NÓS CULTIVAMOS

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Quais são as histórias de vida dos produtores rurais que cultivam dia a dia para que os alimentos cheguem à nossa mesa? Dois londrinenses passaram por 22 estados do Brasil contando histórias de produção em busca dessa resposta

Por Layse Barnabé de Moraes 

 

Em uma viagem a Cuba, o jornalista Pedro Crusiol foi constantemente questionado sobre o Brasil. Perguntaram a ele sobre Brasília e ele nunca tinha ido. Das praias, só conhecia bem o Litoral da Região Sul. Foi aí que se deu conta de que não conhecia o próprio país – este nosso Brasil, tão diverso e de dimensões continentais. “O Brasil não é isso aqui. Para você falar do Brasil, tenta conhecer o Brasil, senão você vai falar com base no que falam para você e no que você assiste na televisão. Infelizmente, o que se fala tem um viés negativo. A gente olha apontando problema, mas o Brasil tem muito mais coisa boa do que ruim. As pessoas são boas, têm histórias boas, fazem coisas boas e ninguém mostra”.

Pedro então decidiu se aventurar pelas estradas nacionais: “A ideia era conhecer o Brasil e os brasileiros”, ele conta. Mas, não queria rodar por rodar… Como já trabalhava com comunicação na área agrícola desde formado, pensou em juntar o tino jornalístico e o desejo de viajar pelo Brasil em uma coisa só. Surgia aí o Projeto Nós Cultivamos – Histórias de produção. “É isso: rodar o Brasil, visitando agricultores e projetos legais e mostrando o que é importante para cada região: produção de pimenta, maçã, algodão, soja, frutas, leite… Comecei a desenhar por onde eu queria passar e o que tinha no Brasil para poder ver”. Foram três anos preparando o roteiro e juntando dinheiro para concretizar a jornada, que não contou com nenhum patrocínio.

Após sete meses de viagem pelo Brasil, Pedro Crusiol e Rodolfo Avelar descobriram histórias de tantos resilientes agricultores por esse país a fora que transformaram suas vidas e vão ser compartilhadas em livro e documentário
Foto: Fábio Pitrez

Rodolfo Avelar, primo de Pedro, entrou na história quase que por acaso. A princípio, Pedro iria viajar com outro colega, mas acabou não dando certo. Rodolfo, por outro lado, tinha acabado de se formar em Engenharia Civil e estava com o plano de fazer de 2017 um ano sabático. “Eu queria comprar uma Kombi e viajar a América do Sul. O Pedro é sonhador e planejador e começou a me falar sobre a viagem, mas ainda era uma ideia muito distante… e em Abril de 2017 nós saímos para viajar”.

O meio de transporte escolhido, uma camionete Hilux SW4 só com os bancos da frente, foi adaptada por eles no melhor estilo “faça você mesmo” – ganhou cama de casal, fogão, geladeira, ferramentas e roupas de frio e de calor, para aguentar os extremos de temperatura do Brasil do Sul ao Norte.

Eles passaram por Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul (com direito a um pulinho no Uruguai), São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará, Amazonas, Tocantins, Goiás e Mato Grosso. “Nadamos no Rio Amazonas, no Rio Tapajós, passamos pela foz do Xingu, Rio Negro, Rio Solimões… tudo na cara e na coragem. Nós e o apoio das pessoas.”

Ao todo, foram sete meses de viagem: um mês para o sul, um mês para o Pantanal e cinco meses para o restante do Brasil. “Zeramos o Brasil”, eles brincam.  Com aproximadamente 40 mil quilômetros rodados de carro – sem contar a parte da Amazônia, toda feita a barco –, para neutralizar a emissão de óleo diesel causada pela viagem eles se comprometem a plantar árvores – serão necessárias 150 mudas, pela conta deles.

Quando estavam na estrada, dormiam em postos de gasolina, mas também foram bem recebidos nas casas de pessoas em vários lugares por onde passaram. Apesar da aparente sensação de espírito livre, seguindo um estilo utópico de “largar tudo para viver viajando”, na prática, não foi nada disso: toda a viagem foi estritamente roteirizada, organizada e agendada. “Todas as entrevistas que a gente agendou foram com a ajuda da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), cooperativas ou com o Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) fazendo o meio de campo.” Nos três anos de preparação, Pedro foi pautando as entrevistas e sabia exatamente com quem tinha que falar e porquê. “Por exemplo, não dava para passar no Sul de Minas sem falar do café”.

