D. FOOD – COSTUMES GASTRONÔMICOS

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Fim de ano à moda cultural

Visitamos restaurantes especializados em culinárias de diferentes partes do mundo para descobrir (e experimentar!) pratos típicos das festas de fim de ano

Por Layse Moraes

Fotos Fábio Pitrez

 

Itália por Vittorio Emanuele II

“A tradição fala que a noite do Natal é a noite da vigília”, Alessandro Saba, chef do Vittorio Emanuele II, me conta. Italiano da Sardenha, ele divide os costumes natalinos de sua ilha: “A noite é mais para as crianças, onde a gente vai fazer o jantar de Natal, super familiar, e depois, no outro dia, o almoço de Natal, que é mais amplo, e envolve mais pessoas, incluindo amigos, e, claro, mais comida”.

Agora gastronomicamente falando, na Itália, há o antepasto, o 1º prato, que é geralmente massa, o 2º prato, que varia de região para região e a sobremesa. “Na Sardenha é carne, principalmente no almoço. No jantar, podem ter peixes e frutos do mar. Na sobremesa, o clássico panetone, o pandoro, uma espécie de panetone sem frutas cristalizadas e frutas secas, amêndoas… Depois disso, há o costume de iniciar a tombola, uma brincadeira tradicional italiana que parece um bingo, jogada por toda a família e amigos”, ele conta.

“Para nós, o almoço é se sentar à mesa, todos juntos”, Alessandro relembra. Segundo ele, os almoços italianos são “la grande abbuffata”, traduzindo: uma comilança.

O prato que ele escolheu para simbolizar o seu Natal Italiano é o Culurgiones, uma massa feita com farinha italiana, bem leve, com recheio de batata, hortelã, azeite extra-virgem e queijo parmesão. “A massa é muito simpática”, ele fala enquanto me mostra que ela deve ser delicadamente fechada como em uma costura com as mãos.

Entre as memórias, ele diz que, um dia antes do Natal, toda a família ajudava a preparar as comidas: “O meu estágio foi a minha família. Na véspera de Natal, oito horas da manhã, todo mundo levantava para cozinhar. Não se sentia o cheiro do café, sentia-se o cheiro do molho vermelho. O cérebro memoriza esse cheiro. Todo mundo participava de um jeito: um arruma a mesa, outro faz a carne… era tudo em equipe”, conta. Toda essa fartura, segundo ele, dura do Natal até o Ano Novo.

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Alessandro explica que, na Itália, a árvore de Natal é montada dia 8 de dezembro, Dia da Imaculada Conceição, e desmontada dia 6 de janeiro, seguindo a Lenda da Befana, uma bruxa que acompanharia os Três Reis Magos quando Jesus nasceu, não foi e depois se arrependeu. Para se retratar, diz a lenda, ela distribuiria presentes às crianças como uma forma de reencontrar Jesus nesse ato. A tradição diz que no dia 6 de janeiro a criança acorda e vai até a lareira em busca do que está dentro de uma meia – quem foi uma boa criança, recebe doces, quem não foi, recebe carvão.

Líbano por Mezzate

Mezze significa petisco, ou prato pequeno, e mezzate é o plural dessa palavra. Não por acaso, Mezzate foi o nome escolhido para dar nome ao restaurante de comida libanesa que teve seu início há três anos em Londrina.

Quem está à frente da empreitada é a família El Hajj: Thamara e Joseph. Ela é brasileira com avós libaneses e ele, libanês com alguns familiares no Brasil. A história que precede o espaço gastronômico tem o amor como ponto de partida: Joseph veio ao Brasil, conheceu Thamara e ficou por aqui.

Joseph e Thamara são católicos, mas o Líbano tem várias religiões, sendo a maioria da população muçulmana, seguida pela religião católica. Eles então me contam que o Natal libanês tem muita comida, mas sempre em pequenas porções, incluindo, por exemplo, quibe cru, homus e babaganoush. “Eles gostam muito de comida. Se você se distrair, quando vê, seu prato já está cheio de novo”, confessa Thamara, que já passou as festas de final de ano no Líbano com a família de Joseph. “No Líbano, eles servem de tudo, mas escolhemos para mostrar o charuto de uva”, Joseph conta.

A cidade dele, Zahle, é famosa por suas uvas, e, por isso, o charuto de folha de uva é uma presença recorrente na memória gastronômica e afetiva dele, incluindo as lembranças natalinas: “A minha mãe sempre lembra que preparava as folhas antes para fazer no Natal. Desde pequeno, ela me chamava para experimentar tudo, então eu sempre a ajudava”, ele recorda.

“O charuto de folha de uva é recheado de arroz, carne moída, tempero especial do Líbano, alho, canela, sete pimentas e caldo à base de tomate. As folhas de uva são importadas do Líbano. A coalhada fresca sempre acompanha, mas aqui no Brasil as pessoas não são muito acostumadas a comer assim, mas lá se come junto”, Joseph explica.

O Líbano foi colonizado por franceses e uma das tradições que eles deixaram por lá foi o Bûche de Noël. “Igual fazem o panetone aqui, lá fazem o Bûche de Noël, que parece um rocambole”, Thamara conta.

