CÉLIA MUSILLI

CELIA MUSILLI - FOTO DESTAQUE

A jornalista mostra para a Drops um pouco do seu universo afetivo e declara: “a escrita é a minha vida”

Por Layse Barnabé de Moraes
Fotos Fábio Pitrez

A jornalista e escritora Célia Musilli nasceu em Cornélio Procópio, mas se considera pé-vermelho: “Londrina é minha cidade. Eu estou aqui desde os meus 18 anos”.
Atual Editora de Cultura da Folha de Londrina, onde ela divide com os leitores também as suas crônicas, Célia conta que aos 17 anos já sabia que queria ser jornalista – em 1988 se formou em Jornalismo na UEL e, logo depois, em 1989, já começou a trabalhar na Folha de Londrina, onde ficou por 17 anos, retornando em 2016. “Eu tenho uma ligação afetiva muito forte com a Folha de Londrina. É um jornal que é a minha vida. Você precisa ser apaixonado pelo que faz, senão não rola”.
Mestra em Literatura pela Unicamp com trabalho sobre Maura Lopes Cançado e a ligação entre literatura e loucura, Célia conta que pesquisar e escrever literatura estão entre seus planos futuros… “Ler poesia é uma forma de fazer poesia. Se você ficar lendo um livro de poesia durante um dia, você já tem inspiração para alguma coisa. Alguma coisa já mexe dentro de você. A escrita é a minha vida… sem a escrita, eu seria um ser humano bem pior. Isso me deu uma motivação muito grande, até mesmo de viver. Isso que eu falo de ser apaixonada pelo que se faz… Você precisa gostar muito do que faz, porque isso te alimenta. Muitas coisas eu resolvo na escrita. Consegue-se elaborar escrevendo e o que era um problema vira uma criação, um material de autoconhecimento, mas também uma forma de se relacionar com o mundo. A escrita é um ato solitário, mas se relaciona com o mundo através das ideias. É se alimentar e alimentar os outros”, ela explica.
Sobre os novos paradigmas da comunicação atual, hiperconectada, Célia é incisiva: “Conteúdo precisa ser bom em qualquer lugar. Mas se desconectar às vezes é muito bom. Eu tento fazer umas pausas, não ficar direto na internet, porque aí você se alimenta de outras formas… eu preciso ler um livro, ver um programa de TV com um conteúdo que me agrade, ter outras coisas. Não ficar só na telinha do computador, que vira uma mesmice em que você é engolido. Ainda mais hoje, na atmosfera política ruim que está no Brasil… desgasta muito. Rouba energia criativa. Você podia estar escrevendo, lendo, pintando, assistindo a um filme incrível…”.
Abaixo, Célia divide com a gente algumas lembranças e objetos afetivos:

Livros autorais

“O primeiro, de 2006, é mais imaturo, mas eu gosto muito dele. O outro, ‘Todas as mulheres em mim’, de 2010, já é mais elaborado, eu já estava mais madura e gosto muito dele. Ele faz parte da coleção Tríade e tem um roteiro, um fio… ele é dividido em ‘paisagens interiores’, ‘os outros na paisagem’ e ‘paisagem final’.”

Colar

“Esse é um colar que quebra sempre meu galho quando eu não sei o que usar. E é de pedra também. Há 15 anos eu uso ele.”

Relógios

“Meu pai era relojoeiro e isso é uma lembrança dele. Ele era muito habilidoso com máquinas, então era um exímio relojoeiro.”

 

Livro de cabeceira

“Este livro eu tenho há muito tempo. Quando eu o ganhei, lia alguns poemas em voz alta e até chorava! Eu me emociono… Sabe aquele livro que você faz anotações, escreve frases? É bem de cabeceira, tem muitos anos… deve ser dos anos 1980. Quando eu estou bem na minha, eu leio poesia, porque me põe em contato comigo, com as emoções, com os sentimentos, com aquilo que vale a pena na vida, que é o lado sensível.”

Pedras

“Eu sou apaixonada por pedras, então essa é minha coleçãozinha. Tem as compradas e as que eu pego na natureza. Desde criança eu coleciono pedras. Uma delas, uma pedra ferrosa da Chapada dos Guimarães, é um fóssil de uma conchinha.”

Fotografias

“Uma foto minha, de antigamente, na Folha de Londrina na década de 1990; uma de meus filhos pequenos; e eu com eles, no primeiro ano na escola.”

