PARATY É UMA FESTA!

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A Festa Literária Internacional de Paraty transforma a cidade em um reduto cultural encantador.

 

Todo ano, desde 2003, o tempo para durante alguns dias em Paraty (RJ). A Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) rouba a cena, o mar e o centro histórico e entrega de volta o debate literário e o olhar voltado para a cultura.

A Flip é uma festa. E isso vai ao encontro da ideia de vivência e experiência. É isso que a Flip faz pulsar às margens do rio Perequê-Açu, na Tenda dos Autores, lugar montado especialmente pra receber as atrações principais do evento. Mas a festa não se resume apenas à Tenda: há toda uma cidade que se volta para a literatura e suas interfaces, como o teatro, o cinema e a ciência. Lá em Paraty, por quatro dias, todo mundo pode ver o que quiser, todos tem alcance a tudo – o que soa quase como uma utopia. Mesmo o que se passa nas mesas principais, lá na Tenda dos autores, cujo valor dos ingressos não é tão amigável, é transmitido em tempo real em um telão na parte externa, com cadeiras e fones de ouvido para tradução simultânea quando os convidados não forem falantes de português.

Na programação oficial, há também a Flipinha, Flipzona e Flipmais, que dão mais caldo para o evento, trazendo literatura infantojuvenil, debates, performance, artes cênicas e visuais.

Com curadoria do editor e jornalista Paulo Werneck, a Flip de 2016 homenageou a escritora Ana Cristina Cesar, que se suicidou em 1983, aos 32 anos, deixando uma obra madura e de grande qualidade desde o seu início. Recentemente, a Companhia das Letras lançou Poética, que traz o livro A teus pés, publicado pela primeira vez em 1982, e ainda Cenas de abril, Correspondência completa, Luvas de pelica, Inéditos e dispersos, Antigos e soltos.

UMA FESTA PARA ANA C.

A carioca Ana Cristina Cesar (1952-1983) é, acima de tudo, uma poeta. Fez, como foi apontado em vários dos debates, proesia – misturando a prosa com a poesia e a poesia com a prosa. Fruto da geração dos anos 1970, Ana extrapolava a literatura marginal. Culta e falante de várias línguas, estudava teoria literária e era tradutora, além de uma grande leitora. “Ana falava do lugar da literatura”, Heloísa Buarque de Hollanda deixou bem claro. Era a forma como ela escolheu existir no mundo.

Uma boa forma de conhecer melhor a escritora é pela biografia Ana C.: o sangue de uma poeta, escrita por Italo Moriconi e lançada na Flip. Ele deixa claro que analisar a obra de Ana Cristina é também analisar a sua vida, “já que a poeta viveu a radicalidade da fusão vida e arte”, mas não se engane: “nada de fofocas sobre a vida trágica da escritora que se suicidou” – está logo na orelha do livro.  A obra de Ana C. tem muitas armadilhas e uma delas é mesmo essa, a do suicídio. É preciso, pois, fugir disso e se apegar, acima de tudo, à sua obra.

Ana engana o leitor. Aproxima-se e se afasta de repente; segura sua mão e depois a solta no meio do nada. Faz com que haja um envolvimento quase que físico com o autor, como bem deixa claro na prosa poética abaixo, um pouco roubada de Whitman (artifício que ela usava com frequência):

Recito WW pra você: “Amor, isto não é um livro, sou eu, sou eu que você segura e sou eu que te seguro (é de noite? estivemos juntos e sozinhos?), caio das páginas nos teus braços, teus dedos me entorpecem, teu hálito, teu pulso, mergulho dos pés à cabeça, delícia, e chega – […].

PONTOS ALTOS

Para além dos olhos voltados à homenageada, estavam entre as presenças mais aguardadas da Flip a do autor norueguês Karl Ove Knausgård e da ucraniana Svetlana Alexievich. Ele, autor da série Minha luta, e ela, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura e autora do famoso Vozes de Tchernobyl. Dela, também foi lançado recentemente A guerra não tem rosto de mulher, com relatos reais da 2ª Guerra pela voz de mulheres que estiveram no front, um retrato dolorido e avassalador que ora embrulha o estômago, ora encanta.

A CIDADE PARA ALÉM DA FLIP

Paraty é uma cidade de festividades e, seja lá como for, a pequena cidade colonial do litoral sul do Rio de Janeiro promete encantar.

Além da Flip, a cidade recebe vários eventos ao longo do ano. Entre eles, o famoso Festival da Cachaça, Cultura e Sabores, que acontece desde 1982 e eternizou a famosa cachaça Gabriela, prova obrigatória na passagem por Paraty. Há também o MIMO, festival de música instrumental de todo o mundo e de vários tipos – clássica, jazz, música eletrônica e música popular.

Independente de qualquer coisa, Paraty é sempre uma festa.

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