DRA. SUSANA DE LACERDA

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Promotora da Vara Maria da Penha, ela divide o seu percurso em entrevista especial para a Drops e reafirma o seu caráter obstinado: “eu não desisto”

Por Layse Barnabé de Moraes

Fotos Fábio Pitrez e Arquivo

 

Susana de Lacerda, paulista, formada em Direito pela USP, tornou-se promotora aos 25 anos. Desde 2010 na 29ª Promotoria – Maria da Penha – 6ª Vara Criminal de Londrina, a certeza de que o seu futuro seria no Direito vem muito antes disso: “Sempre tive um senso de justiça muito aguçado”, ela conta. Conhecida por colocar o dedo em muitas feridas na cidade de Londrina, como, por exemplo, no caso do esquema de aliciamento de menores envolvendo figurões da cidade, homens públicos e teoricamente íntegros, Susana é implacável e tem como diretriz a perseverança.

A Vara Maria da Penha cuida dos casos de violência contra mulheres e crianças, incluindo abuso sexual, então a pressão é constante: “A carga aqui é muito pesada. É só dor e sofrimento”, Susana confessa. No entanto, ela reconhece alguns avanços e a importância em se tocar, cada vez mais, nesses assuntos: “As denúncias aumentaram e as pessoas estão falando sobre isso”. Nesta entrevista, Susana fala sobre sua trajetória e admite: a melhor parte do trabalho é ver uma vítima liberta da situação de violência.

Aos que torcem o nariz para a Dra. Susana, acostumem-se: ela é implacável.

 

Susana segura o diploma de Direito (USP) em sua colação de grau, em 1993

Como o Direito surgiu pra você? Sempre foi a sua primeira opção?

 

Eu tinha muita clareza que eu queria a área de humanas. Não tem ninguém da área de Direito na minha família… A gente tem que escolher a profissão muito cedo e eu sempre gostei muito de argumentar e questionar. Sempre tive um senso de justiça muito aguçado, então surgiu nesse contexto. As pessoas costumam não gostar muito do começo do curso de Direito, porque tem muita filosofia e muita história, e eu gostei muito. Não tive dúvidas de que eu estava no caminho certo, no lugar certo, e fui me apaixonando. Eu vim de uma família muito simples e nunca tinha tido contato com Direito, então não tive nenhuma inspiração, foi uma coisa minha, que partiu de mim.

Há quanto tempo você é promotora da Vara Maria da Penha? Como foi assumir esse cargo?

Desde 5 de outubro de 2010. Foi uma grande surpresa. Eu trabalhava com homicídio desde que eu cheguei a Londrina, em 2004. Eu gostava da área do crime, mas gostava muito do contato com as pessoas. Dependendo da área em que você está no Ministério Público, você acaba se aproximando mais do papel do que das pessoas. Eu gostava muito do júri, por causa do contato com os jurados e também do contato com as famílias das vítimas… aquele contato me alimentava. E uma coisa que me chamava muita atenção era a morte das mulheres. Para ser sincera, eu vim para cá porque eu estava muito cansada do homicídio. Ver as pessoas morrerem é uma coisa que suga a energia da gente e eu estava há oito anos só fazendo isso. Então vim numa perspectiva de mudar um pouco o foco e nisso acho que quebrei um pouco a cara, porque aqui a gente vê o sofrimento das pessoas vivas.

Eu sempre fui uma mulher que prezei pela independência, que prezei por fazer coisas sozinha, que saí da minha casa em São Paulo, que muito nova assumi o Ministério Público e fui morar sozinha, que enfrentei o fato de ser promotora muito jovem, que enfrentei o nariz torto… que fui trabalhar no sudoeste do Paraná, uma região em que ser mulher muito jovem e ser promotora era bem difícil. Mas talvez eu não tivesse a noção de como a questão de gênero era tão forte. Cada dia aqui é um aprendizado. Você vai tendo um olhar sobre o quanto a gente é descriminada, até dentro da própria instituição… Promotoras ganham a mesma coisa que promotores, mas quantas promotoras ocupam cargos de liderança dentro da instituição? Quantas mulheres podem correr no Lago Igapó meia noite e quantos homens correm sem problema? O que minha filha vai enfrentar no transporte público, que um homem não enfrenta?

 

Como manter a esperança no ser humano vendo todos os dias essas situações absurdas com mulheres e crianças? Você consegue se desligar de tanto sofrimento e chegar em casa bem?

Tem alguns dias que eu fico aqui mais um tempo, para ver se eu me desconecto para chegar em casa. Ou dou uma volta de carro a mais, ouço uma música alta. Terapia também é importante, tratar da saúde mental, espiritual e física até, porque a carga aqui é muito pesada. É só dor e sofrimento.

