D. READ #3 O PROFESSOR DE SENTIDO

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“Stoner”, romance do americano John Williams, faz você se tornar amigo íntimo do protagonista

Por Paulo Briguet

As primeiras linhas do romance “Stoner” não são lá muito encorajadoras. O autor anuncia que contará a história de William Stoner, obscuro professor de literatura numa universidade do meio-oeste americano, autor de um só livro, nascido em 1891 e falecido em 1956. Essa introdução me fez lembrar o começo do livro “Riso no Escuro”, de Vladimir Nabokov, que diz brutalmente: “Era uma vez um homem que se chamava Albinus e vivia em Berlim. Era rico, respeitável e feliz; certo dia abandonou a mulher por causa de uma jovem amante; amou e não foi amado; e sua vida acabou em desastre”.

Mas acredite, caro leitor: assim como valeu a pena ler “Riso no Escuro”, valerá a pena ler “Stoner”, obra mais conhecida do escritor americano John Williams (1922-1994), lançada no Brasil pelo selo Rádio Londres. A vida aparentemente banal do professor Stoner é descrita com tamanha intensidade, sutileza e compaixão que você acaba por se tornar íntimo do protagonista, vibrando com suas modestas conquistas, sofrendo com suas frequentes decepções, amando cada defeito deste ser miserável e amoroso. A miséria de Stoner é a nossa miséria, e o amor de Stoner é o nosso amor.

Stoner nasce numa família de agricultores pobres do Missouri. Um dia, tem a oportunidade de estudar agricultura na universidade estadual. Logo nas primeiras semanas de aula, no entanto, desinteressa-se pela agricultura e apaixona-se pela cultura, ao ouvir o soneto 73 de Shakespeare recitado por um velho e irônico professor: “Podes em mim ver o tempo sombrio/ Das poucas folhas secas que pendentes/ Tremem nos ramos trêmulos de frio/ Coro em ruína, os pássaros ausentes”.

A vida do protagonista é uma vida que faz sentido justamente porque ele passa pelas quatro acepções de amor definidas por C. S. Lewis. Temos ali o amor-afeição, que Stoner sente por sua filha Grace; o amor-amizade (Philia), pelo companheiro de departamento Gordon Finch; o amor-erótico (Eros), pela aluna e amante Katherine Driscoll; e, finalmente, o amor absoluto (Ágape) que se consubstancia no amor de Stoner pela literatura. Este amor confere sentido a todos os sofrimentos e dissabores enfrentados pelo personagem ao longo da vida.

John Williams conduz a sua narrativa em modo crescente, atingindo as culminâncias da grande arte nas últimas páginas. O adeus de Stoner faz lembrar as mortes de Ivan Ilitch e Nicolau Liêvin, personagens do gênio russo Tolstói. Chegamos ao final da leitura com a sensação de que a vida tem um propósito cognoscível. “Era o seu próprio livro que buscava e, quando a mão o segurou, ele sorriu para a familiar capa vermelha, que estava já descorada e gasta pelo tempo.”

Bravo, Stoner. Sua vida não acabou em desastre.

“Stoner”— Romance de John Williams. Tradução de Marcos Maffei. Editora Rádio Londres. 314 páginas, R$ 57,50.

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