DESCONECTE

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O mundo está massivamente online e as crianças estão cada vez mais inseridas nessa realidade… mas quais são as consequências de tanta tecnologia?

Por Layse Moraes
Fotos Fábio Pitrez

 

Pés descalços, mãos cheias de terra, carrinho de rolimã, blocos de madeira, patins, pega-pega, olho no olho… Qual é a lembrança da sua infância? Ela tem muito ou pouco a ver com o que está sendo vivenciado pelas crianças nos dias atuais?

2017, quase 2018. Entre os “brinquedos” preferidos das crianças, tablet, smartphone, videogame, televisão… Mas quais são os impactos de tantos estímulos tecnológicos na infância?

A psicopedagoga Ana de Luca, uma das idealizadoras do Baobá – Vivências pelo Brincar, diz que estamos passando por um momento decisivo, em que muitos estão buscando a retomada de uma vida mais simples, mas que também dá mais trabalho. “As pessoas vão se acostumando a fazer o que é mais fácil. Qual a diferença do papel e do giz de cera para o joguinho do tablet? Eu acredito que tudo o que a gente apresenta para uma criança é pelo nosso olhar, então quem está oferecendo isso a elas somos nós. Que tipo de relações estamos estabelecendo com as nossas crianças? Estamos passando um conceito do que é estar junto que é muito discutível… O que é estar junto? Estar junto como?”, ela questiona.

Crianças brincam no Baobá – Vivências pelo Brincar

As relações que estão sendo construídas na contemporaneidade acabam refletindo um conceito de “estar junto” que é problemático: “A gente não pode negar o uso da tecnologia, ela é incrível, mas tem uma medida aí, de como as relações estão se estabelecendo. De 0 a 6, o que uma criança precisa? Movimentar-se pelo espaço, aprender a se relacionar com o outro. Se ela está dentro da tecnologia por muito tempo, está restrita. É a tecnologia que é ruim ou é o tempo de exposição em que se fica sem falar com ninguém?”, Ana completa.

Em sua experiência com a clínica de psicopedagogia, Ana conta que há muitas crianças sendo diagnosticadas com déficit de atenção e hiperatividade: “Começamos a ver que a criança na verdade está distraída. Ela vive um dia a dia muito cercado pela tecnologia, muito solitária, sem ter trocas. E daí a gente entra nessa medicalização insana… as crianças estão sendo medicadas e, quando você vê, elas estão distraídas por outros motivos. A gente não ouve o que o outro fala, então não aprende a ter foco. A gente vai perdendo essa capacidade”. Como outras consequências, ela também aponta para as limitações no desenvolvimento da linguagem e também nas relações interpessoais.

No manual de orientação “Saúde de crianças e adolescentes na era digital”, criado pela Sociedade Brasileira de Pediatria, afirma-se que “estudos científicos comprovam que a tecnologia influencia comportamentos através do mundo digital, modificando hábitos desde a infância, que podem causar prejuízos e danos à saúde. O uso precoce e de longa duração de jogos online, redes sociais ou diversos aplicativos com filmes e vídeos na Internet pode causar dificuldades de socialização e conexão com outras pessoas e dificuldades escolares; a dependência ou o uso problemático e interativo das mídias causa problemas mentais, aumento da ansiedade, violência, cyberbullying, transtornos de sono e alimentação, sedentarismo, problemas auditivos por uso de headphones, problemas visuais, problemas posturais e lesões de esforço repetitivo (LER); problemas que envolvem a sexualidade, como maior vulnerabilidade ao grooming [comportamentos sedutores usados por pedófilos] e sexting [troca de mensagens, fotos ou vídeos de conteúdo sexual], incluindo pornografia, acesso facilitado às redes de pedofilia e exploração sexual online”.

A artista plástica Carol Sobreira, mãe de Nicolas (8 anos), conta que, quando ele era menor,  ter o controle da tecnologia era mais fácil: “eles gostam mais de fazer as coisas com a gente, depois não é sempre que conseguimos atrair… Mas o Nicolas não tem nada dele, nem celular, nem tablet, nem computador. A criança também precisa saber que, mesmo que o adulto esteja trabalhando no computador, isso é coisa de adulto. As coisas dela são coisas de crianças. A verdade é que é mais fácil largar as crianças no computador e no tablet”. Apesar disso, pelo fato de a mãe ter sempre vivenciado o trabalho artístico manual, Nicolas sempre aprendeu, com múltiplas linguagens, que essa é uma ótima forma de ficar junto – ele desenha, borda e faz xilogravura, por exemplo. “A gravura surgiu no século V, na China, mas foi muito produzida na Idade Média. Se você erra no papel, você joga fora. O que é legal da xilogravura é que você não pode ficar jogando a madeira fora, então, se errar, precisa incorporar o erro e tudo isso não fica pronto rápido. Então a xilogravura te faz parar… não tem como usar o smartphone ao mesmo tempo”, ela esclarece. Carol, que dá aulas de xilogravura no seu ateliê, a Casa Valparaíso, conta que, nas aulas que ministra para crianças e adolescentes, eles chegam agitados, querendo fazer tudo rápido: “Depois, quando veem que precisam de calma, as coisas mudam. A xilogravura é uma tecnologia antiga, é a mãe da impressora. Antes do digital, as reproduções eram feitas assim”.

