O NOVO OUVIDO DO SÉCULO XXI

MUSIC

A imersão nas novas tecnologias mudou a forma como ouvimos e pensamos música. A diminuição da capacidade de concentração pelo uso de smartphones, tablets e redes sociais pode ser uma das causas     

Por Eduardo Assad Sahão

Imagine a seguinte situação: Você está em uma sala de concerto, assistindo a uma das maiores orquestras do mundo, que será regida por aquele maestro reconhecido por gestuais impactantes e seus longos cabelos brancos esvoaçantes. A obra do programa é a quinta sinfonia de Ludwig Van Beethoven, um clássico do clássico, composta há mais de duzentos anos, entre 1804 e 1808. O maestro desfere o primeiro movimento da batuta e dá o início imponente e tenebroso de uma das mais geniais composições do célebre músico. Logo, instaura-se um silêncio absoluto na platéia. Cada músico que ocupa a cadeira da orquestra deve estar no auge da sua concentração, aliando a leitura da partitura, a execução de seu instrumento e o olhar atento para as ordens e sinais do regente. A partir dali, os quatro movimentos (atos), serão executados em sequência, e a obra, dependendo do andamento dado pelo maestro, varia de 32 a 40 minutos. Cabe, então, a pergunta para você, apreciador deste espetáculo: Durante a obra toda, quantas vezes você irá checar as notificações do seu celular?

A resposta varia de acordo com o seu nível de dependência digital, claro. Mas o fato é que a capacidade média de concentração do novo cidadão do século XXI, imerso nos meios digitais, diminuiu drasticamente. A tal ponto que consideramos quase impossível assistirmos a um espetáculo de 30 minutos ou mais única e exclusivamente pela música em si (sem nenhum apelo visual como imagens em movimento, personagens em cena, etc.), sem sequer dar uma olhada rápida no celular para ver uma notificação no Facebook, ou a foto com frases motivacionais enviada no grupo da família pela sua tia-avó, aventureira das redes.

O psicólogo e professor da Universidade Estadual da Califórnia, Larry Rosen, pesquisa há mais de vinte anos a capacidade de concentração em meio ao avanço tecnológico. Em entrevista à BBC Brasil, o pesquisador discorre sobre estudos referentes ao tempo em que os participantes de sua pesquisa conseguem ficar totalmente concentrados. A duração varia de 3 a 5 minutos. Aproximadamente metade do tempo apenas do primeiro movimento da obra de Beethoven. A nova maneira que recebemos a informação e interagimos com as diferentes plataformas digitais atualmente reflete diretamente na nossa relação com a música.

Contam os veteranos do vinil que era prática costumeira sentar em volta de uma vitrola com amigos para escutar um novo disco, na íntegra, que acabara de ser lançado. Este ritual basicamente se esvaiu com o tempo. Uma parte devido às próprias circunstâncias da evolução tecnológica, e outra porque, dificilmente, nos concentraríamos o bastante para ouvir um álbum inteiro, seja ele de rock, samba, música erudita, ou jazz, com o celular ao lado apitando novos compromissos, para os quais você provavelmente já estaria atrasado, listas de dez passos para atingir a felicidade plena, qual é a cor do seu signo no dia de hoje, notificações de WhatsApp e outras eventuais atualizações que assinamos inconscientemente.

No processo evolutivo das plataformas de áudio, passamos, cronologicamente, pelo disco de vinil, Fita K7, disquetes, CD (Compact Disc), arquivo digital em MP3 e, hoje em dia, vivemos serviços de streaming, como os aplicativos Spotify, Deezer, Apple Music, que permitem o acesso livre a bibliotecas musicais infindáveis do mundo todo na palma da sua mão. Em contrapartida, esse formidável leque de possibilidades musicais nunca foi tão mal utilizado. Mudou-se a maneira de receber a música e, consequentemente, o modo como são produzidas também foi alterado.

Os grandes produtores musicais atentaram-se às tendências da evolução tecnológica e hoje são os responsáveis pelas canções fast-food produzidas em larga escala. Feitas para durarem algumas semanas, a maioria das produções seguem passos básicos: canções com, no máximo, três minutos de duração, que tenham um refrão simples, assoviável, feito sobre uma harmonia simplória que seja agradável ao ouvido, seguindo padrões de acordes que não suscitem nenhum tipo de estranheza ao ouvinte. Deparando-se constantemente com essa fórmula, o processo neurológico da escuta humana acostuma-se com determinados padrões harmônicos e melódicos básicos e acaba por estranhar ou “rejeitar” outros tipos de sonoridade que, se nossa curiosidade por quebrar novas fronteiras musicais não for ávida, serão descartadas na primeira vez que ouvimos, ao invés de tentarmos desvendá-la e conhecermos mais sobre. Acabamos por perder em tempo e em qualidade.

Não precisamos ir tão longe como um concerto de música clássica instrumental de trinta minutos. Basta pensarmos na atual conjuntura da música popular no Brasil: é inimaginável, por exemplo, uma canção como “Faroeste Caboclo”, uma história musical contada e cantada pela banda de rock Legião Urbana em quase dez minutos de música, tocar nas rádios em sua versão completa hoje em dia, por mais popular que seja. Quem não é fã do grupo troca de estação porque a música é “muito longa”. E essa fuga do que se exige um pouco mais de concentração é que assusta os donos das emissoras de rádio, que finalizam por ceder às canções “descartáveis”.

Se consegui prender sua concentração até aqui com as informações deste texto, já me considero realizado. Em suma, é necessário que estejamos atentos a esta nova forma efêmera de produzir e ouvir música para que possamos valorizar nossa preciosa capacidade auditiva e sempre buscar novas sonoridades, fora da zona de conforto que estamos inseridos. O pianista e compositor russo Sergei Rachmaninoff certa vez disse: “A música é suficiente para toda uma vida, mas uma vida não é suficiente para toda a música”.

Conselho: Faça um chá, sente na varanda, digite “Beethoven” no YouTube ou Spotify, escolha uma de suas obras e deixe-se guiar pela incrível capacidade de suscitar emoções que uma peça escrita com o coração oferece. E só depois de ter feito isso, fique à vontade para enviar o conselho no grupo de WhatsApp da família.

Eduardo Sahão é músico e jornalista