FENG SHUI: UMA CASA SÓ É HABITÁVEL QUANDO ESTÁ EM EQUILÍBRIO

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Tendo cada coisa sua vibração, lugar e função, a orientação de um projeto, a disposição do mobiliário ou mesmo os objetos decorativos são capazes de influenciar o fluxo e a qualidade de vida daqueles que usufruem do espaço

Por Edson Faria

 

“Todo chinês é taoísta em casa, confucionista na rua e budista na hora da morte” é o provérbio que melhor expressa a maneira como os chineses se relacionam e interagem com o mundo. Sintetizando a complexa base espiritual dessa nação, esse ditado expõe o quanto é importante olhar o passado para compreender a trajetória de sucesso e prosperidade da nação mais antiga do mundo. Fortemente vinculada a suas raízes e tradições, essa cultura foi moldada segundo as doutrinas de Confúcio, Lao-tsé e Buda, nas quais a harmonia, seja ela social ou cósmica, se mostra a base de tudo.

Enquanto a filosofia confuciana defenda o equilibro social por meio de regras de convívio e o budismo expõe os cânones do pós-morte, coube ao taoísmo de Lao-tsé atentar ao vínculo da humanidade com as energias da natureza e seu reflexo sobre bem-estar físico e mental do homem. Segundo essa filosofia com ares de religião, tudo que existe é dotado da força motriz Tao que, regida pela transição dos pares opostos Yin e Yang, mantem o universo em equilíbrio. Assim, tendo cada coisa sua vibração, lugar e função, a orientação de um projeto, a disposição do mobiliário ou mesmo os objetos decorativos são capazes de influenciar o fluxo do Tao e, em consequência, a qualidade de vida daqueles que o usufruem.

Dessa senda adveio o Feng Shui, uma corrente de pensamento com mais de 4000 anos que busca readequar ambientes com o intuito de atrair influências positivas e, dentro do possível, redirecionar as nocivas como meio de auxiliar os moradores a atingir seus objetivos e suprir suas necessidades.

Estudando os planos visível e invisível, essa técnica remodela pontos específicos das construções por meio do equilíbrio entre Yin e Yang e da harmonia entre os cinco elementos fundamentais: madeira, fogo, terra, metal e água. Assim, por serem veículos das forças vitais e interagirem com os ciclos de criação e destruição, a presença desse conjunto de elementos é obrigatória em cada ambiente. No entanto, não precisam ser utilizados em sua forma pura, sendo admitido sua representação por meio de cores, formas ou símbolos associativos.

Madeira – elemento do crescimento representado por: cores verde e azul/ formas cilíndricas/ objetos de madeira e flores

Fogo – elemento transformador representado por: cores vermelha e dourado/ formas triangulares e pontiagudas/ objetos que iluminem natural ou artificialmente.

Terra – elemento da segurança representado por: cores amarelo e tons terrosos/ formas quadradas e retangulares/ objetos cerâmicos e vasos.

Metal – elemento da abundância e sucesso financeiro representado por: cores brancos e cinzas/ formas circulares/ objetos de metal, pedra e cristal.

Água – elemento purificador representado por: cores preto e marinhos/ formas soltas e assimétricas/ objetos reflexivos

 

Fonte: Daniela Muniz | Foto: Felipe Araújo

Segundo os orientais, recepcionar bem as forças do universo se mostra tão importante quanto receber qualquer convidado e, sendo a porta principal a área de transição entre os mundos exterior e interior são seus aspectos físicos e sensoriais os responsáveis pela maneira como o mundo interagirá com aqueles que ali habitam. Assim, mantê-la desobstruída e em perfeito estado é fundamental para uma interação harmônica com o cosmo.

Local das primeiras impressões e maior via de acesso da energia suprema, a área de entrada é também onde a renovação energética dos visitantes deve ser ativada. O uso de plantas, seja ele em vasos ou em jardins, é adequado para esta função, visto que, além de proporcionarem aconchego e sensação de bem-estar, as plantas são esponjas naturais de energias negativas.  Espécies florais também são bem-vindas como alternativa ao uso das cores dos cinco elementos logo na entrada da residência.

Como a intenção é que, depois de adentrar, o fluxo circule por todos ambientes, a cultura chinesa aconselha que as portas dos fundos, banheiros, escada e espelhos nunca estejam alinhadas com o acesso principal, pois essa configuração resulta na evasão do dinamismo vital e, em consequência, na perda de oportunidades. Como na maioria dos casos essa estrutura espacial é quase impossível de ser alterada, a orientação é que esse desequilíbrio seja amenizado com o uso de cristais multifacetados, como lustres e plafons, no hall de entrada. Os cristais são muito utilizados pelos orientais em decorrência da sua pura e elevada vibração energética capaz de restabelecer harmonia onde ela não existe.

