CRIANÇAS & ATENÇÃO PLENA

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O Mindfulness é sinônimo de atenção plena e pode ser uma boa ferramenta para ajudar crianças a terem mais consciência no momento presente

por Layse Barnabé de Moraes
Fotos: Pixabay e Fábio Pitrez

 

No vídeo “O que é Mindfulness”, Jon Kabat-Zinn, um dos pioneiros nas pesquisas sobre o Mindfulness, fundador e diretor da Stress Reduction Clinic, no Centro Médico da Universidade do Massachusetts, e professor associado no Departamento de Medicina Preventiva e Comportamental, explica que “[Mindfulness] é a consciência que nasce de prestar atenção, com propósito, no presente momento, sem julgamentos”.

O conceito, um pouco vago a princípio, parte da atenção plena e é uma ferramenta que tem feito sucesso mundo afora, sendo assunto de inúmeros livros e suscitado muita curiosidade. O governo britânico, por exemplo, adotou em 2009 programas de mindfulness em seu sistema de saúde. Muito usado no contexto empresarial, para o aumento do foco e produtividade, quando pensado no âmbito da infância, pode trazer muitos ganhos para as crianças.

Aqui no Brasil, a principal referência no assunto é o Mindfulness Brasil: Centro Mente Aberta (Brazilian Center for Mindfulness and Health Promotion), que coordena o Programa de Extensão Social da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Conversamos com o Prof. Dr. Marcelo Demarzo, coordenador geral do Centro Mente Aberta, e com a Profª. Maria Lucia Favarato, responsável pela organização e pela logística do Ambulatório de Mindfulness. Eles explicam que “mindfulness é uma técnica de atenção plena, totalmente não religiosa, com programas e protocolos baseados em evidência científica, visando o bem-estar das pessoas em geral, como também o tratamento complementar de alguns tipos de condições de saúde, como ansiedade, depressão e dor crônica”.

As principais técnicas para o desenvolvimento da atenção plena, explicam os professores, são exercícios atencionais derivados de algumas práticas meditativas que usam o próprio corpo (respiração, sensações corporais) como âncoras para o treinamento da atenção. “No caso da aplicação na área da saúde e da sociedade como um todo, na forma de programas científicos conforme desenvolvemos no Centro ‘Mente Aberta’ da Unifesp, ela está desprovida de qualquer conotação religiosa ou esotérica, apesar de suas raízes se remeterem às diversas tradições humanas, como o budismo, o cristianismo etc., incluindo os gregos estoicos que já falavam de Mindfulness como filosofia de vida”.

Segundo eles, há muitos estudos que comprovam a melhora na qualidade de vida das pessoas e pacientes que passam por programas de Mindfulness: “Não falamos em cura, mas em melhor manejo dos problemas, o que pode prevenir novos quadros de ansiedade, ou depressão, por exemplo. Há também vários estudos sobre os benefícios de Mindfulness em outras áreas da sociedade, como na educação de crianças e adolescentes (melhora da atenção, desempenho escolar, diminuição de casos de bullying)”.

Mindfulness, ao que parece, é sobre viver o presente e no presente. Pode parecer óbvio, mas conectar ação e pensamento àquilo que fazemos sem nos voltar para o passado e criar expectativas para o futuro é cada vez mais difícil – não à toa, a ansiedade tem dominado os dias de muitas pessoas. Aliás, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil tem a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade do mundo, somando 18,6 milhões de brasileiros em 2015.

Mas como o Mindfulness pode ser aplicado às crianças? Segundo Centro Mente Aberta, estudos apontam que as intervenções baseadas em Mindfulness em contextos educacionais, podem ser úteis para a melhora de habilidades cognitivas, emocionais e sociais. Além disso, podem ser combinadas com outros tipos de aprendizado social e emocional – social-emotional learning (SEL) – e realizadas durante o período escolar.

