AS MULHERES NUVENS DE RICO MENDONÇA

Design sem nome

Decorar com obras assim enriquece os espaços de significado, transcendendo o estético na composição

Edson Faria

Rico Mendonça (Divulgação)

Retratada segundo idealizações sociais inconscientes, a figura feminina sempre espelhou o papel social e os conflitos ideológicos enfrentados pelas mulheres em cada momento histórico em que foi representada. Adquirindo diversas conotações ao longo da história da arte, de divindade pré-histórica a objeto de desejo na era moderna, a mulher teve que vestir-se de coragem para romper com diversos paradigmas até ser entendida e representada como sinônimo de força e determinação no século XXI. Consciente de tal força, mas entendendo que ela nunca perdeu seus ares divinos e sua delicadeza, Rico Mendonça desenvolveu uma série de desenhos que referenciam as várias facetas da personalidade feminina.

Concebidas a partir de croquis despretensiosos durante conversas ao telefone, as Mulheres Nuvens conectam passado e presente por meio de referências que vão desde as sociais e históricas já citadas àquelas pessoais vivenciadas pelo arquiteto e designer catarinense. O título da obra não fica atrás em riqueza de simbolismos e significações, aludindo primeiramente ao nascimento da mulher enquanto ser que ‘vem nu’ ao mundo, depois a beleza feminina idealizada na Deusa Vênus e, por fim, a pesada nuvem de responsabilidades que as mulheres sempre carregaram.

Rico Mendonça (Divulgação)

Como se decifrasse sua atividade inconsciente, Rico percebeu que aqueles rabiscos aleatórios se assemelhavam às formas femininas que o remetiam a vestidos estampados e, em um impulso quase lúdico, se viu estimulado a adicionar membros (cabeça, braços e pernas) à figura recém compreendida. O resultado, uma mulher que aparentemente dançava, conduziram sua memória ao filme ‘Annabelle Serpentine Dance’ que havia assistido no período em que morou na França, em meados dos anos de 1990. O arquiteto explica que, no filme, a personagem Annabelle interpreta a ‘dança serpentina’ que foi criada pela pioneira da dança moderna Loie Fuller e imortalizada pelas lentes dos irmãos Lumière. Esse fato despertou seu interesse em idealizar novas variações de sua primeira criação, e assim, a série foi tomando forma.

Rico Mendonça (Divulgação)

Bem como todo artista satisfeito com sua obra, Rico resolveu apresentar seus desenhos aos amigos, criando um vídeo que teve como trilha a voz forte e contemporânea da cantora norueguesa Aurora. Como a memória afetiva sempre esteve presente em seu trabalho, foi inevitável que a lembrança de sua bisavó que, também chamada Aurora, tocava piano como trilha sonora para filmes mudos no cinema da família no centro de Florianópolis. A série, composta por elegantes 15 modelos, somada a esse entrelaçamento de referências íntimas, chamaram a atenção das diretoras da ABD (Associação Brasileira de Design de Interiores), Marina Sá e Michele Pires, que o convidaram a realizar uma exposição na Galeria de Artes da Faculdade Cesusc e assim foi. Neste mês de maio de 2018, Rico Mendonça abriu sua exposição, permitindo que as pessoas contemplassem e refletissem sobre sua interpretação artística da mulher contemporânea.

Rico Mendonça (Divulgação)

Assim como ele, diversos outros artistas retratam em suas obras a perseverança da mulher que emancipou seu corpo, suas ideias e seu comportamento outrora sufocados. Expor um trabalho como esse na decoração não abrilhanta apenas esteticamente a composição do seu espaço, mas também enriquece de significados. Espera-se que outras representações surjam e enalteçam a coragem, a inteligência e as outras inúmeras singularidades das mulheres.