A ROSA DE TCHERNÓBIL

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Ao contar a história oral da catástrofe nuclear ocorrida há 30 anos, Svetlana Aleksiévitch faz uma impressionante metáfora do nosso tempo.

 

No dia 26 de abril de 1986, à 1h23min58s, explodiu o reator da Central Elétrica Atômica de Tchernóbil, na cidade de Pripyat, ao Norte da Ucrânia, perto da fronteira com a Bielorrússia. Ambos os países e a usina nuclear pertenciam à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). 

Todos nós conhecemos “Rosa de Hiroshima”, poema-canção de Vinicius de Moraes. Agora você deve se preparar para conhecer a “Rosa de Tchernóbil”, composta pela escritora e jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015. O livro “Vozes de Tchernóbil — Crônica do futuro”, cuja edição brasileira foi publicada pela Companhia das Letras, não é apenas uma canção como a Rosa de Vinicius. Trata-se de um romance-oratório percorrido por inúmeras vozes das vítimas do desastre nuclear, que em muito se assemelha ao desastre social e ideológico do comunismo. Não por acaso, o desastre de Tchernóbil e a dissolução da URSS foram separados por exatamente cinco anos: de 1986 a 1991, o império de Lênin ruiu. 

A pequena e desconhecida Bielorrússia foi a mais afetada pelo holocausto nuclear. Para dar uma dimensão do golpe no país, a autora informa que 23% do território da Bielorrússia (atual Belarus) foi contaminado por Tchernóbil; a Ucrânia teve atingida 4,8% de sua área; a Rússia, 0,5%. Na Segunda Guerra Mundial, morreu um em cada quatro bielorrussos; hoje, um em cada cinco habitantes do país vive em áreas contaminadas. Os nazistas destruíram 619 aldeias do país; com Tchernóbil, foram perdidas 485 aldeias, das quais 70 foram sepultadas debaixo da terra para sempre. Antes do desastre nuclear, havia 82 casos de câncer para cada 100 mil habitantes. Hoje, nas regiões atingidas, são 6 mil pacientes oncológicos para os mesmos 100 mil. Em locais próximos de Pripyat — hoje uma cidade-fantasma — sete em cada dez pessoas estão doentes. Nas duas áreas mais afetadas pela radiação, o índice de mortes supera o de nascimentos em 20%. 

O grande mérito de Svetlana Aleksiévitch é narrar todo esse drama de maneira sensível e autêntica, sem jamais perder de vista a combinação entre beleza e verdade. Com alma de repórter e um comovente respeito pelas vítimas, Svetlana se autodefine: “Flaubert disse de si mesmo que era um homem-pena. Posso dizer que sou uma mulher-ouvido”. Todo profissional da escrita sabe que para escrever um bom livro ou um bom jornal é preciso ter material para três ou quatro. O talento da escritora bielorrussa (de expressão russa) consiste em saber ouvir, selecionar e passar ao papel aquelas falas que vêm diretamente do coração das pessoas. O resultado é sinfônico, polifônico, digno da melhor tradição da literatura russa nos séculos XIX e XX: Tolstói, Dostoiévski, Tchekhov, Pasternak, Akhmátova, Soljenítsin. Há momentos em que pensamos estar diante de um personagem alucinado de “Crime e Castigo”; outros, diante de um soldado ferido de “Guerra e Paz”. 

Trinta anos depois de Tchernóbil, o povo bielorrusso ainda convive com as feridas do holocausto nuclear. Enquanto isso, no mundo inteiro, o poder do mal se infiltra nos países e culturas mais diversos, muitas vezes de forma invisível e deletéria, como a radiação nuclear. Escutar as vozes de Tchernóbil pode ser um exercício para escutar a nossa própria voz. Em legítima defesa do que você ama, não deixe de ler este livro! 

—“Vozes de Tchernóbil”, de Svetlana Aleksiévitch. Companhia das Letras, 384 páginas. Tradução do russo: Sonia Branco.

 

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SINFONIA DE VOZES

 

“O átomo militar era o de Hiroshima e Nagasaki, o átomo da paz era o da lâmpada elétrica de casa. Ninguém imaginava que ambos os átomos, o de uso militar e o de uso pacífico, fossem gêmeos.” (Autoentrevista da autora) 

“Eu quero testemunhar, minha filha morreu por culpa de Tchernóbil. E ainda querem nos calar. Anote. Anote ao menos que minha filha se chamava Kátia. Katiúchenka. Morreu aos sete anos.” (Nikolai Kalúguin, um pai) 

 “Todos nos chamamos pessoas de Tchernóbil. Nós somos de Tchernóbil, eu sou de Tchernóbil. É como se fôssemos um povo à parte. Uma nova nação…” (Nikolai Járkov, professor)
“Isso já é história. História de um crime.” (Vassili Nesterenko)

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