COSTANZA PASCOLATO

montagem costanza

A bela mulher de 77 anos não tem só uma aparência impecável, mas transcende a estética em uma personalidade extraordinária

Por Layse Moraes

Fotos Fábio Pitrez e Arquivo

“Vocês me dão mais valor do que eu realmente tenho…”, Costanza Pascolato modestamente fala no começo da nossa conversa. Depois que acabamos, a constatação é uma só: não é verdade. A bela mulher de 77 anos não tem só uma aparência impecável, mas transcende a estética em uma personalidade extraordinária – carrega um senso de humor inigualável, a consciência total de seus privilégios, os olhos voltados ao contemporâneo e uma humildade que não deixa esconder: Costanza é singular.

“Meu pai sempre me dizia: Você é bonita, mas o que você tem de mais legal é o gesto”, ela conta. Italiana, Costanza veio para o Brasil com a família ainda criança. A mãe foi uma desbravadora. Mal chegaram, já começaram a trabalhar com seda e exportar tecido – a tecelagem Santacostancia está há mais de 70 anos no mercado. Aos 3 anos, Costanza já ficava ansiosa porque não estava satisfeita com as modelagens de suas roupinhas. Aos 12 foi a Paris para assistir desfiles das grandes marcas – sua mãe a presenteava anualmente com uma peça de alta costura.

A moda a emociona, não só por ela mesma ser um ícone de estilo, mas porque cresceu nesse meio – é negócio, mas também é afeto. Costanza conta que, certa vez, ao visitar uma produção de brocados, chorou. “Desculpe, mas eu cresci entre teares”, explicou-se.

Costanza está quase sempre de preto, mas não deixa de lado os acessórios, como brincos, pulseiras e lenços. “Eu amo cores, sou responsável até hoje pela cartela de cores da Santaconstancia. Mas eu evito porque sou tímida. Eu era ‘muda’ até os 40 anos, depois desembestei”, conta ela, que, entre suas múltiplas facetas, já trabalhou na Revista Claudia Moda e hoje, além de seu site, assina uma coluna na Vogue Brasil.

Vestindo Pucci, em foto tirada por Luchino Visconti (1965)

Para ela, moda é expressão: “Sabe o que me interessa mesmo? São as pessoas. Essa curiosidade que não acaba nunca”. “Eu fugi da escola”, ela conta. Cursou até o Clássico, mas isso não a impediu de aprender de outras formas: “Eu me interessou por muita coisa, eu leio muito. Eu faço curso de geopolítica, eu quero saber que mundo vem por aí e preciso estar num nível de discussão elevada”.

Não é à toa que Costanza é superconectada – ela tem mais de 400 mil seguidores no Instagram e é uma entusiasta da internet. Até programa no Youtube ela estrelou: o Costanza & Marilu, com sua amiga e artista plástica Marilu Beer, foi um sucesso e gerou o maior burburinho pela irreverência e descontração. “A internet tem essa vantagem, porque democratiza e vai criando um grupo de gente que se aceita mais. O futuro vai ser de mais aceitação”.

Conversamos com ela antes do bate-papo proporcionado pela parceria entre a Spezzato + Recos e a Mitsubishi Motos Masami, evento que aconteceu por aqui e que rodará o Brasil todo com o objetivo de possibilitar ao público ouvir a inspiradora Costanza.

O que mais te encanta no mundo da moda?

O que eu gosto na moda é que ela está sempre à frente. Não toda, mas a moda que a gente aprecia… a moda dá o tom do comportamento de cada época.

Quando começou aquela coisa do normcore era um momento em que a moda estava dizendo que estava cansada do exagero. Tem um grupo de gente mais jovem que prefere uma simplicidade que tem a ver com o estilo de vida que eles têm, que gostam de experiências e não só de marca.

