DIVISÓRIAS VAZADAS: HERANÇA DA ARQUITETURA ÁRABE NA DECORAÇÃO CONTEMPORÂNEA

divisórias

Reinvente seu espaço prezando pela fluidez de modo prático, sustentável e cheio de estilo

por Edson Faria

 

A velocidade da vida moderna acarretou em diversas alterações na dinâmica do universo familiar. Em decorrência disso, a compartimentação dos espaços, que antes segregava as atividades diárias, passou a dar lugar a ambientes multifuncionais e integrados que favorecessem a convivência dos moradores e proporcionassem sensação de amplitude a imóveis cada vez menores. Diante da nova configuração, artifícios como as divisórias vazadas passaram a ser amplamente utilizados em virtude da sua flexibilidade, tornando o seu uso cada vez mais frequente nas construções contemporâneas. Embora agrade a muitos, são poucos aqueles que sabem a origem desse versátil recurso que chegou ao Brasil em 1530.

Fonte: Roberto Migotto | Foto: Casacor (Divulgação)

Expressivos componentes da arquitetura árabe, os denominados muxarabis são painéis treliçados, normalmente de madeira, instalados em janelas e sacadas com o intuito de permitir a ventilação e a iluminação nas casas muçulmanas, além de preservar a imagem da mulher dos olhares masculinos. Trazidos pelo portugueses e incorporados às construções da época, se tornaram o elemento mais característico da arquitetura colonial, podendo ainda ser encontrados em cidades históricas principalmente na região nordeste.  No entanto, sua forte presença não se restringiu àquele momento, pois ressurgiu com novas feições na década de 1920 e, se popularizou na década de 1950 através do trabalho do arquiteto Lúcio Costa. Dessa forma, o novo recurso de fechamento, chamado de Cobogó por seus criadores pernambucanos, compôs a estética do único movimento arquitetônico genuinamente brasileiro, o modernismo.

Fonte: Márcio Kogan | Foto: Ricardo Labougle

Como tudo na decoração é referencial e cíclico, esses elementos tornaram a ficar em evidência na arquitetura do século XXI, mas dessa vez tomando as mais diversas formas a partir de diferentes materiais. Da treliça árabe original, muitas ideias e releituras surgiram com a ajuda da tecnologia que colocou a criatividade como limite das criações. Os materiais disponíveis vão desde a tradicional e aconchegante madeira ao sofisticado e moderno vidro, passando pelos metais, cerâmica, concreto e pedras. Com essa infinidade de opções, certamente existe alguma que se encaixa de modo harmonioso e equilibrado na sua composição.

Fonte: MF Arquitetura | Foto: Felipe Araújo

O interessante no uso dos painéis vazados, assim como no caso dos cobogós e muxarabis, além da demarcação e organização do layout, é a permeabilidade visual que eles permitem, sem acarretar necessariamente no contato direto entre os espaços. Trata-se não apenas de unir ambientes, mas também de compartilhar experiências. Podendo ser descritos como elementos de transição, eles criam um ar de mistério que instiga o observador a descobrir o que eles escondem, além de transformarem interna e externamente os lugares por meio dos efeitos de luz e sombra que promovem. No entanto, sua maior vantagem é a flexibilidade, principalmente para aqueles que gostam de receber. A possibilidade de criar um único e amplo espaço por meio de modelos de correr, abrir ou pivotar favorece um aumento expressivo de qualidade no aproveitamento das edificações.

Como se pode ver, existe muita história por trás desse elemento amplamente utilizado nos polivalentes espaços contemporâneos. Herança da cultura árabe, eles trazem elegância, aconchego e versatilidade, promovendo a amplitude e fluidez espacial tão apropriada à realidade de moradias compactas e de vida agitada do novo século. Se cabe um conselho, atualize-se. Reinvente sua casa prezando pela flexibilidade de modo prático, sustentável e cheio de estilo.

Fonte: Luciana Hara | Foto: Casacor (Divulgação)

Fonte: Pascali Semerdjian Arquitetos| Foto: Ilana Bessler