MATERNIDADE SEM CAÔ

PG12E13

A experiência de ser mãe passa por um momento de desromantização que ajuda mulheres a lidarem com a maternidade de uma forma mais real e menos idealizada

Por Layse Moraes
Imagens Divulgação

 

Representada, a maternidade muitas vezes soa como um mar de rosas. Instinto materno, certezas e felicidade incondicional… essas são as expectativas. A realidade, no entanto, é bem diferente: dificuldades, desafios, ansiedade, isso sem falar na depressão pós-parto – que chega a atingir até 25% das mães, segundo a pesquisa Factors associated with postpartum depressive symptomatology in Brazil: The Birth in Brazil National Research Study (2011/2012).

Para investigar mais o assunto, fomos ao Hospital do Coração para conversar com a Ginecologista e Obstetra Ludmila Seko e com a enfermeira Andrielle Martins, especialista em Saúde Materna e Obstetrícia. Ludmila conta que, apesar de sua formação, não imaginava o quão difícil a maternidade era até se tornar mãe: “Eu sou obstetra, eu lido com gestantes e com mulheres que estão se tornando mães a todo momento. A maioria chora na primeira consulta. Antes eu achava que era um pouquinho de depressão pós-parto, blues puerperal, que é uma coisa super comum na primeira semana, mas eu não me atentava sobre o quão profundo isso era”. Ludmila se tornou mãe há quatro meses e fala de sua própria experiência: “Eu caí do cavalo. Eu fui ludibriada por toda a sociedade durante os meus 32 anos, mesmo convivendo com essas pacientes. Eu me senti enganada! Eu vivo numa sociedade que está parindo há séculos e ninguém me contou! Ninguém conta pra gente a verdade. E eu acho que não conta porque depois que passa o primeiro mês, as coisas realmente melhoram. Todo mundo fala: é difícil, mas passa”.

A experiência da maternidade mudou também a forma como Ludmila lida com as pacientes, principalmente no que diz respeito à empatia.  Segundo ela, a fase mais difícil é o puerpério, período pós-parto no qual a mulher se recompõe da gestação e que envolve uma série de desafios físicos e emocionais. As maiores queixas nessa fase? “Não dormir e amamentar”, esclarece Ludmila. Ela completa: “Não existe muita coisa complexa na hora de cuidar de um bebê. O que é difícil? É a rotina que não acaba. A repetição dos processos. É um sistema de tortura. Acorde alguém de hora em hora e coloque uma pessoa que ela ama chorando. É desesperador. E no dia seguinte tudo continua. Eu sou médica, já fiz muitos plantões de 36h e nem se compara!”.

Sobre a diferença entre expectativa e realidade, Ludmila resume, rindo: “A gente fica tão fora da realidade que eu achava que ia conseguir fazer meu doutorado durante a licença! Mal dá tempo de tomar banho! É uma experiência muito louca”.

A enfermeira Andrielle acrescenta: “De repente você se torna mãe e muda toda a sua rotina. É um processo difícil, você fica procurando a sua identidade. Acho que por isso muitas mães chegam chorando, porque não conseguem se encontrar. Sonhavam com algo que fosse perfeito e não é. De repente se veem em um mundo que não esperavam! É importante o apoio, independente de quem seja.  Essa experiência pode ficar mais leve!”.

As duas concordam que a prática é muito diferente da teoria, e que as mães precisam de menos culpa e mais compaixão e apoio. A grande verdade é que a maternidade não é mole, não, e está longe de ser essa versão romantizada que costuma ser empurrada goela abaixo. Mães não são super-heroínas e nem têm que ser.

Nessa onda, vem surgindo um movimento de desromantização da maternidade, que tenta quebrar o padrão frustrante de vivenciar uma maternidade perfeita – e inalcançável!

