ELIS: O ÍNCONE, O FILME, A CELEBRAÇÃO

Elis 3PARALAX

Exibido no recente Festival de Gramado, a cinebiografia da mais popular cantora brasileira é filme para ver/ouvir com emoção, reverencia, gratidão e saudade. 

 

Anotem: 24 de novembro, lançamento nacional do longa metragem “Elis”. O filme, que concorreu aos principais prêmios do 44º Festival de Cinema de Gramado – perdeu absurdamente para “Barata Ribeiro, 716”, crônica memorialística de Domingos de Oliveira –, acabou ficando com o Kikito de melhor atriz para Andreia Horta, além de melhor montagem e melhor filme pelo júri popular.

Surpreendente estreia no cinema do diretor Hugo Prata, até então somente produtor de videoclipes para extensa lista de artistas e bandas nacionais, o filme abriu a primeira noite da mostra competitiva. Abertura com pinta de campeão.  Mas quanto mais se vai a festivais, mais se (des) aprende com juris, aqueles estranhos agrupamentos de humores, preferencias, idiossincrasias, iras e implicâncias. Nessa noite, tinha ficado bem claro qual o recorte, qual o enfoque pretendido por Prata a partir do roteiro de Nelson Motta, Patricia Andrade e Luiz Bolognesi. E na manhã seguinte à projeção, durante a coletiva/debate com a imprensa e equipe do filme, o diretor confirmou as intenções daquilo que se viu na tela.

O que Gramado assistiu e o grande publico verá daqui a dois meses é uma narrativa segmentada sobre a vida de Elis Regina a partir de seus 18 anos, quando ela sai da Porto Alegre natal e chega ao Rio em 31 de março de 1964, data emblemática que anos depois estaria no foco de um dos episódios mais controvertidos de sua trajetória como pessoa publica – a briga histórica com o desenhista Henfil, que a crucificou por cantar em evento militar durante o período mais repressivo e brutal da ditadura.  O argumento do longa cobre os principais momentos da vida artística e pessoal de Elis.  Hugo Prata afirmou que teve absoluta liberdade e total apoio da família da cantora para montar sua história. Claro também ficou para ele que, embora curta (Elis morreu prematuramente em 1962, aos 36 anos), a vida dela, imensa, intensa, vibrante e polêmica, não poderia caber num longa metragem de 110 minutos, que tampouco pode ser chamado de biografia. Para o diretor, é de fato apenas um recorte de eleição  pessoal. Mas este olhar de Prata sobre personagem tão mítico obtém ótimos resultados, fazendo de “Elis” um filme ao mesmo tempo rico e complexo.

Cobrado por um jornalista quanto à algumas ausências na carreira de Elis
(Tom Jobim e Milton Nascimento,  indiretamente em diálogos), Prata reconheceu a lacuna, mas reafirmou que o arco da dramaturgia da personagem tinha necessariamente que sacrificar alguns fatos. Mas mesmo compactada em hora e cinquenta, a vida publica e privada da cantora está bem reconstituída – presentes de corpo e alma o empenho e muitas vezes a obsessão de vencer suas atribulações como mulher, vale dizer, as relações afetivas tormentosas e a incessante busca de perfeição artística.

 Não bastasse Andreia ser muito parecida com Elis, ela ainda recebeu notável preparação para o papel. Também presente à coletiva, Andreia (tiete assumida da cantora) enfatizou não somente o preparo vocal na dublagem, mas toda uma atitude física na reencarnação de Elis – estão lá os tiques, o gestual, a gargalhada marota, até aquela aura –, reconhecida como um dínamo transfigurado quando pisava num palco. O resultado desta estafante entrega é uma interpretação de antologia, imediatamente reconhecida pela plateia presente à première do filme no Festival de Gramado. Os atores Gustavo Machado e Caco Ciocler, respectivamente como Ronaldo Boscoli e Cesar Camargo Mariano (primeiro e segundo marido) também embarcaram com tudo neste revival de Elis.

Não poderia ser diferente: os últimos tempos atormentados da vida da artista deixam o tom do filme mais sombrio, embora discreto em relação à sua entrega e dependência das drogas. “Elis” tem tudo para fazer ótimas bilheterias , claro que avalizadas muito mais por aqueles que acompanharam a carreira dela ao vivo. Mas é um bom momento para as novas gerações virtuais saberem o que havia e haverá sempre nas asas da Panair…

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