D.READ – LEIA MULHERES

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Quantas escritoras você leu neste ano?

Por Layse Moraes
Fotos Fábio Pitrez

Todo final de ano, eu tenho uma mania: fazer listas. Entre as minhas preferidas, as de melhores leituras. Há alguns anos, no entanto, eu notei que, quando eu olhava para trás em busca das obras preferidas, os escritores apareciam muito mais do que as escritoras…

Isso me fez pensar no livro “Um teto todo seu”, da escritora inglesa Virginia Woolf. Nele, Virginia, lá na década de 1920, utiliza-se da voz de um alter ego para refletir sobre mulher e escrita. A ideia inicial, tal qual já aparece no título, é que uma mulher, para escrever ficção, precisa de um teto todo seu, um espaço próprio. Entre suas muitas conclusões e apontamentos, Virginia fala sobre como as mulheres são desencorajadas a escrever literatura: “Ora, e qual é o alimento com que alimentamos as mulheres enquanto artistas? […] Porque é um enigma perene a razão pela qual nenhuma mulher jamais escreveu qualquer palavra de uma literatura extraordinária quando todo homem, ao que parece, é capaz de uma canção ou de um soneto”. É aí que ela indaga e conclui: “Quais eram as condições em que as mulheres viviam?, perguntei a mim mesma; a ficção, quer dizer, o trabalho imaginativo, não cai como uma pedra no chão, como na ciência; ficção é como uma teia de aranha, presa por muito pouco, mas ainda assim presa à vida pelos quatro cantos. Muitas vezes estar preso é quase imperceptível”.

Virginia Woolf escreveu isso em 1928 e, infelizmente, isso ainda se aplica à contemporaneidade. Um bom exemplo é o estudo da Regina Dalcastagnè, uma das principais pesquisas sobre literatura contemporânea brasileira, que constata que a presença das mulheres na literatura nacional é ínfima. Regina lança mão de análise de dados resultantes de mais de quinze anos de pesquisa, em um recorte que se concentrou nas obras publicadas nas três principais editoras brasileiras – Companhia das Letras, Record e Rocco -, entre 1990 e 2004. Tratando-se de gênero, a conclusão é uma só: 72,7% dos romances publicados nas grandes editoras foram escritos por homens.

Na contramão desse movimento de apagamento da literatura de autoria feminina, que se afina, ainda na atualidade, com um mercado editorial restrito, em 2014, a escritora inglesa Joanna Walsh criou o projeto #readwomen, ou seja: #leiamulheres. A ideia é simples e prática: fazer com que mais mulheres sejam lidas.

Aqui no Brasil, desde 2015, um grupo de mulheres – Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques – transformou a ideia de Joanna em encontros presenciais em livrarias e outros espaços culturais: um convite à leitura de obras escritas por mulheres, de clássicas a contemporâneas.

A boa notícia é que a ideia vem ganhando cada vez mais seguidores – aqui em Londrina, o #leiamulheres já acontece há um tempo, mediado pela professora de Literatura Vizette Priscila Seidel – os encontros acontecem mensalmente, aos domingos, na Livraria da Vila do Aurora Shopping. Entre as obras já discutidas pelo grupo, estão “O conto da aia”, de Margaret Atwood, que inspirou “The Handsmaid’s Tale”, vencedora de Melhor Série Dramática no Emmy de 2017; “A filha perdida”, de Elena Ferrante; “Seminário dos ratos”, da brasileira Lygia Fagundes Telles e “Hibisco roxo”, de Chimamanda Ngozi Adichie – isso só para citar alguns.

Hoje consigo incluir escritoras nas minhas listas com muito mais facilidade – não porque antes elas não existiam, mas porque as vozes delas nem sempre nos alcançam… É preciso olhar com atenção e atribuir, nós mesmos, enquanto leitores e leitoras, a presença feminina em um espaço tantas vezes pouco habitado.

Quantas escritoras você leu em 2017? Então te convido: em 2018, leia mulheres.

 

Layse Moraes, além de ser jornalista desta revista, também é doutoranda em Literatura pela UEL e completamente apaixonada por livros. Também é doutoranda em Letras pela UEL