Leves, luminosos, arejados e desimpedidos. É assim que os ambientes devem ser para que a energia flua livremente por entre a decoração como ocorre na natureza. Para isso, mantenha a ordem, desapegue-se do desnecessário e livre-se daqueles objetos que não trazem boas lembranças. Adepto do minimalismo, para o Feng Shui a casa é como um segundo corpo e desordem e acumulação resulta em uma vida pessoal limitada e atravancada. Por isso, abra as e deixe a luz e o vento energizarem o seu lar.

Outro aspecto importante e muito trabalhado é a hierarquia dentro das composições, pois cada ambiente tem uma função e um móvel que melhor a representa, seja ele uma cama, mesa ou sofá. Assim, este elemento se mostra o mais importante e deve estar sempre em posição de comando dentro da decoração. Na maioria das vezes, o centro do espaço é o local indicado e nunca de costas para a porta de entrada.

Nos quartos esse conceito se aplica de maneira um pouco diferente, pois a cama deve estar em destaque mas nunca em frente a porta. Além disso seu posicionamento deve permitir acesso por ambos os lados e sempre contar com cabeceira e mesas laterais. Elementos pesados afixados acima dela ou coisas antigas armazenadas embaixo também são desaconselhadas pela insegurança que provocam e pela energia que acumulam. Sendo o quarto o principal refúgio de descanso e reposição energética, nele só devem constar objetos que remetam à boas lembranças e estimulem sensações agradáveis. Fazer uso da intuição é um ótimo caminho na tentativa de viver em harmonia com o ambiente.

Fonte: Débora Aguiar | Foto: Divulgação

A disposição e organização de todo espaço é fundamental, sobretudo no ambiente que simboliza e estimula a riqueza e a prosperidade. Por apresentar os elementos água e fogo, a cozinha pode apresentar conflitos de energia e afastar a abundância de qualquer casa. Por isso, fogões, fornos, micro-ondas não devem estar perto de itens como geladeira, pia ou lava-louças para que a energia do fogo não seja apagada pela da água. Como essa configuração é difícil de ser rearranjada principalmente em ambientes pequenos, os ancestrais aconselham o posicionamento de um terceiro elemento entre os anteriores para que o equilíbrio seja restabelecido. Um vaso com ervas, colheres de pau ou mesmo um cristal podem ser utilizados para essa função. O fogão como peça dominante deve sempre estar limpo com todas as bocas funcionando.

 

Outro ambiente que apresenta grande circulação de energia pelos encontros, conversas e convívios que promove é a sala. Configurá-la de maneira que a decoração abrace as pessoas, palavras e emoções é um meio de tirar partido de sua potencialidade e de torná-la receptiva e relaxante. Assim como nos demais ambientes, iluminação, ventilação e organização são fundamentais para manter o Feng Shui em harmonia. Com relação a seu móvel representativo, posicionar o sofá em frente a porta e alinhado a parede além de destacá-lo ainda proporciona receptividade, proteção e segurança aos seus convidados. As circulações também devem sempre estar desobstruídas para manter o fluxo contínuo.

Fonte: Yamagata Arquitetura | Foto: MCA Estúdio

Por sua vez, os banheiros por serem os espaços mais pesados e com maior dificuldade de harmonização, devem ser mantidos fechados para que o Ch’i não se perca ralo abaixo e nunca ter sua porta voltada para cozinha, sala ou quartos.

Ainda que o ideal seja empregá-lo na etapa de desenvolvimento de projeto, sua utilização na fase de ambientação se mostra um poderoso aliado na busca por prosperidade, saúde, sucesso e proteção. Podendo ser facilmente aplicado a qualquer estilo de decoração, o Feng Shui se mostra uma alternativa àqueles que procuram bem-estar em casa ou no ambiente de trabalho com a ajuda das forças do universo. Muitas vezes encarado como superstição, essa ciência milenar é utilizada como oráculo para investimentos imobiliários no Oriente, onde cidades como Hong Kong foram totalmente construídas segundo seus preceitos. Talvez esse seja realmente um dos segredos da trajetória de sucesso e prosperidade daquela civilização. Pelo sim, ou pelo não, faça como os chineses: adeque sua casa, abra as janelas e deixe a vibração vital da natureza inundar seu universo particular.

Fonte: Naomi Abe | Foto: Marco Antônio