D.BEAUTY #3 CABELO PODEROSO

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Mulheres voltam às origens e usam o cabelo natural para se empoderar. 

 

Chapinha, relaxamento, escova definitiva, escova progressiva, escova japonesa, alisamento… O padrão de beleza é claro e implacável: cabelo bonito é cabelo liso. Um padrão que, convenhamos, nada tem a ver com a identidade brasileira – 54% da nossa população é formada por negros, o que nos faz um país majoritariamente de cabelos crespos e cacheados.

De queimaduras leves à queda total de cabelo por agressões químicas, muitas mulheres resolveram falar não e aceitar a própria natureza capilar. Mais do que abrir mão da química, é um exercício de respeitar a própria essência e de empoderar a si mesma e às outras mulheres.

CABELO RUIM?

Quando a nutricionista Ana Carolina Galvão resolveu deixar o alisamento e voltar para seus cabelos naturais, ouviu coisas como “Você está deixando o seu cabelo ficar ruim de novo?”. Ela questionou: “Ruim? Como assim ruim?”. Ela, que começou a se sentir mal com o próprio cabelo ainda na infância, aos 7 anos, fez o primeiro relaxamento aos 9. “Os fios começaram a ficar quebradiços e frágeis, porque eu não sabia como cuidar do meu próprio cabelo”. Aos 22, Ana resolveu passar pela transição capilar e voltar a conhecer os seus cabelos naturais: “Eu me vi escrava da química, da chapinha e do secador… Eu chorava várias vezes em frente ao espelho por não ter o cabelo do jeito que eu queria e ficava triste por eu não ‘poder’ entrar na piscina, ou por não ‘poder’ pegar meio quarteirão de chuva para chegar a algum lugar. Eu passava horas trancada no meu quarto tentando deixar cada fio do meu cabelo liso, sendo que ele nunca seria assim. Aos poucos isso foi fazendo com que eu caísse em mim, desejando me libertar”, conta.

A estudante de moda e empreendedora Mariana Fernandes também começou a alisar os cabelos quando ainda era muito nova, com 10 anos: “no começo fazia relaxamentos mais leves e depois de alguns anos fiz o alisamento definitivo”. Mariana relata que foi refém do alisamento por 13 anos. “Quando eu digo refém, é refém mesmo. A minha rotina capilar era muito trabalhosa… como gostava de usar ele bem liso, a cada vez que lavava o cabelo fazia escova e passava chapinha, e esse processo demorava uma hora”, conta.

 O alisamento parou de fazer sentido quando Mariana se deu conta de que o cabelo liso era uma imposição da sociedade sobre como ela deveria parecer: “Eu pensei durante muito tempo até resolver parar com o alisamento de vez. Foi uma decisão difícil, mas eu simplesmente sabia que uma hora isso teria que acontecer, não conseguia enxergar minha vida para sempre com essa ‘obrigação’. Eu sempre soube que no fundo o cabelo liso era uma imposição da sociedade sobre como eu deveria parecer, sobre o que era mais bonito, e uma hora esse discurso não pôde mais fazer parte de mim. Sem contar que muitas vezes amigas minhas perguntavam como era o meu cabelo sem a química e eu simplesmente não sabia responder, eu não sabia como era meu próprio cabelo e isso me deixava extremamente triste”.

OLÁ, CABELO NATURAL!

Para ajudar a passar pela fase da transição e chegar ao cabelo natural da melhor forma, Henrique Araújo, cabeleireiro na Ana Mota, indica um bom corte com frequência e redutores de volume para evitar a raiz “fofa”. “Depois da transição, uma boa linha de nutrição, já que a oleosidade não chega às pontas dos cabelos mais enrolados, o que faz com que eles fiquem muito mais secos nas pontas, então hidratação é fundamental. As mulheres estão assumindo o próprio cabelo e ninguém mais quer ficar escrava de produtos”, ressalta Henrique.

Já o cabeleireiro Caio Matos chama a atenção para a diferença entre a escova definitiva e a progressiva. Aquela só sai deixando o cabelo crescer, enquanto esta volta aos poucos, em todo o comprimento do cabelo, conforme o passar do tempo. “O cabelo cresce 1 cm ao mês, então é um processo. Um bom leave-in para ativar os cachos também ajuda muito”.

Apesar da transição ser uma fase difícil, o resultado compensa. “É maravilhoso ter o meu cabelo natural de volta! É uma questão de aceitação mesmo, hoje me sinto muito mais eu, parece que finalmente me encontrei. Manter o cabelo natural passa uma mensagem empoderadora para as mulheres que vivem à nossa volta, mostra que você pode ser, sim, bonita com o cabelo crespo e de qualquer outro jeito, e isso é incrível. Minha rotina capilar também é bem mais simples agora, sigo a rotina do low poo, que basicamente não utiliza produtos com sulfato que acabam prejudicando e deixando o cabelo enrolado mais ressecado”, conta Mariana,  que também abusou das faixas, turbantes e lenços para disfarçar a diferença entre a raiz e o resto do cabelo durante a fase de transição.

Ana também confessa seus truques: o uso de bigudinhos (uma espécie de bob), que moldam os cachos nas partes ainda lisas do cabelo. O mais legal, no entanto, é a sensação de liberdade: “É incrível. Não fico mais presa! Recebo muitos elogios por onde passo e isso aumenta ainda mais a minha autoestima. Hoje o cabelo está forte (e eu também!), hidratado, crescendo com vida e o melhor de tudo é que esse é o meu cabelo, a minha origem! Estou muito feliz!”.