Família guardiã das Sementes da Paixão, no município de Remígio, no agreste da Paraíba
Foto: Pedro Crusiol

Eles não delimitaram o foco em agricultura familiar ou agricultura empresarial e não fizeram diferença entre pequeno ou grande produtor. “Nesse projeto, a gente não fez juízo de valor de nada. Não entramos na discussão agrária em nenhum momento e nem queremos. Acho que o país é diverso e o importante é que tenha espaço para todo mundo e que todos vivam bem”. O resultado dessa imersão brasileira são histórias de perfis variados e muitas cadeias produtivas representadas – soja, milho, trigo, café, laranja, leite, maçã, cebola, arroz, pecuária de corte, uva, olericultura, fruticultura, café do jacu, pimenta do reino, cacau, mandioca, batata, pescadores do Rio São Francisco, queijo da canastra, leite de cabra, camarão, coco e mel.

Sementes da paixão

Entre as dezenas de histórias com as quais tiveram contato, algumas marcaram mais profundamente, como a das quebradeiras de coco Babaçu, no Maranhão, cujo ofício era considerado um subtrabalho e a Associação das Quebradeiras de Coco Babaçu de Itapecuru Mirim transformou a vida das trabalhadoras de lá, que dobraram a sua renda e agora extraem óleo para vender para indústrias do setor de higiene e beleza e também fazem produção artesanal de sabão em barra.

Outro exemplo é o algodão colorido, familiar e orgânico, do sertão da Paraíba. Em Juarez Távora, a 100 km de João Pessoa, esse cultivo mudou os paradigmas do local: “Hoje o algodão colorido está em desfiles de moda da França, de Milão… Se o algodão normal era R$ 2 a arroba, esse eles conseguem vender por R$ 12. Então conseguiram agregar valor, e isso que é legal: um produto valorizado”, explica Pedro.

“Histórias como essas”, eles alertam, “se formos contar, ficaremos falando por três dias”. Uma das mais emocionantes talvez seja a da semente crioula, do agreste da Paraíba, da pequena cidade de Remígio.  “Foi a melhor entrevista”, confessa Rodolfo. “A história do Seu João e da esposa dele, Terezinha de Jesus, é muito forte. Todos os filhos foram para São Paulo, naquele êxodo para conseguir um trabalho na cidade grande. O Seu João, durante 16 anos, ia para São Paulo durante a seca para trabalhar como porteiro e depois voltar. Daí plantava uma lavoura e depois, ia para São Paulo de novo”, ele conta. Era um ciclo. Mas o povo de Remígio tinha uma riqueza maravilhosa que era um banco familiar de semente crioula, que são sementes passadas de geração para geração. “O bisavô plantava o milho, colhia, vendia um tanto e o outro tanto guardava em uma garrafa pet. No ano seguinte, plantava esse milho de novo. Os agricultores também trocam sementes entre si”. Vinham as empresas e os projetos do governo distribuindo sementes, mas elas não vingavam. Então chegou uma associação e organizou um banco comunitário de sementes, catalogando essa riqueza genética de material tradicional crioulo, indicando quais sementes são mais adequadas para cada época do ano, conseguindo melhorar a produção local. “Eles ainda são muito pobres, mas não passam mais fome”, explica a dupla.

Algodão colorido, produzido por pequenos produtores no município de Juarez Távora, no agreste da Paraíba
Foto: Pedro Crusiol

Nessa entrevista, Pedro e Rodolfo pararam para chorar várias vezes: “Choramos várias vezes em outras entrevistas também. Mas essa foi muito emocionante, porque você vê como a agricultura bem desenvolvida dá condições de vida maravilhosas. E todo mundo que mexe com a terra, mexe porque ama”, afirmam. “Para ter essa semente, a gente tem é paixão. Isso aqui é nosso tesouro. É o tesouro da nossa vida”, seu João e Dona Terezinha disseram. Por isso, as sementes são chamadas de sementes da paixão.

Um continente inteiro aqui dentro

Em tempos em que o espírito da cidade e as redes sociais exigem o máximo de vivências possíveis, ter contato com pessoas cujo mundo é a própria terra e a vida no campo é uma experiência única. Somando mais de 100 entrevistas em 22 estados do Brasil (ficaram de fora Rondônia, Acre, Amapá e Roraima), o maior proveito, eles falam sem pensar, foi o contato com as pessoas: “Parece que quanto menos se tem, mais as pessoas querem dividir”.