Louça

“Eu gosto muito de louça e essas são do jogo que era da minha mãe. Eu uso quando tem festa e, quando estou com saudades, tomo um cafezinho na xícara dela.”

Crônicas antigas

“Algumas crônicas mais antigas da Folha de Londrina e a última que saiu. Quem sempre ilustra minhas crônicas é o Marco Jacobsen, gosto muito do trabalho dele.”

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O convite que fizemos para que a Célia Musilli participasse desta edição acabou rendendo uma crônica para a Folha de Londrina! Confira o que ficou de fora da seleção dela, mas “ainda existe com a teimosia das coisas importantes”:

A crônica das coisas perdidas

Pedem-me uma “entrevista personalizada.” A ideia é selecionar itens que façam parte da minha história e sobre as quais eu possa falar mostrando porque são importantes. Ao todo, me dão a chance de escolher nove objetos afetivos. Desde que me chamaram para o jogo, já percorri mentalmente minha trajetória e meu pensamento foi parar nos pratos do antigo jogo de jantar da minha mãe. A maioria das peças está amarelada, mas uso as clarinhas em dias de festa. Antes de irem à mesa sempre lavo cada uma lembrando-me das mãos dela sob a água da torneira, com a eterna aliança de casada. Dos meus dedos escorrem também água e sabão, mas já usei tantos anéis quanto os anos de liberdade e penso que eles são acessórios importantes de algumas fases da vida em que lavei e enxaguei dúvidas, além das certezas.

O anel de elefante era uma espécie de talismã que um dia perdi lavando a louça quando o deixei sob o parapeito da janela da cozinha. Então o elefante voou, talvez tenha feito uma viagem à Índia, talvez tenha simplesmente escorregado para uma lixeira levando consigo uma partícula das minhas manias ou dos apegos que me levam a acreditar na sorte. A verdade nunca saberei, esse é o mistério dos objetos perdidos, ninguém sabe para onde vão. No seu silêncio de coisas inanimadas não fazem barulhos como animais e pessoas, não emitem vozes nem pedidos de socorro, quando muito dão um pequeno sinal quando caem ao chão.
Entre os objetos perdidos, aqueles que não farão parte da “entrevista personalizada”, tem ainda um relógio de meu pai, perdido numa mudança quando a falta de experiência deixou-me descuidar de algumas coisas que deveriam ir para uma caixinha fechada e guardada comigo, não nos embrulhos, nas caixas de papelão, nas gavetas que todos reviram. O relógio ainda deve funcionar e penso que essa sobrevida, longe dos meus olhos, tem o sentido de mostrar que algumas coisas existem mesmo sem nós. E elas existem com outros significados, dados por quem encontrou o relógio e se alegrou em achá-lo mesmo sabendo que faz parte de uma outra história. Uma das coisas que me doem foi ter perdido toda minha coleção de discos de vinil. Eram parte da minha festa particular desde a adolescência, quando a música tomava conta do meu quarto. Dos Beatles a Led Zeppelin, de Bob Dylan a Laurie Anderson, passando por clássicos como a “Fantasia” de Stravinsky e “As Quatro Estações” de Vivaldi, tudo me remete a momentos de solidão consentida, quando me trancava para ouvir o que quisesse, ou momentos de alegria compartilhada quando ouvia com os amigos as mesmas músicas como se fosse a primeira vez. Saudade mesmo tenho dos blues de B.B. King, aquele seu “Live In Cook County Jail”, gravado numa prisão em 1971, quando ele conseguiu “libertar” os detentos enquanto durou o show. Também sinto um aperto ao me lembrar da malemolência de um vinil rodando com a poesia de Caetano Veloso.

Muitos dos objetos que fazem a minha história tomaram rumos inimagináveis e disso deriva sua importância como memória. Posso dizer que aquilo que fica com a gente não é menos importante do aquilo que se foi. E isso vale para anéis, discos, livros, casas e também pessoas. A história nem sempre é o que fica, mas o que se coloca longe do nosso alcance, perdendo a materialidade e fixando-se como lembrança que nenhuma perda apaga. Talvez, numa “entrevista personalizada” possa constar não apenas aquilo que se tem, mas o que se perdeu e ainda existe com a teimosia das coisas importantes.

(Publicada originalmente na Folha de Londrina em 3 de fevereiro de 2018)