ELETRÔNICO OU ACÚSTICO?

Trio inglês GoGo Penguin leva o trip hop para instrumentos como piano, contrabaixo e bateria.

 

Manchester, no centro da Inglaterra, é um polo econômico protagonista da revolução industrial. Paralelo ao desenvolvimento financeiro, veio um cenário cultural efervescente. Lá surgiram Joy Division, Smiths, Oasis e Chemical Brothers. O que pouca gente sabe, porém, é que Manchester também está transformando o jazz.

O trio GoGo Penguin surgiu na cidade com a proposta de transportar o ambiente eletrônico para instrumentos acústicos. Formado por Chris Illingworth (piano), Nick Blacka (contrabaixo) e Rob Turner (bateria), o trio estreia na gravadora Blue Note, reconhecida por abrigar lendas do gênero, com o disco Man made object.

É um título que se refere à artesania do processo musical. No GoGo Penguin, as melodias são curtas e cíclicas, como em um looping, enquanto o contrabaixo e a bateria recriam atmosferas eletrônicas típicas do trip hop.

Man made object é o terceiro disco do grupo. O primeiro foi Fanfarres (2002), ainda com Grant Russell no contrabaixo. Em 2014 veio v2.0, rendendo uma indicação ao importante Mercury Prize.

A sequência de lançamentos reforça os fundamentos do grupo, que traz ainda influências da música contemporânea, do rock, do pop e da música clássica.

Embora se constitua como um trio típico do jazz, o GoGo Penguin não possui liderança. Sua música é fundada na divisão igualitária dos instrumentos. Não há um solista específico, mas o trabalho em conjunto. Embora o componente inovador seja evidente, o GoGo Penguin não radicaliza no experimentalismo. Sua música não é difícil de ouvir.

Saber que seus integrantes gostam de robótica, incluindo estudos sobre implantes de equipamentos eletrônicos no corpo humano, ajuda a entender o processo criativo do trio.

Os temas são compostos em computadores para, depois, serem adaptados aos instrumentos. Essa transposição cria uma interessante liga entre eletrônico e acústico.

Além da qualidade musical – o trio toca realmente bem –, o GoGo Penguin pode ser estratégico para o tradicional selo Blue Note, atraindo um público mais jovem para o jazz.

Se a aproximação com o pop é uma realidade que acompanha a história do gênero – de Cab Calloway a Quincy Jones, passando por Miles Davis –, o namoro se fortaleceu em uma nova geração, com nomes como Trombone Shorty e Bonerama, que vêm galgando respeito no meio jazzístico.

Gogo Penguin parece vacinado contra as frivolidades que a fusão com o pop costuma provocar, e entra neste cenário com pulso firme e trabalho coeso, capaz de agradar até mesmo o fã mais tradicional do gênero.

Man made object, já disponível em ferramentas de streaming (Spotify, Deezer, Rdio, Apple Music) mostra como a capacidade de atravessar fronteiras e cruzar emoções tem garantido vida longa ao jazz.

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