Na internet, a voz é ainda mais alta. Thaiz Leão é criadora da Mãe Solo, página no Facebook com quase 70 mil curtidas e carregada de situações reais da maternidade, representadas por meio de desenhos quase tragicômicos. Além da página, Thaiz também é autora do livro “Chora lombar”, um compilado de tirinhas e desenhos sobre a maternidade real. E por que “mãe solo”? Como diz a youtuber Helen Ramos, a Hel Mother, outra figurinha carimbada no bonde da desromantização materna: “Mãe não se define pelo estado civil”.

Thaiz Leão e seu filho Vicente

A Thaiz Leão é mãe do Vicente, que vai fazer 3 anos, e conversou com a gente sobre a maternidade que vai além dos comerciais de margarina e das propagandas de fralda.

A internet tem sido um alto-falante e uma ferramenta de desromantização da maternidade e você é uma das vozes de destaque. Qual era seu objetivo quando você criou a página?

Eu desenhava às vezes, postava na timeline e isso sempre gerava um burburinho. Daí veio a ideia de criar uma página: a Mãe Solo. O que eu mais gosto da Mãe Solo é tudo o que aquele conteúdo gera entre as pessoas, na comunidade, é ver as pessoas se identificarem. É por esse feedback que eu vou fazendo mais, que o projeto vai crescendo mais e que a gente vai indo pra frente, caminhando para o segundo livro, para desenho animado… Ainda tem muitas pontes para atravessar.

Por que você acha que as pessoas romantizam tanto a maternidade? 

As pessoas têm muitos motivos para romantizar a maternidade. Mas um dos principais é para perpetuar o papel de subjugada da mulher. A gente cria essa aura mística e mágica, que a mulher vai parir e vai ter uma conexão que nada explica… a gente vai criando mágica em cima de mágica. E esse romance se autossustenta. Essa quebra que a gente está vendo agora está jogando todo esse romance por terra. E é difícil, por que quem vai querer largar o castelo que construiu? A gente vive a maternidade pisando em ovos, tentando alcançar essa maternidade… e ninguém vai chegar nessa maternidade perfeita. A realidade ainda é um grito fraco no meio de toda essa fantasia.

Como foi o processo de desromantização pra você?

Eu ouvi na maternidade que eu estava acabando com a minha vida. Eu ouvi o mundo inteiro me dizer que eu estava fazendo do jeito errado. Foi aí que eu comecei a perceber que a imagem que a gente compra da maternidade não tem nada a ver com a realidade que a gente vive nela. Ele só mamando, eu não conseguindo dormir, com privação de sono e cuidando dele sozinha… Como as pessoas conseguem viver uma viagem de transcendência, de iluminação, de autodescobrimento, de você se tornar um ser de luz, uma santa, sendo que essa experiência é tão visceral, é tão suja, é literalmente regada a cocô e gorfo. Eu não consegui encontrar o romance nessa existência. Não faz sentido nenhum essa imagem [idealizada] que estão passando. É impossível de alcançar essa existência.

De todas as surpresas que você teve com a maternidade, qual foi a maior?

Eu nunca me canso de me surpreender, de me apaixonar todo dia, do sorriso dele. É um relacionamento que eu nunca tive, mas que eu não me canso. A gente se conhece mesmo desde dentro. Quando ele chegou, eu só precisei falar: oi, e aí? Essa foi minha surpresa boa. A existência dele é minha surpresa diária e é incrível.

Além da Mãe Solo, tem muita gente discutindo maternidade na internet! Vai lá ver:

Ser mãe é padecer na internet – blog da Rita Lisauskas no Estadão, onde ela escreve sobre sua experiência materna de forma lúcida, sensata e crítica.

Hel Mother – Canal do youtube da Helen Ramos, onde ela divide, sem filtros, sua vivência como mãe.

Cientista que virou mãe – site da Raquel Marques, onde escreve sobre as dores e as delícias de ver dois pequenos humanos crescerem neste mundo.

Pra falar de filho – Três mães, um blog: maternidade real, dicas e histórias.