CORPO PERFEITO?

silueta deitada copy

A busca por se encaixar em um padrão pode acabar em distúrbios de imagem e outros problemas de saúde

Por Layse Moraes
Fotos Fábio Pitrez 

Na capa de revista, nas manchetes, na televisão, nas redes sociais… O corpo perfeito é vendido como o maior desejo e o principal objetivo, mas a que custo?

A jornalista Simoni Saris é uma das pessoas que já se perderam na linha tênue entre a saúde e a doença. Ela conta que foi uma criança gorda e que a cobrança externa e a visão do outro sobre ela sempre foram pontos complicados. “Eu era chamada por apelidos dentro da minha própria casa, então meu pânico de engordar sempre esteve muito vinculado ao externo. Eu não queria mais ouvir essas coisas”. Isso foi o primeiro passo de uma relação complicada com o próprio corpo, que durou quase dez anos e foi ficando cada vez mais grave. “Ficava dois dias sem comer porque tinha medo de ficar gorda. Apesar de ter 50 kg na época, eu me imaginava mais gorda, não conseguia ter a percepção do meu corpo”, conta Simoni. Mais tarde, a depressão chegou e a anorexia veio com tudo. “Eu entrava em competição comigo mesma pra ver quão pouco em conseguia comer. Cheguei a ficar 48h sem comer, só bebendo água”. No auge da anorexia, ela ainda andava 12 km por dia, “porque não podia nem pensar em engordar”, desabafa.

Ela só se deu conta de que algo estava errado quando tirou uma foto 3×4: “eu estava uma caveira”. Foi aí que resolveu procurar ajuda e se recuperar aos poucos, mas essa fase deixou marcas: “perdi massa óssea e até hoje eu não voltei ao meu normal. Os pensamentos também ainda voltam e eu fico me policiando para não entrar nessa lógica de novo. Eu não me sinto curada. A minha visão de mim mesma é distorcida. Tem hora que eu acho que estou gorda, tem hora que eu acho que estou muito magra. Eu não quero isso para ninguém… é como se você nunca achasse o seu lugar. É muita pressão e muita crueldade com a mulher”. As mulheres, aliás, são as que mais sofrem com transtornos alimentares e chegam a representar 90% dos casos.

Para a nutricionista Talita Capoani, “há casos de distúrbio de imagem em que a menina tem porcentagem baixíssima de gordura, mas puxa a pele e fala que precisa perder aqui e ali”. Essas mulheres, em sua maioria jovens, relatam não querer sair de casa e não ter nenhum prazer em comer coisas que fujam da dieta. Para Talita, isso é um alerta: “já passou do ponto de ser saudável. Isso é estabelecer uma relação de doença com a dieta e com exercício e precisa de tratamento”. Ela ressalta que ao mesmo tempo em que essa onda de vida saudável é algo bom, também tem seu lado ruim: “as pessoas buscam exemplos no corpo de musas fitness que não cabem na própria vida e quase se viram do avesso pra alcançar isso.” Segundo ela, há pacientes que diminuem as prescrições por conta própria, tamanha a fixação pelo corpo perfeito.

A obsessão pela vida saudável pode ser tanta a ponto de se tornar exatamente o oposto, a falta de saúde – e há uma linha muito tênue entre a preocupação e o exagero. Além da anorexia e da bulimia, transtornos já mais conhecidos, Talita destaca a vigorexia (compulsão por exercício físico em alguém que já tem um corpo atlético), a ortorexia (obsessão por comer saudável) e o overtranning (exercitar-se além da própria capacidade). “É comum que a pessoa apresente mais do que um transtorno”, reforça ela.  Tudo isso tem um impacto muito negativo para o corpo, como “falta de rendimento, cansaço, falta de concentração, vida social comprometida, falta de libido, baixa de imunidade, fadiga, sono leve, batimento cardíaco irregular, desânimo”, conta Talita.

Mesmo tendo superado a anorexia, Simoni confessa: “Eu ainda me olho com crueldade, porque a cobrança do mundo é muito cruel. Eu acho que eu me curvei a essas cobranças e me curvei a um padrão. Acho que falta autoestima e segurança. Mas como sair disso?”, ela questiona.

Na contramão da demanda pela perfeição, há todo um movimento body positive, de amar o próprio corpo independente de como ele é, ganhando força. Ser feliz com o próprio corpo é quase um ato de resistência e, depois de passar por tanta coisa, para Simoni uma coisa é certa: “Eu espero que o lado da resistência ganhe. As pessoas não podem ser resumidas a um corpo”.

 

 

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