O FOCO DA VERDADE

Consciente, a Academia de Hollywood prestou inestimável serviço de utilidade pública ao reconhecer o desassombrado “Spotlight” com melhor filme do ano. 

Há um momento em “Spotlight” em que um psiquiatra revela aos repórteres do jornal The Boston Globe que, cruzando dados no final dos anos 1990, estatisticamente pode-se afirmar que cerca de 6% por cento de padres católicos de uma grande cidade dos Estados Unidos abusaram sexualmente de meninos. A equipe especial de jornalistas conseguiu confirmar a estatística em princípios deste século. E por revelar numa série de reportagens este dado tão inacreditável para além de seus leitores de Boston e com ressonância para além do continente norte-americano, os profissionais integrantes do grupo conhecido no meio jornalístico dos EUA como Spotlight receberam o premio Pulitzer (um dos 19 obtidos pelo jornal ao longo dos anos), o Oscar da imprensa.

Mas como esta é uma glória “apenas” literária, sem as benesses midiáticas mundiais que cercam a exuberância da festa do cinema, o Pulitzer só é informado através de vitrines discretas. Por isso, sob as luzes feéricas dos holofotes do palco do Dolby Theater de Los Angeles, o Oscar de melhor filme para “Spotlight” teve significação muito especial, tanto como revelador de uma chaga ainda aberta no seio da Igreja Católica como quanto fator de multiplicação do fato. O efeito da estatueta, de fato, foi de saneamento moral básico. E se não está havendo ingerência da Igreja na distribuição e exibição urbi et orbi do filme é porque o dedo da Santa Sé, sob o primado de Jorge Mario Bergoglio, aliás Papa Francisco, vem tocando fundo na ferida.

O filme, sóbrio e complexo (mas sempre instigante), pertence a uma vertente cinematográfica em que o jornalismo investigativo é o centro nervoso das tramas, e seus clássicos de referencia instantânea são obviamente “Todos os Homens do Presidente” (o caso Washington Post/Watergate) e “Zodíaco” (a busca de um famoso e jamais capturado serial killer da Califórnia). “Spotlight” se junta agora a estes como mais um filme em grande medida intelectual, ao redor de angustias que vão compondo o quebra-cabeça. É obra de duelos verbais e contramarchas inesperadas. Sem sherlocks ou poirots individualistas. Mas com a perspectiva coral feita de repórteres quase anônimos, com filhos pequenos e vidas ordinárias. Eventuais socos e tiroteios se convertem aqui em xicaras de café e conversas nervosas por telefone. As ruas perigosas são substituídas por elucubrações noturnas em bibliotecas publicas ou entrevistas com lápis e papel.

No fundo se trata da transformação contemporânea daquele que foi um dos gêneros sociais por excelência em Hollywood – o film noir –, no qual a cidade se presta a uma radiografia reveladora e onde os meios de comunicação competem com a polícia. Agora, longe da sociedade existencialista dos detetives do pós-guerra, tudo parte da vida doméstica dos jornalistas e se encaminha rumo a uma meta de magnitude desconhecida, mas intuída: os rostos dos entrevistados, sejam donas de casa, políticos, autoridades, advogados ou padres começam a sinalizar que a cidade de Boston está doente,  que ela esconde uma rede de podridão que custa muito olhar de frente.

Já eram conhecidos o rigor e a lucidez do diretor Tom McCarthy para tratar de temas sensíveis, como a imigração ilegal em “O Visitante” (2007). Resguardadas essas virtudes, ele evita a fácil manipulação de sentimentos, recurso convidativo diante da peculiaridade dos crimes de pedofilia, viés religioso. Nenhum choro convulsivo, apenas a pungente sugestão do sofrimento das vítimas dos abusos sistemáticos dos prelados da Igreja Católica. Ao imaginar, o espectador é mais fortemente perturbado, a dor se faz reflexiva e se estende para além, bem mais além da sala escura do cinema.

“Spotlight” evita concentrar-se em um só personagem. Sua matéria prima é o entranhado quase invisível. O personagem de Michael Keaton, como chefe do grupo Spotlight, fica ao redor de seus colegas de trabalho e logo em torno de alguma pessoas  ligadas às altas esferas da comunidade. A câmera explora sobretudo esses rostos polidos e bem compostos que selaram um pacto secreto e que sempre buscam impedir que o sistema de poder se quebre. Tudo parece convidar ao silencio e renúncia de informações. Desta forma, cresce a tensão que acompanha a tessitura dessa teia que busca a explicação detalhada do que ocorreu e do que teve que ser feito para conseguir trazer a verdade à tona. Detalhada, mas sem nunca deixar de lado o interesse, manobrando o espectador como se ele estivesse lendo a reportagem no jornal, como se se tratasse de uma longa entrevista com repórteres e redatores do Boston Globe. O importante é a reação da plateia diante da estupefação dos jornalistas que vão somando dados aterradores. E essa reação acontece com a força multiplicadora que ela precisa ter.

“Spotlight” é desses filmes que merecem um premio coletivo para seu elenco de protagonistas. Um brilho coletivo. O quinteto de interpretes, além de talentos robustos, teve ainda a sorte e o privilegio de contar com um roteiro (Oscar na categoria) que traçou apenas o essencial, e que cada um complementasse a sua parte. Mark Ruffalo, Michael Keaton, Brian d’Arcy, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery e Stanley Tucci, estupendos em suas “apagadas”, nada estelares atuações, tão somente a serviço de uma escritura impecável.

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