração da loja na Gleba Palhano, e no Shopping Aurora.

Cuidado em todos os detalhes na apresentação dos produtos fazem a diferença em cada “momento de felicidade”

“Hoje nossa marca é conhecida. Temos constantemente propostas para abrir franquias em outras cidades, estados e até fora do país”, comenta o proprietário. Um episódio que ele julga também ter contribuído para o crescimento da empresa foi oferecer doces ao príncipe Naruhito, do Japão, em sua visita em 2008, durante as comemorações do centenário da imigração japonesa. “Foi um fato muito importante para nós. Nas comemorações do IMIN 100 tivemos o privilégio de servir a sobremesa ao príncipe. A partir deste momento ficamos ainda mais conhecidos, conquistamos novos clientes”, diz.

Mesmo com cinco lojas, o casal acompanha bem de perto tudo o que acontece na empresa que permanece familiar, da produção ao atendimento. “Temos uma equipe muito unida, com uma motivação de encher de orgulho. A gente percebe a paixão pelo que faz, e o resultado é esse que temos hoje”, avalia. E revela: “nem imaginava que a empresa pudesse dar tão certo. Comecei um negócio para o sustento da minha família, sabia que esse pequeno negócio precisava ser bem estruturado, mas nunca pensei ter uma matriz tão grande, quanto mais abrir cinco lojas e receber propostas para expandir ainda mais”. Inovação é o lema do casal empreendedor. “A gente não para de inovar, não só em produtos, mas também na arquitetura, na maneira de produzir, de servir, porque nosso grande negócio é proporcionar momentos de felicidade”.