Como lidar com a falta de sensibilidade com as vítimas entre os próprios operadores do Direito?

Eu tenho a sorte de trabalhar nessa Vara com um homem que é um grande parceiro, Ronaldo Costa Braga [30ª Promotoria de Justiça], muito conectado com as questões de gênero e com a causa da violência contra a mulher. Eu acho que a gente tem que falar sobre o assunto… falar com cuidado. Eu costumo fazer abordagens que sensibilizem, que tragam pequenas questões para que as pessoas possam pensar acerca das diferenças que nós mulheres sofremos, todos os dias, em pequenas coisas. Tem determinadas experiências que só se vive sendo mulher… num simples prazer de chupar um sorvete, ouvir um comentário malicioso e desagradável faz com que se perca a graça de lamber o sorvete, por exemplo. Às vezes falta reflexão, a pessoa não parou para pensar sobre isso – como, muitas vezes, há oito anos eu também não tinha parado para pensar.

A única coisa que eu não admito é piada – da mesma forma que eu não admito uma piada racista, eu não admito uma piada machista ou qualquer brincadeira jocosa nesse sentido… a gente tem que parar com essa cultura. Mas meus colegas promotores já sabem disso.

 

Susana na posse como Promotora, aos 25 anos

Como é pra você, enquanto mulher e enquanto promotora, viver num país que está em quinto lugar no números de feminicídios?

 

É muito triste. Eu fiz o caminho inverso: eu trabalhei com homicídios e feminicídios, sem ter a visão de gênero que eu tenho hoje, e depois vim para cá. E eu pude constatar exatamente aquilo que as pessoas que pensaram essa lei viram: as mulheres são mortas quando elas estão grávidas, na presença dos filhos… Qual é o motivo? Morrem porque terminaram um relacionamento ou porque desagradaram em algum momento. Ter essa nomenclatura é chamar a atenção para a existência de que mulheres morrem pelo fato de serem mulheres. E isso não quer dizer que uma vida humana feminina vale mais do que uma vida humana masculina, não é disso. Essas mulheres não se colocaram numa situação de risco: elas simplesmente, por serem mulheres, morreram. No último feminicídio que tivemos aqui em Londrina, uma menina de 16 anos, mãe de uma criança de 1 ano, foi morta simplesmente porque terminou um relacionamento e estaria iniciando um relacionamento com outra pessoa. Por isso foi morta com um tiro e uma facada. Qual é a situação de risco em que ela se colocou? Nenhuma. E o discurso de quem mata é de que isso o autorizaria a matar. Então é para isso que a gente tem que chamar atenção.

Vendo todos os dias tantos casos de violência, como você imagina o futuro? Há esperança?

Me desanima quando eu vejo os estudiosos falarem que nem daqui a 200 anos… Eu tive a oportunidade de viajar recentemente para a Europa e assistir aos noticiários. Os feminicídios também ocorrem na Espanha e as mulheres morrem por serem mulheres nas mesmas condições que as mulheres brasileiras, em outras proporções, mas exatamente pelos mesmos motivos. A gente tem que pensar que precisa haver uma mudança cultural. Isso tem a ver com uma cultura, então a gente tem que trabalhar com educação nesse sentido. Então quando a gente fala de trabalhar com educação e gênero, não quer dizer que a gente vai querer mudar a orientação sexual das pessoas, mas sim trabalhar com o respeito, dizer que todos devem ter os mesmos direitos, e isso tem que ser trabalhado nas escolas. E também trabalhar com esses homens autores de violência – em todos os lugares que a gente tem esse trabalho, ele é bem sucedido. Mas infelizmente há poucas políticas públicas nessa área e há pouco investimento, apesar de ser um investimento muito baixo para um retorno muito positivo.

Nos últimos anos, alguns avanços aconteceram e a Lei Maria da Penha está entre eles. As denúncias aumentaram?

 

As denúncias aumentaram e as pessoas estão falando sobre isso, se sentindo confortáveis em falar sobre isso. Eu penso que as mulheres mais jovens têm uma postura de enfrentamento em relação a isso, enquanto as mulheres de mais idade têm uma postura de acanhamento. Não que a todo momento seja possível enfrentar e nem estou sugerindo que as mulheres saiam enfrentando, mas há uma postura de “isso eu não quero, isso eu não vou fazer”. Quando a gente ia imaginar que no Carnaval haveria campanhas contra o assédio? Então eu penso que estamos num processo de evolução. Não é porque eu estou no Carnaval que eu estou disponível a quem quiser. Eu estou disponível a quem eu quiser, o que é bastante diferente. É um processo interessante de amadurecimento.

