GRANDES FILMES A PARTIR DE NOVELAS GRÁFICAS

Atomica 2

Cronemberg, Sam Mendes, Abdellatif Kechiche, David Leitch: o filão enriquecido

Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Fotos Divulgação

Os exemplos são muitos, e cumprimos aqui e agora a promessa da ultima edição: contar sobre mais e melhores adaptações cinematográficas de novelas gráficas. Esses filmes, reconhecidos e aplaudidos, são mostras evidentes do intercambio que pode ocorrer entre diferentes artes, com linguagens com tantos pontos em comum. Como em outros tempos, quando o cinema encontrou temas e histórias no teatro ou na literatura, hoje ele mira sem medo as paginas coloridas dos comics, consciente de que já faz muitos anos que o mundo das HQ transcendeu o clichê generalizado do produto infantil de consumo rápido.
Mas como e por que o cinema vem se dando tão bem com as graphic novels ? O olho clínico dos diretores apreendeu algumas características, diferentes das HQ, tão necessárias quanto notáveis para que o casamento desse certo. (1) As novelas gráficas contêm uma história fechada, com início, meio e fim. (2) Elas não tem periodicidade, nunca serão encontradas em série nas bancas . (3) São obras estilizadas pelo artista. (4) São histórias mais longas, com maior destaque para formato e impressão e encadernação mais detalhada e qualidade de papel superior – o que as tornam mais caras.
A seguir, quatro momentos de celebração deste afinado concerto entre o cinema contemporâneo e a graphic novel, abordando universos masculino e feminino

1 – “Uma História Violenta” foi publicada em 1997, criada por John Wagner e Vincent Locke. Quem levou para a tela foi o canadense David Cronemberg, que mudou seu registro fantástico e surpreendeu (negativamente) seus admiradores e (positivamente) a crítica com uma pegada realista. Cronemberg, cineasta de forte personalidade autoral, manteve a inspiração na GN mas transcendeu as formas literárias e plásticas da dupla de autores. Lançado em 2005, no Brasil o filme recebeu o titulo de “Marcas da Violência”: Viggo Mortensen faz o mergulho no passado e de novo está às voltas com a violência que agora reaparece para assombrar um homem de família.

2 – Lançado no Festival de Veneza de 2002, “Caminho para a Perdição” recebeu aplauso unanime de crítica e publico. É a adaptação da GN homônima, “Road to Perdition”, de Max Collins como roteirista e Richard Rayner na prancheta dos desenhos. A curiosidade é que, neste caso estamos diante da comunhão entre varias mídias. A GN também se inspirou em obra anterior, o mangá “Lobo Solitário e Cachorro”, de Kazuo Koike, considerada obra capital para entender a evolução dos comics, para além das fronteiras japonesas, que reconhecidamente influenciou todo o trabalho de Frank Miller. A ousadia dos criadores da GN foi ter substituído o Japão feudal pelos Estados Unidos da Lei Seca, mas mantendo o mesmo universo de traições e violência. A habilidade do diretor Sam Mendes e o excelente elenco do filme (Paul Newman, Tom Hanks, Jude Law, Daniel Craig) foram os complementos que a história precisava para que a ideia original rendesse todo seu potencial.

3 – Escrita e desenhada pela francesa Julie Maroh, “Azul é a Cor Mais Quente” estreou nas livrarias em 2010 e em 2013 nas salas, com direção do franco-tunisino Abdellatif Kechiche. Sucesso absoluto. Impressionados com a explicitude no tratamento das imagens, muitos espectadores buscaram conhecer a fonte original, a graphic novel. É, e isso todos sabem, a historia da adolescente Adele (Adele Exarchopoulos) que descobre, aos 15 anos, sua primeira paixão e o sentido da liberdade. Palma de Ouro em Cannes em 2013, com júri presidido por Steven Spielberg.

4 – Uma das melhores surpresas deste ano, “Atomica” veio de “A Cidade Mais Fria”, GN de Anthony Johnston (texto) e Sam Hart (ilustrações). O filme tem os melhores ingredientes de uma boa história de espionagem e uma trama repleta de desdobramentos, já que estamos na Berlim Oriental de l989, um ninho de agentes duplos e triplos, de espiões e contra-espiões se mantendo vivos a qualquer custo às vésperas da queda do muro. Charlize Theron faz a anti-heroína, a agente Lorraine Broughton. O diretor David Leitch narra tudo em tom tenso, paranoico, com infleuncias ético-estéticas diversas, inclusive do filme noir (não fosse “The Coldest City” uma GN igualmente noir). Muito fiel à fonte, o filme mostra no comportamento de Lorraine uma ponte entre o puro hedonismo e o essencialmente humano.