D. MUSIC #4 OS CINQUENTA PRIMEIROS ANOS DE UMA OBRA ETERNA

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O icônico disco “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, lançado em 1º de junho de 1967, comemora meio século de existência, irreverência e notoriedade musical

Por Eduardo Assad Sahão

 

É intrigante pensar que, após cinquenta anos de seu lançamento oficial, a obra-prima de uma das maiores bandas do mundo ainda mantém-se como trilha sonora indispensável e inspiradora para apreciadores, músicos, compositores e artistas de todas as gerações até então. Nem mesmo o próprio quarteto acreditava no tamanho do impacto que o álbum causaria na indústria fonográfica e cultura musical do século 20, tão como no avanço dos processos composicionais que seu lançamento surtiria.

Ano de 1967. Imagine como era viver no cenário daquela época: a luta diária pelo direito civil dos negros e pela liberdade sexual, a difusão das drogas alucinógenas, intervenção militar dos EUA no Vietnã, a ascensão da cultura hippie, a popularização e a difusão da televisão. Basicamente, um momento intenso de quebra de paradigmas mundanos, que desembocaria na contracultura no final da década de 60 – o que levou artistas do mundo todo a mudarem seu modo de pensar e criar, independente da corrente estética que seguiam, no cinema, no teatro, nas artes plásticas, na dança ou na música.

No panorama britânico, Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr já não suportavam mais a euforia da beatlemania que eles mesmos criaram com suas canções de “iê-iê-iê”. Eram vistos mais como deuses do olimpo no panteão musical do que apenas seres humanos dotados de uma capacidade criativa admirável. O volume e tamanho dos amplificadores da época não conseguiam combater a quantidade e intensidade dos gritos histéricos femininos causados pela presença – geralmente curtíssima, de 20 a 30 minutos – dos Beatles no palco. Fato esse que impulsionou a reestruturação de toda sua carreira pelos próximos anos. Os músicos decidiram então que nunca mais fariam uma performance aberta para o público.

Sem o compromisso de apresentar tais músicas em concertos ao vivo, a nova fase permitiu uma formidável liberdade composicional e conceitual. Já no processo de composição, o Fab-four fugiu do tradicionalismo instrumental vigente nas bandas de rock à época, geralmente formadas por guitarra, baixo e bateria, e inovou, misturando elementos do jazz, da música erudita, indiana, circense e folclórica. Tudo isso regido pelo quinto Beatle, o produtor musical George Martin, figura conhecida pelo alto nível de suas produções com o grupo, aliado a um time de engenheiros de som que abraçariam a causa do experimentalismo sonoro, desconhecidamente assustador para o momento. Martin chegou a colocar uma orquestra completa no estúdio, explorando instrumentos nada usuais para roqueiros rebeldes dos anos 60, como oboé, clarinete, harpa, trompa, entre outros. Uma porta de abertura para tal prática, que vários outros grupos viriam a aderir tempos depois.

O oitavo disco do grupo é repleto de pérolas musicais que estão na ponta da língua de boa parte do mundo, como, por exemplo, “With a little help from my friends”, “Getting Better”, “A Day in the Life”, e “When I’m sixty four”. Cada uma das treze canções tem um propósito musical e uma concepção sonora diferente. Inclusive a polêmica e bela “Lucy in the Sky With Diamonds”, protagonista de um boato que seria uma alusão ao LSD (droga psicoativa bastante difundida na época), de acordo com suas iniciais. O rumor foi logo desmentido pelo próprio compositor, John Lennon, alegando que a canção foi inspirada em um desenho feito por seu filho, Julian.

Além da vertente sonora, o álbum merecia um projeto gráfico à altura. Assinada pelo artista plástico Peter Blake, sendo um dos primeiros discos duplos a trazer as letras das canções em seu interior, a capa do “Sgt. Pepper’s” contempla personagens icônicos como Marilyn Monroe, Karl Marx, Marlon Brando e Bob Dylan, enquanto o quarteto se posiciona à frente, vestindo trajes característicos de uma banda de fanfarra. A Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta.

Vários mistérios circundam a concepção do álbum. Simpatizantes das teorias da conspiração defendem que esta capa possui elementos subliminares, como, por exemplo, uma coroa de flores amarela em formato de contrabaixo no canto inferior direito, simbolizando a suposta morte de Paul McCartney, que – segundo os criadores do boato – teria morrido em um acidente de carro e sido substituído por um sósia. Relativamente inacreditável.

Depois de quatro meses e mais de 700 horas de gravação, o “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” estava pronto. O sucesso do álbum foi praticamente imediato. Alguns dias após seu lançamento, Jimi Hendrix já incorporou sua versão da faixa-título em seus shows. O disco permaneceu 27 semanas seguidas no topo das paradas britânicas e venceu quatro Grammy’s, a maior premiação da música mundial. Essas e outras conquistas elevaram o rock a um patamar de excelência até então inatingível para seus antecedentes.

Até hoje, foram vendidas, aproximadamente, 32 milhões de cópias. O disco é considerado um dos mais ouvidos do mundo e influenciou diversas gerações de artistas, tanto pela incontestável qualidade musical, como por sua aura revolucionária no âmbito da música e cultura popular.

 

Imagens/vídeo: Reprodução