JOMAR, O ALFAIATE

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As memórias de Jomar, alfaiate desde os 11 anos, cruzam-se com a história de Londrina e emocionam pelo otimismo e amor à profissão

Por Layse Moraes
Fotos Fábio Pitrez e Arquivo Pessoal

 

Ali, na Rua Goiás, 1393, vê-se a placa “Jomar – roupa sob medida e locação”. Jomar tem 81 anos e é alfaiate desde os 11.

“Eu Tinha 9 anos quando a guerra terminou”, ele me conta. “Meu pai já tinha morrido e minha mãe estava doente e logo faleceu. Eu tinha vários irmãos e uma irmã mais velha ficou cuidando de mim. E eu já trabalhava nessa época. Vendia doce, pastel… Eu era um garoto muito esperto. A gente, criado sem pai e sem mãe, parece que a própria natureza cuida de deixar mais esperto”.

O primeiro trabalho de Jomar foi em um hotel, ainda bem novinho, aos 9 anos. Ele trabalhava na copa – punha a mesa, tirava a mesa, lavava a louça e cuidava de tudo o que envolvesse o café. Foi ali também que seus caminhos se cruzaram com o de um hóspede que era alfaiate.

Ele prestava atenção em Jomar, na atitude, na maneira de ser. “Mais tarde, ele me convidou para trabalhar com ele e aprender a profissão de alfaiate. Ele me pagou 5 mil réis a mais do que o que eu ganhava do hotel, mas me garantiu que em pouco tempo eu já poderia me tornar um calceiro e ganhar mais dinheiro. Ele me animou e depois de mais algumas conversas eu aceitei a proposta dele.”

Era a década de 1940 e era Corinto, norte de Minas Gerais. “Eu tinha vontade de sair pelo mundo e encontrar um lugar onde eu pudesse viver. Eu trabalhava muito. Tinha muito serviço de alfaiataria e a gente trabalhava até meia-noite… Eu nem estudei por causa disso, porque trabalhava demais e cada vez mais fui gostando da profissão”, conta Jomar.

Mais tarde, com 17 anos, em 1953, Jomar veio para o Paraná pela primeira vez. Quando chegou aqui, a grande geada tinha deixado a situação complicada e o estado passava por muitas dificuldades. “Londrina eu conheci através de uma revista que fazia propaganda da cidade. A cidade do interior que mais tinha tráfego aéreo! E naquele tempo era tudo terra, poeira e lama! Quando eu vi aquela terra roxa, aquele movimento extraordinário, aquelas pessoas que vinham de outros países para Londrina, eu coloquei na minha mente: é para lá que eu vou. Fiquei aqui uns três meses e voltei para Minas, mas nunca esqueci que eu tinha que voltar pra Londrina. Eu tinha no meu coração que eu tinha que voltar e voltei.”

Seu Jomar saiu de Corinto definitivamente no dia 7 de março de 1958 e chegou a Londrina no dia 11 de março de 1958. Veio de trem, parou em Assis e depois seguiu até aqui. “Pra mim, foi o lugar mais bonito que eu já vi na minha vida. Já cheguei procurando serviço. Se eu não encontrasse serviço de alfaiate, eu ia aceitar qualquer serviço, contanto que eu conseguisse ficar em Londrina.”

Recém-chegado, Jomar saiu da pensão, caminhou pela Rua Sergipe e começou a ver várias alfaiatarias. Uma delas era a Kosmos. “O senhor alfaiate disse que tinha muito serviço e que eu poderia, sim, começar a trabalhar com ele. Quando foi no outro dia, às 7h da manhã, eu já estava lá. Naquela época, a gente deixava o serviço às 23h. Trabalhei naquela alfaiataria durante cinco anos. Depois me casei e comecei a trabalhar por minha conta. Primeiro em casa – comprava cortes de tecido e saía vendendo pela cidade. E assim comecei e assim estou: todo esse tempo em Londrina, trabalhando por minha conta. Já tive alfaiataria em diversos lugares, só na Rua Pernambuco, por 25 anos.”

Daquela época pra cá, Seu Jomar conta, tudo mudou. “Ninguém ia para a Igreja, para o teatro ou para o cinema sem estar vestido de terno. Em Londrina, tinham centenas de alfaiates. Então tinha muito serviço. A profissão de alfaiate está em extinção! Antes tinham centenas e centenas, hoje acho que não tem meia dúzia. É uma pena, mas não tem ninguém aprendendo. É uma profissão que precisa de muito trabalho. É um casamento. Eu sou casado há 54 anos, mas tenho muito mais tempo de alfaiataria. Isso é de um valor inestimável. A alfaiataria supriu todas as minhas necessidades e as necessidades da minha esposa, de meus filhos e continua ajudando meus netos. E por que às vezes as pessoas se queixam do trabalho e da profissão? É porque não veem como é uma bênção. As pessoas ficam loucas para se livrar do trabalho, ficam querendo que chegue logo as férias. Eu nunca conheci esse prazer. Se eu tirei alguns dias para fazer alguma viagem, quando eu viajava todo mundo vinha trazer roupa pra eu fazer.”