Dra. Susana ao lado de Paulo, seu marido, e Manuela, sua filha, no dia em que recebeu o título de Cidadã Honorária de Londrina

Tem uma entrevista da Revista Tpm que eu gosto muito, com a  juíza Maria Berenice Dias, que em 1973 se tornou a primeira juíza do Rio Grande do Sul, em que ela diz que na entrevista final para o cargo de juíza perguntaram se ela era virgem… Como é ser uma mulher promotora? Você já passou por algum tipo de constrangimento ou situação machista? Como lidar com isso?

Hoje não mais, mas as carreiras jurídicas eram majoritariamente masculinas… Eu entrei com 25 anos e encontrar uma mulher jovem, no gabinete, já “autorizava” os homens a virem com gracejos e cantadas, esquecendo o cargo de autoridade e o que eu estava fazendo ali. Então necessitava sempre uma postura dura e austera da minha parte para que aquilo cessasse imediatamente. Acho que isso ainda acontece, infelizmente. Eu fiz outros concursos além do Paraná e na minha prova oral – hoje felizmente isso acabou, porque as provas orais estão sendo bastante monitoradas – havia perguntas do tipo “se você casar, o seu marido vai te acompanhar?”. Como se eu precisasse ser acompanhada… Isso em 1996. Muitas das minhas colegas também ouviram perguntas do tipo “você vai passar e imediatamente você vai engravidar?”. Coisas desse tipo ainda são ouvidas. Ainda temos um caminho a percorrer, porque até onde eu sei, homens não engravidam. Então se há vontade de ter filhos, inclusive por parte dos homens, são as mulher que precisam engravidar. Mas há uma mudança de mentalidade… já se fala da licença compartilhada, por exemplo.

 

Você foi definida pelo jornalista José Maschio como “a mulher que colocou o dedo em uma ferida aberta há muito tempo” – referindo-se ao esquema de aliciamento de menores envolvendo figurões da cidade, homens públicos e teoricamente íntegros. Você já sofreu represálias por conta do seu trabalho?

Eu não vejo como represálias, mas acho que não sou bem vista por essa parte da sociedade. Lamentavelmente, algumas pessoas entendem esse comportamento, de procurar meninas que estejam disponíveis a vender o próprio corpo, meninas pobres, que não tem outro meio de sobrevivência e condição, como algo lícito e normal. Como se eu estivesse atrapalhando o bom andamento daquilo que estava quieto e encoberto. Então se essas pessoas me veem de nariz torto, para mim não faz diferença nenhuma: vou continuar fazendo o meu trabalho. Eu fico feliz que algumas meninas conseguiram sair desse processo. Outras eu sei que continuam nessa roda-viva. Mas é preciso mais do que um processo para que essas meninas saiam desse movimento e também sei que há quem ainda faça uso dessa prática da compra sexual. Há que se ter uma mudança de mentalidade. Se as pessoas não entendem esses homens como criminosos, esses homens que têm filhas com a mesma idade, que não gostariam que suas filhas fossem abordadas na rua, que o mesmo comportamento fosse praticado com elas, e que se fosse praticado com elas com certeza bateriam na minha porta e pediriam providências… mas como as vítimas não são pessoas afortunadas e não se entendem como vítimas, porque a curto prazo entendem que receberam um benefício, não entendem que são alvos descartáveis…  A gente buscou fazer um trabalho com essas meninas, mas com algumas não foi possível a reflexão. E posso dizer que a maioria desses homens sequer refletiu que o comportamento deles foi ilícito.

 

Qual é a melhor e a pior parte desse trabalho?

 

A melhor é quando a gente vê uma vítima liberta da situação de violência… uma mulher ou uma criança que conseguiu se libertar. A pior é quando a gente não consegue libertar ou quando uma mulher não consegue se libertar dessa situação de violência. Ou um abusador, por exemplo, que a gente tem a convicção de que abusou de uma criança, e a gente não consegue sucesso no processo. Isso dá uma frustração muito grande.

Em 2014, com o então Prefeito Alexandre Kireef e a Vereadora Elza Correia, Dra. Susana recebe o título de Cidadã Honorária de Londrina

Qual caso mais te marcou?

 

Marcos Colli [advogado e ex-assessor da Câmara de Vereadores de Londrina, denunciado em 2013 por estupro de vulnerável e condenado pelo Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) no que Dra. Susana chamou em entrevistas da época de “o pior crime de pedofilia da história de Londrina”], com certeza. Muito marcante… Foram muitas crianças [abusadas].

 

O que você acha que é fundamental para conseguir chegar aonde você chegou?

Gostar do que faz, se dedicar e ter uma equipe bacana. Ninguém trabalha sozinho, trabalhamos em rede… Secretaria da Mulher, uma equipe legal na promotoria, um serviço de atendimento à mulher. Uma rede integrada que trabalha junto.

 

Se você fosse escolher uma palavra para te definir, qual seria?

Perseverança. Eu não desisto, é uma característica minha.