O LIVRO QUE AINDA NÃO LI

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Confissões de um leitor que todos os dias busca a página ideal.


A imagem mais remota que tenho em minha memória é a de meu pai lendo um livro à noite, na poltrona da sala, em nosso pequeno apartamento da Alameda Barão de Limeira, em São Paulo. Ele não está mais aqui para que eu possa perguntar qual era aquele livro; ainda que estivesse, dificilmente se lembraria do nome da obra lida há mais de 40 anos. De certa forma, aquela cena definiu a minha trajetória na vida. Ainda muito pequeno, eu já sabia que meu destino estaria relacionado àquele objeto retangular de papel, que meu pai olhava com absoluta atenção.  Tornei-me um escritor, é verdade; mas, acima de tudo, tornei-me um leitor. 

Ou ainda: eu virei um caçador de livros. Todos os dias, saio à procura de páginas que me transformem em um novo homem. São raras. Até porque, com um pouco de experiência, você descobre que a maioria absoluta dos livros não vale a tinta nem o papel consumidos para a impressão. Acontece o mesmo com a música, com a pintura e com todas as outras formas de expressão cultural: quase todas as obras têm como destino merecido o total esquecimento. A verdadeira arte é difícil de achar. Mas compensa, amigo, pode ter certeza. Um parágrafo realmente bem escrito nos deixa mais próximos da contemplação da verdade, que é como Aristóteles definia a felicidade humana. 

O primeiro lugar em que realizo minha expedição ao mundo dos livros é minha própria casa. Há dezenas de livros não-lidos em minhas estantes, esperando a sua vez. Também vasculho, com a ansiedade e a esperança de um minerador, as estantes das bibliotecas e sebos de minha cidade. Quando viajo, a primeira informação que desejo obter é o endereço das livrarias; só assim para me sentir um pouco em casa longe de casa. 

Já passei muitos anos atrás de livros que, infelizmente, me decepcionaram. Às vezes eu fico pensando que seria melhor não os ter encontrado. Foi o caso de “A Longa Viagem”, de Jorge Semprún, e “Os Últimos Dias de Bukhárin”, de Roy Medvedev. Outras obras, ao contrário, como “Relatos de um Peregrino Russo”, encontrei por acaso e foram verdadeiras iluminações em minha vida de leitor. 

É bem possível que meu pai estivesse lendo “Guerra e Paz” ou “Trópico de Câncer” naquela noite em São Paulo. Meu pai adorava Tolstói e Henry Miller, que se tornariam também meus autores de cabeceira. Mas, quem sabe, embora agnóstico, Paulo estivesse lendo o seu Novo Testamento, no velho exemplar que guardo comigo. A Bíblia é um livro que não decepciona jamais. 

De qualquer modo, como se aproxima um novo ano de leituras, faço aqui uma sugestão: presenteie a si mesmo com um livro após ler este artigo. A palavra livro vem de “líber”, a membrana que existe abaixo da casca das árvores. É a mesma origem da palavra liberdade. Leia um livro. Seja livre.

 Paulo Briguet é jornalista e escritor.

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