D.CINE #4 CINEMA E HQ: MUITO ALÉM DOS SUPER-HERÓIS

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O cinema e os quadrinhos estão cada vez mais em frenética comunicação. O universo da vinheta, de fato, não alcançou certa maturidade até que pôs os olhos na sétima arte. Mas por outro lado não foram poucas as vezes em que os comics devolveram o favo, influenciando na maneira de fazer filmes. O que teria sido de obras tão reconhecidas e cultuadas como “Robocop” e “Matrix” sem a influência dos quadrinhos?

Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge

Foto divulgação

Nos últimos tempos, parece que os filmes baseados nas histórias desenhadas são exclusivamente adaptações dos universos super-heróicos da Marvel e/ou DC (para quem não sabe: Detective Comics, uma das revistas mais vendidas da editora e que mantém as aventuras do Batman). A guerra entre as duas casas explodiu as bilheterias do mundo inteiro com as épicas batalhas entre esses semideuses modernos, com produtos que parecem adaptar-se – salvo algumas exceções – às formulas pré-estabelecidas com margem reduzida para a experimentação.

Em meio a tantos ruídos de excitação, a mídia especializada (e mesmo os fãs) parece esquecer que há vida inteligente além dos super-heróis. Os comics são um meio diversificado, com uma grande história em sua retaguarda na qual o gênero de heróis mascarados é apenas uma parte vistosa e importante. Mas uma peça a mais no enorme mosaico oferecido por esta extraordinária forma de expressão visual. É claro – mas as pessoas esquecem (e mesmo os fãs) – que há dezenas de filmes, alguns de grande importância, que se basearam em novelas gráficas.

Ha alguns desses filmes que são exemplos do bem sucedido encontro entre os dois meios, proporcionando outras viagens além das rotas conhecidas. Como é o caso de Daniel Clowes e seu “Ghost World”, publicado originalmente em 1997 e concebido nas correntes alternativas que se encontravam em pleno apogeu vinte anos atrás. O esgotamento do gênero super-heróis durante aquela década provocou o êxodo em massa dos leitores rumo a novas formas de expressão, em busca de uma maturidade a que os grandes selos tinham renunciado em favor do sensacionalismo comercial.

 

A história de Clowes se situa na mais absoluta aceitação do cotidiano como fonte de inspiração para criar uma série e personagens tão excêntricos como próximos e reconhecíveis. Os protagonistas cheios de humor negro desta crônica de costumes são duas adolescentes que enfrentam a vida adulta após o fim de seus anos escolares. Sem muitas expectativas em sua pequena comunidade, tentam enfrentar o futuro sem muito entusiasmo. Nas páginas de “Ghost World” as duas protagonistas evoluem em sua relação, entre elas e com o resto dos habitantes peculiares deste mundo fantasmagórico reproduzido por Clowes com obsessão cromática, com personagens que parecem constantemente iluminados por uma luz crepuscular.

A adaptação cinematográfica foi dirigida por Terry Zwigoff em 2001, e contou com a total colaboração de Daniel Clowes, autor da novela original. O roteiro, escrito a quatro mãos, manteve com total acerto a sensação de vazio existencial e o humor referencial, presentes na obra de Clowes. No elenco, uma coleção de nomes conhecidos: Thora Birtch (que já havia conhecido o êxito em “Beleza Americana”) encarna a irritante Enid, enquanto o papel de Rebecca ficou com a ainda muito jovem Scarlett Johansson. As duas atrizes receberam elogios por suas interpretações, ainda que o filme não tenha sido nenhum êxito de bilheteria. Por sorte, no momento de seu lançamento, “Ghost World” (o titulo que recebeu no Brasil, “Aprendendo a Viver”, não ajudou em nada a carreira do filme) caiu nas graças daquele segmento de publico e crítica que coloca certos títulos na categoria de “culto”.

(Na próxima edição da Drops, como os diretores David Cronemberg e Sam Mendes visualizaram as novelas gráficas “Uma História de Violência” e “Estrada para a Perdição”).