Agora com o athleisure, que é essa mistura do atlético, uma coisa mais casual, é a coisa do momento porque tem a ver com a preocupação com a saúde, com o se mexer, a preocupação com viver melhor. O que é o grande mal da época? É o stress, então se você não faz isso, vive mal.

E o que mais te desencanta na moda?

Frescura.

Se você pudesse escolher uma palavra para te definir, qual seria?

Eu sou uma virginiana perfeccionista. E dizem que as perfeccionistas são as grandes pretensiosas, mas eu prefiro ser simples a ser exigente na maneira de viver.

Você fala bastante sobre autoestima. Como é isso pra você? Você sente que tem mais autoestima hoje do que antes?

Eu fui evoluindo na autoestima. Quando a gente é muito jovem, a gente é muito insegura. Criança já nasce com tudo o que precisa pra vida, aí a educação vai meio que podando e a gente fica meio insegura, porque eles te podam pra te inserir dentro de um grupo. Aí a reconstrução da própria identidade é que é o grande lance. Você tem que ser fiel a si próprio e nem driblar e nem mentir.

E a moda pode ser uma ferramenta para aumentar a autoestima?

Costanza Pascolato na redação da Claudia Moda (1971)

Eu coloquei isso no meu livro, “O Essencial”: “Só os tolos não julgam pela aparência” (Oscar Wilde).

Você já disse que veio de uma família cheia de mulheres fortes e isso te inspirou muito. O quão isso foi importante pra você?

Eu não sabia que era forte. Eu não sabia antes, fui saber depois. Foi ótimo, porque me ajudou, já que a maioria da minha família era formada por intelectuais. Eu não podia ser menor. Aliás, eu era considerada menos, porque só me interessava por arte e moda…

E o que mais te inspira?

Com certeza minhas filhas e meus netos. Claramente a minha profissão é uma coisa que eu adoro, que me dá recompensas… mas a inspiração mesmo é a força e a juventude dos meus netos, o interesse nesse novo mundo que eu não conheço tão bem.

Mas você está super por dentro das redes sociais…

Mas é o jeito como você lida com elas que é diferente. Eu nunca serei escrava das redes sociais. Tem uma hora à noite que eu não atendo nem o telefone. E eu posso fazer isso. Eu nem olho…

Você tem algum livro de cabeceira?

Eu li muito… Li todos do Oscar Wilde… De história da moda, tem o Gilles Lipovetski, o único filósofo que realmente falou da indústria da moda como componente da sociedade contemporânea.

Tem algum ícone de estilo em quem você se inspira?

Eu sempre achei linda, mas não me inspiro mais porque não dá… Audrey Hepburn.

Como não dá? Você é super Audrey!

É… não sei! (risos) Mas eu sempre gostei!

A Fernanda Montenegro disse uma vez que acha um saco ser chamada de “a grande dama do teatro”… e as pessoas se referem a você como “a papisa da moda”. Você gosta?

Eu acho meio bobo. O que quer dizer isso? Mas assim… tudo bem, acho maravilhoso, porque é um reconhecimento.

O que é estilo pra você?

Estilo é conhecer a si mesma.

*

Ao final da entrevista, Costanza quis me mostrar um vídeo. “Talvez você não se emocione tanto quanto eu, porque você é muito nova”, ela me disse. No vídeo, que ela carinhosamente me enviou depois, Fernanda Montenegro declama um trecho da Simone de Beauvoir sobre a velhice. Era também sobre esse tema a minha última pergunta à Costanza, que acabei não fazendo – seria algo sobre como nós, mulheres, somos cobradas a parecermos jovens para sempre, então eu queria saber como a Costanza lida com isso. Sem imaginar, através do vídeo, ela me respondeu:

“A impressão que eu tenho é de não ter envelhecido, embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou para mim. Provisoriamente. Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar. Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa para a minha liberdade hoje? Não sou escrava dele. O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida. Unicamente, o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo. Vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade. Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.” (Simone de Beauvoir)