OS LIVROS DA INFÂNCIA NUNCA ACABAM

READ DESTAQUE

Nas velhas estantes ou em cantos esquecidos da memória, existem pilhas de livrinhos aparentemente inocentes, mas muito profundos

Por Layse Barnabé de Moraes

Ilustrações: Akin Düzakin

Assim como a grande maioria das pessoas que escrevem, eu sempre gostei de ler. Desde muito nova, eu invadia a estante de livros de minha mãe… Nessas expedições, eu esbarrava em livros de adulto e todo um mundo ainda distante, em verso e em prosa, revelava-se para mim.

Ainda me lembro de quando vi na prateleira, pela primeira vez, a edição do finado Círculo do Livro de “O pequeno príncipe”, clássico de Saint Exupéry, que ainda hoje segue comigo (é certo que um pouco despedaçada).

Eu devia ter uns três anos e ainda não sabia ler aquele amontoado de palavras, mas havia algo naquele livro que me fez prometer em voz baixa: quando eu aprendesse a ler mesmo, de verdade, aquele seria o meu primeiro livro. E foi.

Depois de adultos, geralmente deixamos os livros infantis reservados ao tempo da infância. Fico pensando o que nos faz abandonar as seções infantis e infantojuvenis… O que nos faz abandonar essas histórias de poucas palavras, acompanhadas de cores e ilustrações?

O livro “A maior flor do mundo”, do escritor português José Saramago, único ganhador do Nobel em língua portuguesa, começa assim: “As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples, porque as crianças, sendo pequenas, sabem poucas palavras e não gostam de usá-las complicadas. Quem me dera saber escrever essas histórias, mas nunca fui capaz de aprender, e tenho pena. Além de ser preciso saber escolher as palavras, faz falta um certo jeito de contar, uma maneira muito certa e muito explicada, uma paciência muito grande – e a mim falta-me pelo menos a paciência, do que peço desculpa”.

Enquanto leitores, talvez falte a nós, os adultos, a simplicidade necessária para mergulhar no universo desses livros, como diz Saramago; ou é possível que seja algo ainda mais triste: talvez a gente tenha desaprendido a sensibilidade.

Poucos livros de adulto me emocionaram tanto quanto alguns livros infantis e infantojuvenis. “Meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcelos, está no topo da lista. Devia ser proibido crescer seu lê-lo, mas caso você ainda não tenha feito isso, eis aqui um benefício aparentemente quase que secreto: livros infantis e infantojuvenis podem ser lidos por pessoas de todas as idades, sem nenhuma restrição.

Na minha lista de favoritos, sem pensar muito e correndo o risco de cometer alguma injustiça, estão: “Flicts”, do Ziraldo; “Onde vivem os monstros”, do Maurice Sendak, “Bisa Bia, Bisa Bel”, da Ana Maria Machado, “A bolsa amarela”, da Lygia Bojunga Nunes, “A mulher que matou os peixes”, da Clarice Lispector, “Os porquês do coração”, da Conceil Corrêa da Silva e Nye Ribeiro, “Chapeuzinho amarelo”, do Chico Buarque, “Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo”, do Bill Joyce, “Eu me pergunto”, do Jostein Gaarder.

Você lembra qual foi o último livro infantil que leu? E pergunto isso independente de filhos, afilhados, sobrinhos, irmãos mais novos… Quais foram os livros que mais te marcaram durante toda a vida?

Fazer listas é uma forma de organizar a lembrança. Então, caro(a) leitor(a), sugiro que você construa a sua própria. Caso não seja possível fuçar as velhas estantes, tenho certeza que existem pilhas de livrinhos – aparentemente inocentes, mas muito profundos – em cantos esquecidos da sua memória. É urgente: precisamos reaprender a sensibilidade.