A NATUREZA DENTRO DE CASA

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Decoração que preza pelo aconchego em ambiente de concreto é destaque no espaço “Assim é (se lhe parece)”, da Terinn Arquitetura, na Mostra Jardins, Quintas e Quintais

Por Júlia Marroni

Foto Fábio Pitrez

 

Mostra Jardins, Varandas, Quintas e  Quintais, realizada pela Unidecora, no Aurora Shopping, contou com oito diferentes espaços e uma série de palestras técnicas sobre o tema.  Não dava para saber direito onde acabava o jardim e onde começava a parte interna da casa – e essa era mesmo a intenção! No caso dos arquitetos Marcos Maia e Gilmar Mazari, da Terinn Arquitetura e Mobiliário, referência na área desde 1987, o espaço de 80 m² apostou em personalidade e significado.

Marcos conta que o maior desafio foi criar uma atmosfera agradável em um ambiente mais industrial. “A gente tratou esse ambiente mais como uma instalação, diante do aspecto que foi proposto, que é uma infraestrutura de concreto com laja aparente. Nosso trabalho foi tentar extrair desse espaço bruto uma sensação agradável do que propriamente uma decoração mais tradicional. A gente buscou mais a sensação e a atmosfera do que uma decoração rigorosa. Queríamos que, quando as pessoas entrassem no ambiente, extraíssem a atmosfera bruta e se voltassem para um acolhimento maior. É uma proposta para um loft, uma arquitetura contemporânea, mas, basicamente, não tem muitas regras”.

Pensando em não seguir modelos rígidos, Marcos e Gilmar não deram um nome convencional à instalação, batizada de “Assim é (se lhe parece)”. O nome é uma referência à peça homônima, escrita em 1917 por Luigi Pirandello. “Escolhemos esse nome para que as pessoas se apropriassem da ideia e imaginassem onde esse ambiente ficaria legal”, conta Gilmar. “Talvez um hall de um hotel ou até uma casa mesmo, em uma varanda. A gente levou essa ideia junto com o Carlos Kuhnlein [paisagista que trabalhou com Marcos e Gilmar na Mostra], para que ele pudesse transmitir com as plantas a mesma ideia que a gente”, completa ele. A parceria entre os arquitetos e o paisagista já existe há vários anos, mas um trabalho com o foco em jardins e varandas era até então inédito.

Segundo Marcos, a principal mensagem que eles pretendem transmitir com esse ambiente é a da visibilidade ao diferente. “Nesse ambiente tem muito do lúdico e de não seguir regras. Vamos olhar para o diferente, para cores diferentes, para um jeito diferente de fazer uma decoração. Olhar de um jeito diferente para a sociedade. A gente acha que mesmo com a arquitetura e com a decoração podemos dar um recado que vai além da estética”.

Foto: Fábio Pitrez

Em busca dessa aposta pelo novo, Marcos e Gilmar se arriscaram também com relação à cor: “A gente se apropriou de tons ferrosos, de onde partimos de uma tabela de cores que faz um degrade até chegar em tons de cinza”, explica Gilmar. O cinza é encontrado principalmente nas paredes e em partes da estrutura que ficaram visíveis: “Foi um desafio trabalhar com coisas aparentes. Se você reparar, tem infraestruturas que a gente não camuflou e isso foi proposital”.

Essa proposta de ousar na paleta de cores, segundo os arquitetos, tem muito a ver com o que estamos vivendo nos dias de hoje. “Se você tiver um olhar mais cuidadoso com aquilo que te parece diferente, você vai se apropriar do novo e descobrir, naquilo que você acha diferente, uma beleza que a princípio acha que não existe. A gente tinha esse desafio de sair dos tons terrosos e chegar no cinza, mas, ao mesmo tempo, é possível encontrar no ambiente coisas em azul, um pouco de madeira etc. A gente buscou transmitir a ideia de que é sempre possível extrair uma mensagem positiva, tanto de sensação como de convivência”, explicam eles.

Natureza dentro de casa

O projeto da Terinn se alinhou com uma demanda atual, que preza pelo verde em ambientes internos:  “A proposta é legal, porque é justamente uma demanda que o público de apartamento vem buscando. Eles querem essa coisa do paisagismo de interiores… trazer um pouco da natureza para dentro de casa“, contam eles. Marcos ainda ressalta que ambientes com mais natureza  são um pedido constante: “As pessoas querem, além de trazer uma decoração legal, que tenha uma atmosfera parecida com uma casa. Quem está em apartamento quer desfrutar da varanda e da vista”. Gilmar complementa: “Cada vez mais, você vai ter um profissional da área contribuindo para trabalhar o paisagismo junto com a decoração por eficiência – saber as plantas que vão se desenvolver melhor em áreas de sombras, que são as áreas internas. O que a gente tentou mostrar é que você pode trazer um conceito afinado à decoração. É possível se apropriar da forma e da textura das plantas e também conseguir um resultado estético. O paisagista trabalhar junto com o arquiteto é fundamental“.

Prioridade local

Marcos e Gilmar trabalharam só com peças que tinham na cidade: “Não encomendamos nenhuma peça. Isso foi outra coisa muito legal. Dentro dessa garimpagem, fomos achando coisas que coincidiam com a nossa proposta. No espaço tem, por exemplo, uma poltrona que foi desenhada por nós, a Poltrona Cigarra. Ela tinha acabado de chegar em uma loja na cor azul marinho – que ficava dentro da cartela de cor que a gente trabalhou”.

Poltrona Cigarra é uma criação da Terinn Arquitetura e Mobiliário. Foto: Fábio Pitrez

Atentos aos detalhes, Marcos e Gilmar sempre se preocupam em passar uma mensagem: “A tipologia da luminária conversa muito com a fotografia, que conversa muito com a poltrona Capadócia – que é um lançamento da AZ3, da Saccaro. Então, quando as pessoas olham, percebem que existe uma conversa. Este é o nosso trabalho: despertar um repertório. Não é só ver as peças bonitas, é perceber que as peças conversam. Quando você escolhe uma cadeira, tem um motivo… é porque essa cadeira conversa com outra e isso cria um resultado com mais poesia e sensibilidade. A nossa pegada é muito essa, buscar que a pessoa entre e fale ‘Ah, tem alguma coisa de diferente aqui, uma sensação diferente’. Mais do que ficar bonito, tem que emocionar e mexer de alguma forma”.