D. CHILD É BRINCADEIRA!

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Brincar proporciona trocas, aprendizagem, socialização e encantamento. 

 

A brincadeira sempre ocupou um espaço importante na vida da criança. Mais do que apenas distrair ou ensinar algo, brincar proporciona a troca com o outro, coisa tão importante ao ser humano e que tem potência para transformar o próprio universo da criança e o mundo ao seu redor. É brincadeira, mas é também escutar, entender e ressignificar; resgatar o acolhimento, a troca, a partilha e o estar junto.

Nos tempos atuais, em que a vida urbana dita o tom e a tecnologia entra no dia a dia cada vez mais cedo, o brincar acaba muitas vezes ocupando um espaço menor na infância. Pensando nisso, Ana de Lucca, psicopedagoga, e Nicole Pimentel, psicóloga, idealizaram o Baobá – vivências pelo brincar. Enquanto elas explicavam um pouco sobre tudo o que envolvia essas vivências, ouviu-se de lá de baixo, no meio de uma brincadeira: “Coragem, a vida se faz de coragem”. Encorajar crianças talvez seja uma boa descrição do que experiências sensíveis podem ser capazes. Nicole reforça que o Baobá não é uma escola, mas sim um espaço que tem “preparo, cuidado com o brincar”.

Nicole e Ana se inspiraram principalmente na abordagem Reggio Emilia, nome de uma cidade do norte da Itália que, depois da II Guerra Mundial, precisou ser reconstruída do zero, e com isso também reconstruir toda a sua vida social, cultural e política, o que fez com que a comunidade se envolvesse na construção de uma escola, feita pelas próprias mãos dos moradores. A abordagem tem como seu pilar a comunidade e a família na construção da educação e também as representações simbólicas, sendo então bastante voltada para artes, música e linguagens afins.

A relação com a família é sempre vista como um ponto de interação. No Baobá, sugere-se que até 1 ano e meio as crianças tenham como acompanhante um adulto de referência, que pode ser o pai, a mãe, a avó etc. A partir disso, anda-se com seus próprios pés. “É preciso que a criança exista para além da família”, elas dizem. E nesse novo mundo entram a troca, a aprendizagem e a socialização – tudo em turmas multietárias, para respeitar os interesses de cada um, independente da idade. Segundo Ana e Nicole, a ideia é “retomar o que é simples, o que é menos complicado”. Natureza, luminosidade e objetos instigantes também são de extrema importância.

Vivência não é aula e também não é recreação; não há horários fechados dedicados a cada coisa, como gastronomia e circo, e cada criança vai traçando suas próprias escolhas, respeitando o que mais faz sentido no momento.  Há sempre a liberdade de querer ou não vivenciar as coisas apresentadas. “É preciso respeitar os acasos – uma visita à horta pode ser atravessada pela presença de um ninho de passarinho, uma casca de inseto…”, contam elas. Daí o foco muda e a vivência proposta se deixa perpassar por outros aprendizados.

Para Ana, uma das coisas mais importantes nessas vivências pelo brincar é “a possibilidade de ouvir e falar. Aprender a conviver com o outro, saber de si, olhar a natureza… A delicadeza de ver o outro, de poder se ver, poder dar nome aos sentimentos, sabendo de si, sabendo do outro”. Já Nicole destaca a resiliência: “Capacidade de se fazer nas mais diversas situações.” E ainda: “o alimento à curiosidade, o desconstruir para construir”.

Brincar assim é ainda melhor!