Se de um lado da viagem a intenção era conhecer os brasileiros do campo, do outro, também visitaram parques nacionais, estaduais e unidades de conservação: “Subimos quase todas as montanhas do Brasil”. Entre florestas, montanhas, praias e cachoeiras, eles até esperavam passar por alguma situação complicada. Felizmente, nada disso aconteceu. “Em nenhum momento a gente se sentiu inseguro ou ameaçado”, contam. Com risco calculado, eles só dirigiam durante o dia, por exemplo. “Você tem que se preparar para todos os tipos de problema que podem acontecer”, alertam.

A recompensa, no final das contas, foi muito maior do que imaginavam, incluindo conhecer Chapada dos Guimarães, Chapadas dos Veadeiros, a preferida deles, Chapada Diamantina, Chapada das Mesas e também a Amazônia, claro.  “A Amazônia é outro mundo… é tanta água e você não vê o outro lado da margem em alguns trechos”. Foram sete dias para subir o Rio Amazonas a partir de Belém, enfrentando a falta de conforto, mas tendo a gratificação da beleza natural. “A gente não sabia o que ia encontrar e foi uma surpresa muito positiva. Natureza, nascer e pôr do sol… A gente nem falava nada, só se olhava. O Brasil é muito mais do que os pontos turísticos que vendem para a gente. Se a pessoa tiver disposição e buscar informação, acha lugares sensacionais por preços sensacionais. Mas é uma pena: as pessoas não conhecem o Brasil. Tem um continente inteiro aqui dentro. São vários países dentro de um país”.

A FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) projeta que o Brasil será o principal responsável pelo aumento da produção global de alimentos nas próximas décadas. “Mas a gente come, bebe e veste todo dia e não sabe de onde vem o algodão que faz a nossa roupa, o trigo para o pão, o nosso café, o nosso leite, o nosso suco… Qual é a história de vida das pessoas que cultivaram o alimento que está na nossa mesa? O alimento não nasce na prateleira do mercado. Tem toda uma história das pessoas que deram a vida e o trabalho para que isso chegue à nossa mesa”, Pedro comenta.

Quebradeira de coco babaçu, em Itapecuru (Maranhão)
Foto: Pedro Crusiol

Tantos quilômetros percorridos e histórias descobertas geraram mais de dois terabytes de material para o Nós Cultivamos – todas as entrevistas foram feitas em vídeo, foto e texto. As melhores vão virar livro e a parte em vídeo se tornará um documentário. A ideia é também fazer uma exposição sobre os lugares do Brasil pelos quais eles passaram.

É preciso sair da ilha para ver a ilha

No livro O conto da ilha desconhecida, do escritor português José Saramago, há o seguinte trecho: “É preciso sair da ilha para ver a ilha”. De alguma forma, sair da zona de conforto e viajar pelo Brasil fez que Pedro e Rodolfo, mais do que contar histórias de produção, pudessem olhar de outra forma para suas próprias histórias. “Eu sempre achei que Londrina não tinha nada, mas eu comecei a dar valor para a cidade… vejo totalmente de outra forma”, conta Rodolfo. “Você passa a querer fazer o bem, a estar de bem com você mesmo, valorizar a sua família, o lugar em que você mora, as coisinhas que você tem. A felicidade está nos detalhes. Parece clichê, mas é verdade”, completa Pedro.

“As pessoas acham que a gente vendeu um apartamento para fazer isso”, eles contam. No entanto confessam que os gastos dos dois, tirando a compra da camionete, não chegaram nem ao valor de um automóvel popular – isso porque dormiam no carro e cozinhavam. “Eu gastei menos na estrada do que morando em Londrina. Se a gente conseguir recuperar o investimento, beleza, mas essa experiência nunca vai sair da gente”.

Sobre os planos de viajar de novo, Pedro e Rodolfo ainda não têm nada em mente, mas afirmam: “A estrada é boa. Vicia”. Ver outras realidades, segundo eles, fez que tudo parecesse bom. “A gente dá tanta importância a coisas que não merecem ter importância e deixa de viver bem. Deixa de estar perto de quem a gente realmente quer. Deixa de valorizar o momento pensando em coisinhas do dia a dia quando a vida é feita desses pequenos momentos. Na viagem, a gente só viveu o presente. Dia após dia, era só aquele momento. Eu não sei como retribuir tudo isso. Estou em dívida com a humanidade”, diz Pedro. Apesar do clichê da gratidão, como Rodolfo disse, talvez seja mesmo o caso de agradecer: “Agradecimento pelas pessoas que cruzaram o nosso caminho, pela vida”.