Entre as lembranças mais queridas de Seu Jomar, está o foot, uma prática que sempre existiu em Londrina e tinha como endereço principal a Avenida Paraná. “As moças vestiam seus melhores vestidos, muito perfumadas, os rapazes também vestiam sua melhor roupa, calça frisadinha, sapato brilhando, e todos ficavam na maior elegância, andando para lá e para lá, para quem sabe encontrar uma companhia para o teatro ou o cinema. O Cine Ouro Verde era totalmente perfumado, porque as pessoas estavam todas perfumadas. Na Avenida Paraná, a gente comia, bebia e ia dormir para acordar bem cedo no outro dia e trabalhar. Eu olhava pra Londrina e pensava: é aqui que eu quero ficar até o fim da minha vida.”

Jomar é um otimista nato. Seu encanto é com a vida, com o trabalho e, principalmente, com a realidade dos dias. Dos seus 81 anos, ele se recusa a dar peso ao tempo: “A gente chega num tempo, que, como dizem, é a idade das dores. Mas a gente não pode se importar com as dores. A gente chega em casa, toma um banho, dorme e tem que levantar animado para poder trabalhar. É assim a vida toda então parece que a gente costuma. Hoje, depois de oito horas de trabalho, dá um pouco de dor no ombro, mas não dá pra pensar na dor ou na idade. Enquanto eu tiver uma mente capaz de aprender, ouvidos para ouvir, boca para falar… enquanto eu puder calçar o sapato e vestir as calças, eu quero trabalhar. Enquanto eu puder trabalhar, eu quero trabalhar. Eu peço muito a Deus para que eu tenha sempre uma boa mente, capaz de compreender. Porque a gente está sempre vivendo e aprendendo. 70 anos de profissão e eu ainda aprendo”.

Seu Jomar veste todos os filhos. O filho advogado tem ternos feitos por ele. Outro filho vai se casar em breve e é ele quem o vestirá também. Outro filho se casou e Seu Jomar fez não só o terno do noivo como também o vestido da noiva. “Eu fico muito feliz de fazer roupa para o noivo, para padrinhos… para momentos especiais. E pra quanta gente nós já trabalhamos em Londrina! Hoje eu estou fazendo roupa para netos e bisnetos de nossos clientes do passado.”

 

Do passado para cá, aliás, muita coisa mudou. “A gente trabalhava com muito mais arte. No passado, nosso trabalho de alfaiate era mais esmerado, mais bem feito. Hoje não é um trabalho super bem feito porque, na verdade, há poucas pessoas que dão valor à roupa e desse grupo há pouquíssimos que dão valor à arte, que sabem que isso tem um custo. Porque lá na esquina tem um terno mais barato e com o alfaiate não é assim? Porque não é esmerado. Aqui a gente tira a medida, decora o corpo da pessoa… São detalhes que nem todo mundo valoriza.”

Mas seu Jomar faz questão de deixar claro: todos podem vestir as roupas que ele faz. Tem para todo mundo. Além de fazer as roupas, Seu Jomar também faz reformas e também aluga. “Hoje alugo mais do que faço”, conta.

Ali na Rua Goiás, 1393, vê-se a placa “Jomar – roupa sob medida e locação”, mas não só isso. Seu Jomar costura em palavra a história da sua vida e da sua profissão em paralelo com a história de Londrina. Em duas horas de conversa, passeei pela Avenida Paraná, visitei o Ouro Verde, senti o perfume das moças, sorri ao imaginar o centro tomado de homens impecavelmente bem vestidos e pude ver, pelos olhos desse otimista incorrigível e apaixonado por Londrina, que não há tempo que acabe com um olhar encantado. Com os olhos já úmidos, Seu Jomar conclui, como quem conta um segredo: “Ainda estou com a mente capaz e tenho o prazer de ver e compreender quanta coisa maravilhosa isso me trouxe. Estamos chegando ao fim de uma jornada, de uma vida… Mas se eu pudesse viver mais 100 anos, eu gostaria. E com a mesma mente, a mesma direção. Digo a mesma mente no sentido de poder aprender mais. A vida é muito importante. A vida é uma oportunidade”.

“Enquanto eu tiver uma mente capaz de aprender, ouvidos para ouvir, boca para falar… enquanto eu puder calçar o sapato e vestir as calças, eu quero trabalhar”, diz Jomar

À esquerda, o jovem Jomar e sua máquina de costura. No verso da foto acima, Jomar escreveu: “Londrina – o paraíso terrestre em setembro de 1958”. Na outra foto à direita, Jomar e amigos diante da antiga rodoviária de Londrina

 

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