PARA QUE SERVEM OS REMAKES?

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O cinema passa mais uma vez por uma crise intelectual – uma cíclica falta de ideias e ausência de originalidade. Diante dessa aridez, as produtoras miram somente produtos que a principio garantam rentabilidade nas bilheterias. E um desses produtos tem sido a reciclagem de velhos títulos, os chamados remakes

Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Fotos Divulgação

 

Para que servem os remakes? Os puristas responderão que, do ponto de vista artístico, são completamente inúteis, pois não há razão para refazer aquilo que já foi bem feito no passado. O cinema americano não entende assim, e às vezes também o cinema europeu. Porque na ideia de refazer pode haver outros interesses, mesmo prevalecendo o critério comercial: um grande êxito que se quer aproveitar. Os remakes poderiam ser considerados como um gênero dentro do universo do cinema, uma categoria independente, embora pouco apreciada. Mas analisando a questão por outra perspectiva, é possível questionar vários quesitos. Por que refazer? A palavra é um conceito controvertido e inclusive ambíguo. Em outras artes como o teatro, quando se remontou alguma peça e se incluiu alguma mudança, jamais se referiu a este processo como um remake, mas como uma “versão” ou uma “visão alternativa da história”.

A questão é: que interesse pode ter em se contar o mesmo, ou ainda, que interesse pode ter um diretor de cinema para fazer o mesmo já feito por alguém no passado, com a única diferença de ter podido contar com orçamento maior? É mais sensato e coerente pensar nesses filmes, no momento de realizá-los, como uma nova versão ou visão da ideia. É aí quanto os remakes podem ser vistos de forma mais positiva, porque às vezes remake pode se referir, desde um certo ponto de vista, como substituição.

São múltiplas as explicações encontradas para a invasão de versões e versões de versões. Uma delas, bem coerente, afirma que o cinema pós-moderno é o cinema do remake e da sequela, talvez como maneira de visitar o passado, amenizar a nostalgia e homenagear os filmes clássicos que os cineastas de agora viram quando crianças. Uma explicação mais prosaica fica por conta do protecionismo do mercado estadunidense. Nos Estados Unidos os filmes estrangeiros que conseguem penetrar no mercado xenófobo não são dublados – o que é uma grande barreira para a produção estrangeira. Por isso, é mais rentável para Hollywood fazer uma nova versão de um filme já existente do que distribuir o original estrangeiro. O melhor exemplo é “Millenium I:

Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, a versão sueca, fez só dez milhões de dólares nos EUA. Já a refilmagem com Daniel Craig, feita somente três anos depois, fez 100 milhões apenas na primeira semana apenas no circuito interno.

Vistos assim, os remakes são de fato rentáveis. E são um produto muito atraente para os estúdios, que não precisam criar uma história do zero, mas parte de um roteiro existente. Uma vez que o publico conhece a trama, a publicidade necessária para tirar o publico de casa será menor. As leis econômicas jogam a favor: menor inversão e maiores benefícios. A critica, é claro, não está a favor dessa estratégia. E condenam esta desmedida caçada ao lucro. Quando o único sentido do cinema é ganhar dinheiro, está automaticamente desvirtuado o sentido original do cinema, que um dia foi chamado de sétima arte. Mas há vozes destoantes , como o diretor John  Carpenter, que culpa as novas tecnologias. Segundo ele, “Hollywood não ficou sem ideias. O problema está na televisão a cabo, no uso do iPad e redes sociais, que desviaram a atenção do publico. Os estúdios estão preferindo recuperar velhos títulos que as pessoas possam reconhecer, porque hoje em dia é muito arriscado apostar na novidade.”

Carlos Eduardo Lourenço Jorge é crítico de cinema, autocrítico e, por consequência, cinéfilo fiel

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