O Bûche de Noël ou, traduzindo do francês, tronco de Natal, tem uma massa parecida com a de um pão de ló, mas é mais é leve e macio. Recheado com chocolate e farinha de amêndoas, com toques de pistache e damascos por cima, a sobremesa tem formato de um tronco de árvore e é um clássico dos países francófonos.

Thamara e Joseph ressaltam que, assim como no Brasil, há no Natal libanês a troca de presentes e a reunião da família. “Às vezes são mais de 100 pessoas”, Joseph destaca. “Lá no Líbano, todos são muito unidos”, ele conta.

 

Tailândia por Bangkok

Os tailandeses comemoram a virada do ano, chamada de Songkran, em abril – eles seguem o calendário budista, diferente de nós, que seguimos o calendário gregoriano. Chamado de Festival das Águas, durante alguns dias, as ruas da Tailândia, principalmente da capital Bangkok, enchem-se de pessoas brincando e se divertindo com água gelada – um alívio para os dias quentes do país.

Eduardo Hatada, dono do Bangkok, morou na Ásia por muitos anos e desde a primeira vez que esteve na Tailândia já se apaixonou pelo local e pela culinária típica, que tem como marca a mistura entre o doce, o salgado, o apimentado e o ácido. Foi aí que nasceu a ideia de abrir o restaurante tailandês.

“Por ser uma época muito quente, os tailandeses preferem se alimentar de pratos leves. Eles comem muito o Som Tam, que é uma salada de mamão verde, e também o Phad Thai, que é o macarrão de arroz”, Eduardo conta. Ele explica que o Bangkok prefere não fazer alterações nos pratos tailandeses, mantendo-os sempre fiéis à origem: “abrimos mão de fazer o prato para não descaracterizar, por isso plantamos os ingredientes tailandeses aqui”.

 

O Som Tam, prato mais pedido do Bangkok é uma salada de mamão verde, bem crocante e fresca, que tem como marca o gosto da lima tailandesa. Além do mamão verde, o prato inclui cenoura ralada, tomate em cubos, amendoim picado, molho de peixe, alho e água de tamarindo. Já o Phad Thai é um macarrão de arroz com camarão, tofu e broto de feijão, também bem leve e saboroso.

Nos últimos cinco anos, Eduardo passou o Songkran na Tailândia, que começa dia 13 de abril e dura até o dia 15 do mesmo mês. “As pessoas jogam água umas nas outras, primeiro porque abril é a época mais quente do ano, então isso alivia um pouco o calor, e também por uma questão cultural, budista: eles acreditam que a água purifica, então fazem essa limpeza para que se comece bem o novo ano”, Eduardo explica.

 

Japão por Koala

No Japão, a virada do ano é cheia de significado e tem a união como palavra-chave.

Sérgio Onishi, proprietário do Koala, conta que, segundo a tradição japonesa, a primeira refeição do dia 1 de janeiro tem um valor muito especial e o protagonista dessa passagem é o moti. Ele explica: “o moti é feito de arroz, um arroz específico, que amassado vira um bolinho”. Sérgio conta que antigamente o moti era batido manualmente, em tachos de cimento, tudo feito em conjunto – “você não consegue fazer sozinho”, ele reforça.

Há também o rito de colocar o moti em lugares importantes antes de virar o ano, como na casa, no carro e no comércio, para pedir proteção para a nova fase que se inicia. Sérgio explica que, depois que o ano vira, você assa o moti, faz um caldo, coloca o bolinho dentro e come: “O que nós, brasileiros, falamos do arroz japonês? Que é ‘unidos venceremos’! É exatamente essa a intenção: Moti significa estar junto, estar grudado”.

Cada família coloca no caldo do moti o que quiser. Nesse caso, Sérgio usou acelga, cebolinha, cebola, shitake, sakê, hondashi (caldo de peixe) e um pouquinho de shoyo. “Lá no Japão, eles comem isso, vão para o templo e depois saem pela vizinhança dando feliz ano novo para todos e espalhando bons votos”, Sérgio conta.

Depois da primeira refeição tradicional, vem o Sobá, que pode ser consumido durante o dia todo. O Sobá, feito de trigo sarraceno, é um macarrão que também carrega um grande significado: “estar perto”. Servido com caldo de legumes, com talos de legumes variados, como repolho, cenoura, gengibre e um toque de retalho de salmão e hondashi, por exemplo, cada família prepara o prato com o que se tem em casa, então os ingredientes podem variar –  Sérgio incluiu também tempurá e omelete.

Sérgio conta que preparar o alimento para a virada do ano sempre foi uma prática familiar: “Quando meu avô estava vivo, meu pai e meu avô faziam o moti em casa mesmo. Quando eu estudei no Japão também era assim. Uns cinco dias antes do Natal, o pessoal se juntava e fazia moti para depois distribuir… é uma forma de confraternizar e de estar junto com outras pessoas de uma forma muito singela” – singeleza talvez seja realmente a marca da virada do ano japonesa, que traz, tanto no Moti como no Sobá, a simplicidade, a delicadeza e um precioso significado.

Para além da comida, e assim como fica claro em todo esse pequeno passeio cultural e gastronômico, a união é a tônica do final de ano – e que continue sendo o ingrediente principal da mesa de cada família, independente de origem, aqui e em qualquer lugar.