NATUREZA EM FIOS: OS TAPETES DE ALEXANDRA KEHAYOGLOU

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Entrelaçando arte e artesanato em seu tear, a designer cria peças esculturais que retratam florestas, campos e pradarias

Por Edson Faria

Foto abertura | Fonte: Alexandra Kehayoglou

Confeccionados manualmente com fios de lã por tribos nômades da antiga Pérsia, os primeiros tapetes tinham como exclusiva função aquecer as tendas nos períodos de invernos rigorosos. Por sua qualidade e beleza, ganharam espaço na Europa do século XIII e passaram a vestir não apenas o piso, mas também as paredes das luxuosas residências daquela região. Naquele momento, a seda já se destacava como matéria-prima de verdadeiras obras de arte que não apenas aqueciam, mas também decoravam os ambientes dos nobres. Com o tempo, a produção acabou se espalhando por outras regiões do Oriente e os produtos alcançaram novos mercados. No entanto, foi só no século XVIII, com a mecanização dos processos de fabricação, que os tapetes realmente ganharam popularidade.

Hoje, a arte do tear evoluiu com a tecnologia e a criatividade, resultando em uma produção com os mais variados formatos, estilos e matérias-primas. Indo do aconchego artesanal dos modelos em algodão ao prático e resistente industrial em polipropileno, os tapetes se mostram elementos indispensáveis da decoração, contribuindo não apenas com sua beleza, mas também com o conforto térmico e acústico que proporcionam quando bem empregados.

Consciente da versatilidade dessas peças milenares e explorando suas possibilidades criativas, a argentina Alexandra Kehayoglou entrelaçou arte e artesanato em seu tear para recriar tapetes que mais parecem recortes da natureza.  Tratam-se de jardins privativos que mesclam o nostálgico e o contemporâneo em composições que despertam os sentidos.

Com sua percepção e sensibilidade formada em meio a tramas e teares da antiga fábrica têxtil de sua família em Buenos Aires, a designer decidiu seguir sua linhagem tapeceira de uma maneira criativa e inusitada: idealizando tapetes esculturais e exclusivos que, dotados de tridimensionalidade, reforçam as características reais das paisagens que os inspiram. Usando os restos da produção familiar, Alexandra reproduz em seu trabalho as cores e texturas da natureza em composições em que os fios se transformam em gramíneas e musgos dos mais diversos tons de verde. Dessa forma, apresentam-se como portais capazes de transportar as pessoas para florestas, campos e pradarias.

Confeccionados em diferentes tamanhos e estilos, os trabalhos da tecelã, assim como dos antigos persas, por vezes sobem as paredes e criam cenários capazes de remeter as pessoas a um imaginário lúdico e onírico. Apresentados muitas vezes como obras de arte, seus tapetes não foram idealizados apenas para contemplação, mas sim para serem tocados e pisados, em uma experiência de interação que deixará as marcas das histórias vividas. Carregando uma forte mensagem de sustentabilidade por ter o reaproveitamento como base, a obra da artista cria magníficos gramados interiores que trazem, ainda que de modo artificial, a natureza para dentro da decoração.

Embora na maioria dos casos a função desses elementos seja complementar, com seu valor artístico e impacto visual, os tapetes idealizados por Alexandra Kehayoglou roubam a cena e garantem seu protagonismo nas composições. Artesanais e confeccionados com fios de algodão, eles também conquistam com sua trama macia, aconchegante e agradável ao toque. Como se não fosse suficiente, a designer vai além e redefine o significado desses elementos ao incorporar funções cognitivas que estimulam os sentidos e o imaginário coletivo. Um trabalho primoroso que acalenta o corpo e a alma em um passeio pelo “natural”.