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moonlight

Duas estatuetas, dois spotlights, duas vitórias do melhor cinema: Hollywood afinal chega ao novo século

Carlos Eduardo Lourenço Jorge, especial para Drops
Fotos Divulgação

                                                   

O #OscarSoWhite do ano passado não só mudou de cor em 2017, passando a #OscarSoBlack, mas também ele foi agora #OscarSoIndie, tão independente.  Esta foi a temporada dos cinquenta tons de negro, liderada por “Moonlight”, o grande premiado da festa do Oscar, e dos títulos com dinheiro curto e sem pedigree de produção, mas com muita coisa a dizer.  Um filme “saído do nada”, como definiu o mestre de cerimonias da gala, Jimmy Kimmel. “Do nada” ele quis dizer desde as fronteiras mais distantes de Hollywood, produzido por três pequenas companhias pouco ou nada famosas (uma delas de Brad Pitt e George Clooney) e dirigida por um realizador que até o ultimo domingo somente era conhecido nos circuitos de cinema independente.

Principal oponente às pretensões de vitória arrasadora antecipada para “La La Land”, o drama “Moonlight – Sob a Luz do Luar” caiu do céu para a Academia de Hollywood – finalmente tentando encontrar uma identidade e desfazendo sua imagem de reduto discriminatório e território de supremacia branca vinte e quatro quadros por segundo. Inspirado na peça autobiográfica “In Moonlight Black Boys Look Blue”, o segundo longa metragem do diretor (negro) Barry Jenkins narra a vida de Chiron, menino sem pai biológico, adolescente taciturno e finalmente um adulto negro, pobre, homossexual, filho de mãe solteira e viciada em crack. Esqueçam a Miami dos shoppings e hotéis cinco estrelas, das praias reluzentes e carros de luxo. E bem vindos à Miami de casas pré-fabricadas, narcotraficantes de segunda e viciados irrecuperáveis. É nessa cidade  que cresce e sobrevive num oceano de solidão este personagem, Chiron, uma vida sem saída no horizonte.

Se todas essas características reunidas num protagonista podem à primeira vista parecer golpe baixo duro de engolir, com acumulação exagerada e manipuladora visando à compaixão politicamente correta do espectador, é preciso dizer desde logo que Jenkins trabalha a maioria dos conflitos com a elegância e o pudor necessários para evitar qualquer estridência. Bullying, violência contra quem tem postura diferente, contra a mulher, sessão de abusos e situações incomodas: a direção justa de Jenkins penetra neste contexto de forte segregação sempre respeitando e querendo entender seus diferentes personagens.

História onde não aparece qualquer personagem branco, nem ao fundo da imagem, desfocado que seja (uma decisão artística e politica), “Moonlight” está dividido em três atos, infância, adolescência e primeira fase da vida adulta de Chiron. Mas ao contrário de outros filmes de aprendizagem e rito de passagem através de evolução positiva, neste caso temos um estudo sobre o que sucede a alguém que cresce sem carinho e que somente recebe hostilidade e indiferença – salvo uma exceção, como o improvável mas delicado vínculo afetivo que  une o garoto Chiron a um traficante de subúrbio (Mahershala Ali, primeiro Oscar a um ator muçulmano) e que funciona como figura paterna. O trabalho de Jenkins é minuciosa descrição de como a solidão e o desamparo levam alguém a construir artifícios de autoproteção. E de como essa armadura e esse escudo podem atuar tanto em relação ao mundo exterior como para o interior, bloqueando o desejo e a capacidade de comunicação. Talvez para sempre.

O filme é a melhor representação já feita do que é ser negro e gay numa cultura conservadora e estereotipada como a afroamericana. E também apela ao grande público ao abordar como vivemos e o que significam esses momentos que, de uma forma ou de outra, marcam nossas vidas para sempre. Audacioso, sensível, atípico e universal, “Moonlight” – atenção: observem atentamente aquilo que une e dá real substância de humanidade aos principais personagens dos nove filmes concorrentes ao Oscar desta safra – é discurso sobre uma busca incessante e transcendente, a busca de nossa própria identidade. Um filme tão atual quanto nobre e belo.

Pode não ser muito para alguns, mas foi o bastante para este Oscar, livre de preconceitos. Por dois anos seguidos, brilharam na direção certa os spotlights da Academia, celebrando talento e audácia. E mudanças. The best is yet to come, ou o melhor ainda está por vir. Será?

Carlos Eduardo Lourenço Jorge é crítico de cinema, autocrítico e, por consequência, cinéfilo fiel

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