O OSCAR ESTÁ MUDANDO (MESMO)?

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A Academia vem observando com lente de aumento as mudanças na indústria cinematográfica. E aponta para os filmes que, além de técnica prodigiosa, contam histórias sobre os novos tempos

 

Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge

Fotos Divulgação

 

Originalmente concebidos por Hollywood para tratar de desviar a atenção de escândalos que lá atrás, bem atrás (nada de novo sob o sol…) já sacudiam a indústria, os Oscar sempre foram – ou tentaram ser – algo mais que a festa maior do cinema. Durante décadas, a receita foi combinar o reconhecimento dos filmes e dos profissionais por trás deles com um processo de relações públicas, propaganda, política e glamour. E agora, em 2018, marcado por uma excelente safra, não há muita diferença, digamos, tsunâmica. Mas…

Há uma nova era no em andamento. Nos últimos anos, os Oscar deixaram de ser marketing de auto revenda mundial para se converter em espaço no qual estão no foco do debate os conflitos sociais, com suas certezas e suas debilidades. Os tempos mudaram, e a sociedade, para o bem ou para o mal, foi atrelada às transformações.  Estamos no redemoinho de situações que a história do cinema está tentando adequar às novas plateias. Ano passado, por exemplo, a surpresa foi geral quando os produtores de “La La Land” confirmaram de imediato que havia um erro na divulgação do resultado, e que o vencedor da noite era “Moonlight”. A justificativa da opinião pública foi simplesmente que “Moonlight” falava sem meias palavras de temas como homossexualidade, discriminação, racismo. E por isso foi o melhor filme.

Nesta nonagésima edição, celebrada dia 4 de março, “A Forma da Agua”, “Três Anúncios para um Crime”, “Corra!”, “Dunquerque”, “A Trama Fantasma”, “Lady Bird”, “O Destino de Uma Nação, “Me Chame pelo Seu Nome” e “The Post – A guerra Secreta” competiram na disputa mais aberta (leia-se heterogênea) e incerta como há muito não se via (ainda que dominada pelos três primeiros títulos). As mudanças que lentamente foram realizadas pela Academia em sua composição, depois das pressões na falta de diversidade, já se fazem notar – embora entre seus 8.300 membros os brancos continuam maioria esmagadora com 91% e os homens seguem dominando, com 76%. E em muitas nominações as mutações foram evidentes, como resultado da sensibilização dos acadêmicos. Pela primeira vez em 90 anos, cinco diretores apareceram como autores de seus roteiros, em claro reconhecimento do cinema de autor;  uma mulher foi indicada ao premio de melhor fotografia; e no quesito  dos gêneros, concorreu na categoria de melhor diretor  o transgênero Yance Ford pelo documentário “Strong Island”. Sem esquecer a atriz  transgênero Daniela Vega, protagonista do chileno vencedor na categoria filme estrangeiro, “Uma Mulher Fantástica”.

E ao analisar os indicados, vemos a abertura para filmes com menos barreiras aos gêneros de cinema, e as melhores boas vindas às histórias e personagens contundentes no trato de questões raciais, de classe, políticas e sociais. Esta foi, acima de tudo, a primeira edição da quase centenária história dos Oscar no universo do #MeToo, o movimento tectônico que levantou a consciência, a denúncia e a luta contra a discriminação às mulheres e o assédio/abuso sexual em todo o mundo. E na origem desse terremoto, iniciado há apenas cinco meses, está Harvey Weinstein, produtor fundamental nas ultimas três décadas de Hollywood e ator-chave do Oscar (seus filmes acumularam 81 estatuetas), mas também um perseguidor e suposto estuprador que atuou protegido por seu poder e por aliados na indústria. E uma das mudanças da Academia, além de premiar histórias com substância e sabor de crítica social, deve ser também a de não mais encobrir escândalos dessa ou de qualquer espécie.

Em síntese: ao que tudo indica, está em curso na Academia uma maior tomada de consciência e responsabilidade para equilibrar gênero, raça, etnias e religião. Veremos se nos próximos anos essas mudanças se consolidam e se a instituição vai ser capaz de se sair bem desta encruzilhada de mudanças, se saberá se reinventar.