Os efeitos, tanto em adultos quanto em crianças, são diversos, em geral, com aumento da densidade de algumas áreas cerebrais, medidas por exames de neuroimagem, áreas associadas à atenção, concentração, memória, funções cognitivas e executivas, ou seja, Mindfulness promove neuroplasticidade do cérebro, a partir de sua prática cerebral. A base dos benefícios é o desenvolvimento de mais foco e atenção.

A partir do desenvolvimento de nosso estado mental, partindo da prática regular de Mindfulness, os benefícios vêm naturalmente, como o melhor gerenciamento do estresse cotidiano, e das situações que possam levar a quadros de ansiedade, depressão, e piora da qualidade de vida, como a dor crônica. Hoje em dia existem em torno de 4.000 estudos científicos comprovando os benefícios da prática de Mindfulness.

A jornalista londrinense Mariana Matias, por exemplo, juntou o gosto pelo universo da infância e o interesse pela meditação e encontrou no mindfulness uma das ferramentas para o seu KidXchance, projeto que foca no protagonismo infantil e na aprendizagem ativa por meio de cursos para pais, crianças e professores. “A ideia é trabalhar o estresse na sala de aula, inserida nas atividades de classe e dentro de casa”, explica. A consequência disso é o desenvolvimento das habilidades socioemocionais, que foram incluídas nas novas diretrizes educacionais desde o ano passado – autonomia e responsabilidade; empatia e cooperação; autoconhecimento e autocuidado; autogestão.

Mariana Matias desenvolve projeto cujo foco é o protagonismo infantil e aprendizagem ativa

Mariana se aprofundou nos estudos sobre o assunto e, ao lado de uma pedagoga, montou o KidXchange, programa que utiliza o Mindfulness junto a outras metodologias, como a educação positiva e a comunicação não violenta, que pode ser adaptado em todas as realidades, desde escolas particulares com metodologias tradicionais e não tradicionais e também escolas públicas. Por enquanto, Mariana trabalha com workshop virtual para pais e professores. “Hoje, a gente auxilia os pais e professores a inserirem isso no dia a dia”, comenta.

Ela explica que muitas das técnicas de Mindfulness vêm da meditação budista, mas não são sinônimos. “A gente consegue fazer exercícios da técnica comendo, andando… por isso ele é muito aplicável para a criança, que às vezes não consegue ficar sentadinha na postura de meditação – apesar de também existir essa posição –, a maioria dos exercícios é de meditação ativa. E, o Mindfulness é mais do que isso”. Mariana ressalta que hoje estamos em um mundo em que as crianças são expostas ao estresse desde muito pequenas. Por isso, “o grande objetivo é que as crianças, praticando o mindfulness, consigam entender os seus sentimentos e lidar melhor com eles” complementa.

Entendendo o cérebro

Mariana ensina que não é holístico, nem espiritual. Trata-se de um exercício de atenção. “Você vai programar e treinar o seu cérebro. Ensinando a acalmar, a não ser reativo. Então você entende o problema e lida com ele de uma forma mais saudável. Uma forma de conhecer o seu corpo e o funcionamento da sua mente. É neurobiológico”, reforça.
No KidXchange, o objetivo principal é o protagonismo infantil, que a criança seja responsável e autora principal do seu próprio aprendizado. “Para que elas consigam se posicionar, se autogerir e sejam responsável pelas próprias escolhas. No final das contas, a gente trabalha com empatia, e precisa que a criança aprenda como ela funciona, como a informação caminha dentro do cérebro, então damos as ferramentas para que ela faça autogestão”, conta Mariana.

Resultados

Mariana Matias esclarece que há relatos de melhoras de comportamento e protagonismo, que é o principal objetivo. “A criança então fica mais ativa, se expressa melhor e se comporta melhor, tendo mais atenção nas atividades dentro da sala de aula, mas o comprometimento da parte dos pais é primordial”, alerta.