Cuidado e bom senso

O caminho, ao que parece, é usar do bom senso e da reflexão. Não é possível para fugir da realidade atual, mas dá para lidar com ela de uma forma melhor para as crianças: “Dá para viver no mundo da tecnologia com parcimônia, fazendo boas escolhas, com mais qualidade, como é o caso do ‘Pequeno Cidadão’, para citar apenas um exemplo”, Ana de Luca reforça – o “Pequeno Cidadão” se autodefine como “um grupo de rock divertido e educativo para crianças bagunceiras e muito sabidas. Nossas canções, animações e livros retratam o universo infantil: alegrias, dúvidas, bichos, desafios, tristezas, cidadania, esportes, amor”.  Ana conclui: “Na vida, a gente tem que fazer escolhas quando está com os pequenos por perto. O que é mais legítimo das crianças é o brincar e a gente está pasteurizando o que é esperado da criança. Nós temos que olhar para o que elas estão vivendo. É uma realidade, ela está posta e a gente precisa lidar com isso. Mas se os pais usam a tecnologia de forma excessiva, a gente vai restringir as crianças usando qual argumento? ‘Ah, mas eles querem’. Bom, então vamos ver do que criança realmente gosta? Criança gosta mesmo de tablet? O que é legítimo da infância? Eu acho que nós, educadores, psicopedagogos, psicólogos, a sociedade toda, precisamos acolher essas crianças e também esses adolescentes. Acolher no sentido de, vem cá, tem outras coisas para a gente fazer… conte comigo! Pode ser poético e ingênuo o que eu estou falando, mas eu acho que é a única saída que a gente tem. O que a gente escolheu no Baobá? É ter o tempo de contemplação. Dos animais, das árvores, da natureza. Parar para contemplar. Mas já tem crianças que estão sentadas, preenchendo apostilas. E é aí que eu acho que cabe a reflexão da sociedade inteira – e não é uma reflexão para ser pesada ou apocalíptica, mas sim um momento de reflexão, para tentar entender em que lugar estamos e que escolhas estamos fazendo. É um bom momento para retomar algumas questões: que tipo de relações a gente quer estabelecer? Que adultos a gente está construindo para o porvir? A gente não sabe como será, mas a gente sabe do hoje. E eu acredito que a gente precisa ter um olhar mais delicado e cuidadoso com as crianças”.

Nicolas (8 anos) ama desenhar e fazer xilogravura

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda:

  • O tempo de uso diário ou a duração total/dia do uso de tecnologia digital deve ser limitado e proporcional às idades e às etapas do desenvolvimento cerebral-mental-cognitivo-psicossocial das crianças e adolescentes;
  • Desencorajar, evitar e até proibir a exposição passiva em frente às telas digitais, com exposição aos conteúdos inapropriados de filmes e vídeos, para crianças com menos de 2 anos, principalmente durante as horas das refeições ou 1-2 h antes de dormir;
  • Limitar o tempo de exposição às mídias ao máximo de 1 hora por dia para crianças entre 2 a 5 anos de idade. Crianças entre 0 a 10 anos não devem fazer uso de televisão ou computador nos seus próprios quartos. Adolescentes não devem ficar isolados nos seus quartos ou ultrapassar suas horas saudáveis de sono às noites (8-9 horas/noite/fases de crescimento e desenvolvimento cerebral e mental);
  • Estimular atividade física diária por uma hora;
  • Crianças menores de 6 anos precisam ser mais protegidas da violência virtual, de jogos, por exemplo, pois não conseguem separar a fantasia da realidade;
  • Estabelecer limites de horários e mediar o uso com a presença dos pais para ajudar na compreensão das imagens. Equilibrar as horas de jogos online com atividades esportivas, brincadeiras, exercícios ao ar livre ou em contato direto com a natureza;
  • Conversar sobre as regras de uso da Internet, configurações para segurança e privacidade e sobre nunca compartilhar senhas, fotos ou informações pessoais ou se expor através da utilização da webcam com pessoas desconhecidas, nem postar fotos íntimas, mesmo com ou para pessoas conhecidas em redes sociais;
  • Monitorar os sites/programas/aplicativos/ filmes/vídeos que crianças e adolescentes estão acessando/visitando/trocando mensagens, sobretudo em redes sociais. Manter os computadores e os dispositivos móveis em locais seguros, e ao alcance das responsabilidades dos pais (na sala, por exemplo);
  • Explicar com calma e sem amedrontar as crianças e adolescentes sobre quais são os motivos e perigos que existem na Internet, espaço vazio e virtual e onde nem tudo é o que parece ser;
  • Conversar sobre valores familiares e regras de proteção social para o uso saudável, crítico, construtivo e pró-social das tecnologias usando a ética de não postar qualquer mensagem de desrespeito, discriminação, intolerância ou ódio. Desconectar. Dialogar. Aproveitar oportunidades aos finais de semana e durante as férias para conviver com a família, com amigos e dividir momentos de prazer sem o uso da tecnologia, mas com afeto e alegria.