ARTE EM FLUXO

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Além do traço e em busca da sua própria voz, Reberson Alexandre usa a arte em suas múltiplas facetas para comunicar

Por Layse Moraes
Fotos Fábio Pitrez

Reberson Alexandre, 32 anos, designer, chega sério à entrevista. Ao posar para a foto que ilustra o que você está lendo agora, o fotógrafo pergunta: sério assim mesmo? Reberson responde firme: sim. Durante a conversa, no entanto, ele sorri, ri e se desdobra.

Reberson começou a trabalhar muito cedo, aos 16 anos, com ourivesaria. Foi por acaso. Estava procurando um emprego e, como sempre, buscou algo relacionado a artes e a ourivesaria surgiu. Foi aí que ele teve contato com o manual, com o design. Esse primeiro contato com o trabalho artístico, que já nasceu muito vinculado à ideia do comércio, ao peso do ouro, ao valor, fez com que a preocupação com o mercado sempre estivesse presente em sua vida. Mais tarde, ele fez Design Gráfico na UEL e trabalhou com comunicação visual para uma marca de roupas. Entre fazer uma pós ou ver o que era o marketing na prática, preferiu a segunda opção: “Eu quis viver marketing”.

A história com a arte, no entanto, começa antes, ainda na infância. “A linguagem visual sempre veio de uma forma muito mais natural pra mim. Sempre fiquei rabiscando ao invés de escrever. Então o desenho veio como forma de comunicação desde sempre.”

Reberson é um realizador. Gosta da ação, do resultado. Sua palavra? “Fazer”, ele responde sem pensar muito. “Me interessa o comunicar, não o que o artista quer passar.” Reberson gosta de ressignificar o comum, talvez por esse desejo do alcance: “Eu trabalho com coisas que são comuns. São Jorge, por exemplo. Eu queria achar um símbolo que fosse comum pra muita gente. Coisas que todo mundo conhece”.

Quanto às técnicas e características de sua obra, Reberson desconversa. Há nele um desejo por comunicação, muito mais do que um traço único: “Eu vou da caricatura às artes plásticas e o que une tudo é a comunicação visual. Eu vou pra arte como tentativa de suprir uma comunicação. Quando a comunicação funciona, eu fico satisfeito. Eu vou saber quem eu sou conforme for produzindo e tendo uma resposta”. Reberson não faz arte pela arte. Quer mais. Quer comunicar, quer resultado. “A relação comercial, que muitas vezes é desprezada no nosso meio, é o que sustenta tudo. Se é pra fazer uma peça sem pensar no mercado, não há porque fazer design. Eu fiz design pra aumentar o potencial da arte.”

Reberson é um quebra-cabeça. Cita autores e obras, respira e expira referências de todos os tipos – Picasso, Goya e Maurício de Souza, por exemplo. E ainda Frank Miller, Alan Moore, Basquiat, Jay-Z e Fernando Pessoa.

Apesar de sua obra parecer ter também um caráter múltiplo, já que passa pelo nanquim sobre papel, grafite sobre papel, stencil, instalação, Reberson dispensa classificações: “Eu não classifico meu trabalho. Eu estou no oposto. Eu estou tentando fazer, não classificar. Eu quero fazer, não falar”. Reberson é um flâneur de várias linguagens e transita pela imagem com fluência: “Eu assumo que tenho um fluxo. As coisas simplesmente vão acontecendo”.

“Eu consigo fazer retratos realistas, de grafite sobre papel, mas o traço não é meu foco. O significado é que me interessa. Eu me sinto mais comunicador. Você não me vê falando do traço. Meu traço não me interessa. Tanto que eu vou mudando, porque não me interessa”, ele diz. É então a forma de comunicar que importa e que transcende a técnica. “Agora estou brincando muito com aquarela. Tudo depende da mensagem, daí eu vejo qual técnica fica melhor”.

Reberson fala, animado, sobre encontrar uma “voz”, conceito muito comum no inglês, mas pouco usual no português – talvez algo entre estilo e essência. Você acha que já encontrou sua voz?, eu pergunto. “Eu acho que estou encontrando”.

     

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