O MISTÉRIO DE ADÉLIA PRADO

Uma das glórias da literatura brasileira é esta católica e mãe de família que vive em Divinópolis e escreve como os anjos. Nunca é tarde para conhecer Adélia, poeta e profeta.

 

Eis que lhes proponho um mistério: a maior escritora brasileira viva nasceu e mora na cidade de Divinópolis (MG), tem 80 anos de idade, é católica apostólica romana, dá aulas de catequese, tem como suas principais influências a Bíblia e Guimarães Rosa, rejeita o feminismo e publicou seu primeiro livro de poemas aos 40 anos, quando já era mãe de cinco filhos. Ela sempre foi e continua sendo uma mulher muito bonita, mas não fez plástica e não pinta os cabelos. Escreveu alguns dos melhores versos de nosso idioma nas últimas cinco décadas, além de ser boa de prosa, nos dois sentidos da palavra. 

Se me pedissem para indicar um autor nacional à comissão julgadora do Prêmio Nobel de Literatura, eu diria sem pestanejar o nome de Adélia Prado. Só o seu primeiro livro de poemas, “Bagagem” (1976), já a inclui no rol dos grandes da literatura brasileira moderna. 

O psicólogo austríaco Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz, descobriu que a força-motriz da existência humana não é o sexo ou o poder, mas a procura por sentido. Ao analisar o perfil de sobreviventes do campo de concentração, Frankl notou que todos permaneceram vivos porque tinham alguma tarefa ou propósito a cumprir na vida. A obra de Adélia Prado é a expressão de uma eterna busca por sentido nas coisas, nas pessoas e nos acontecimentos. Poética e profética, ela pousa sobre os fatos elementares da vida — seja a vida cotidiana, amorosa, familiar ou espiritual — com uma intensidade simbólica e uma delicadeza brutal. 

Toda fé católica da escritora mineira tem como fundamento um conjunto de mistérios — enigmas de grande beleza, mas que não podem ser reduzidos às categorias racionais humanas. A existência da própria Adélia é um mistério de glória, dor, alegria e luz, semelhante àqueles que compõem o Rosário de Nossa Senhora. Diante de seus poemas, a primeira atitude é quase sempre de perplexidade. 

POESIA E PROFECIA 

A palavra poeta está contida dentro da palavra profeta. Poesia e profecia guardam uma relação íntima, a tal ponto que em alguns casos é impossível discernir o que é uma coisa e o que é outra. Em geral, não gosto de utilizar a palavra poetisa. Creio que o uso do termo acaba por se tornar pejorativo (o mesmo ocorre com a palavra presidenta, hoje mais do que nunca). No caso de Adélia Prado, é duplamente indispensável usar a designação poeta, uma vez que em seus escritos a poesia e a profecia caminham de mãos dadas. Adélia é poeta-profeta das pequenas coisas, dos estranhamentos cotidianos, das mágicas domésticas. “A arte pousa onde lhe apraz”, disse a escritora numa palestra recente. “Porque a arte nos humaniza: não mostra a aparência, mas nos induz à intimidade com a alma das coisas e com o nosso próprio ser”. 

Os poemas de Adélia Prado são pequenas consolações em forma de literatura. Ela vive numa atmosfera absolutamente dominada pelo amor e compaixão: “Sou curva, mista e quebrada/ sou humana. Como o doido,/ bato a cabeça só pra gozar a delícia/ de ver a dor sumir quando sossego”. No velório de uma querida amiga — que sempre dizia “É um problema, comadre” —, confessa-se de um modo avassalador, criando uma atmosfera de empatia com os leitores em todos os tempos e lugares: “Vou fazer um retiro, minha glicose subiu/ e mesmo com comprimido demoro a pegar no sono./ Deus, tem piedade de mim./ Peço porque estou viva/ e sou louca por açúcar”. É um problema, comadre. E é uma bênção. 

REVELAÇÕES 

O termo epifania aplica-se constantemente à obra poética da escritora de Divinópolis. Seus poemas curtos são pequenos apocalipses, pequenas revelações das angústias e alegrias residentes em cada coisa. Apenas os versos dedicados aos prazeres e padecimentos do corpo humano dariam assunto para um grande ensaio literário. E onde a nossa poeta vai buscar inspiração para falar sobre a vida corporal? Nos autores modernos? Na psicanálise? Nada disso. Ele mergulha no universo bíblico de Jó: “Desperta, corpo cansado; louva com tua boca a cicatriz perfeita,/ o fígado autolimpante,/ a excelsa vida./ Louva com tua língua de argila,/ coisa miserável e eterna,/ louva, sangue impuro e arrogante,/sabes que te amo; louva, portanto./ A sorte que te espera/ paga toda a vergonha,/ toda dor de ser homem”. 

Uma das qualidades que mais me atraem em Adélia Prado é a vinculação permanente com o amor familiar. A todo momento, ela está evocando os antepassados — especialmente a mãe — como um bálsamo para as horas de angústia e medo. A simples imagem das próprias mãos lhe inspira estes versos de uma intensidade miraculosa: “Entre pergunta e resposta, vi o dedo/, o meu, este que, dentro de minha mãe, a expensas dela formou-se/ e sem ter onde ir fica comigo,/ serviçal e carente”. Em outro poema, o lamento saudoso transforma-se em grito: “Me socorre, pai, mãe, me socorre, irmãos meus, ancestrais, pecadores todos.” 

Adélia Prado é a escritora que faz a visão de três pássaros, pousados no mesmo galho, tornarem-se uma imagem da Santíssima Trindade: o Pai criador, o Filho redentor e o Espírito santificador. Sua capacidade de espiritualizar o mundo desconhece limites. E encerro este pequeno ensaio com uma frase que seu irmão morto lhe deixou em uma longínqua carta: “Somos de Deus, irmã”.

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