No curso do KidXchange, Mariana ensina exercícios básicos, incluindo técnicas de respiração. “Tem respiração da yoga, tem respiração do Mindfulness, tem escaneamento do corpo, onde a pessoa fica consciente de cada parte, tudo para criar a atenção plena e sair do piloto automático”, explica.

Para as crianças bem pequenas (três anos), os exercícios duram de 30 a 60 segundos, sempre com um guia dando orientações. Para crianças de até 14 anos, a prática dura, no máximo, cinco minutos, sempre utilizando o mesmo som – que pode ser uma nota musical, um sino – para marcar a hora que vai começar e a hora que vai terminar e sempre respeitando o desejo da criança em querer fazer ou não. “A ideia é fazer isso em um momento calmo e não em uma hora de conflito. Não são exercícios soltos e, além de incluir isso no dia a dia, você tem que mudar vários comportamentos, como abaixar para conversar, falar sobre suas emoções, dar exemplos com atitudes. Apenas aplicar o exercício de Mindfulness não vai funcionar. Há todo um ambiente que precisa mudar. Não é que vai acabar com as experiências ruins, mas a gente vai aprender a lidar com isso de uma forma mais consciente, vivendo o presente”, complementa.

Aqui no Brasil, a prática do Mindfulness e da meditação dentro do contexto escolar ainda é rara. Fora do Brasil já há muita coisa, principalmente nos Estados Unidos. Para Daniela Degani, idealizadora Mindkids, que leva o ensino da meditação para crianças, jovens, pais e professores de escolas públicas e privadas, como a Oswald de Andrade, em São Paulo, além de entidades de ensino de forma geral, a prática do Mindfulness fortalece a atenção e o equilíbrio emocional. “Conectando pensamentos e emoções, aumenta-se o entendimento dos sentimentos dos outros. A prática da respiração relaxa corpo e mente, criando um espaço interno tranquilo”.

Segundo ela, uma pesquisa realizada em Oakland, na Califórnia, com mais de 700 estudantes, demonstrou que professores notaram mudanças em seus alunos: 76% perceberam mais compaixão nas atitudes; 79% melhor participação; 83% maior capacidade de foco; 89% melhor equilíbrio emocional. Com o Mindkids, Daniela realiza breves inserções da prática em aulas regulares, aulas eletivas, atividades extracurriculares ou disciplinas na grade curricular. “A receptividade tem sido muito boa, tanto dos alunos quanto dos pais e professores. No Colégio Oswald de Andrade, por exemplo, de 200 alunos entre 11 e 14 anos que participaram do programa, 91% afirmaram ter gostado das aulas de Mindfulness e 95% afirmaram que o Mindfulness os ajudou”, comenta. “Eles também citaram como a técnica os ajudou e entre os itens mais citados estão me acalmar quando sinto irritação; me acalmar/me concentrar na hora dos estudos; me acalmar/me concentrar antes das provas; tomar melhores decisões; entender melhor como funciona minha mente; me concentrar melhor nas aulas. Só neste primeiro semestre serão quase 700 alunos impactados, sendo que o número de instituições de ensino atendidas pela MindKids cresceu 50%”, ela complementa.

Um dos grandes avanços, de acordo com Daniela, que foi treinada pela Mindful Schools, nos Estados Unidos, foi chegar também nos professores com mais força neste ano. “Nesse período que antecede as aulas, ensinamos as práticas introdutórias de meditação a educadores, e também atividades de atenção plena para realizar em sala de aula, com os alunos, e que podem ajudar no desenvolvimento da atenção, equilíbrio emocional e compaixão de crianças e jovens”, explica.

Mariana Matias faz coro e reforça que, na base de tudo, está a palavra empatia: “A gente tira a criança da bolha. Desenvolvendo o protagonismo, a gente dá uma opção para a criança entender e atuar nessa transformação, não precisando esperar crescer, fazendo isso desde o começo, desenvolvendo empatia”.

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