PINTAR COM A CÂMERA (E A ALMA)

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Apesar de solenemente ignorado pela academia, “No Portal da Eternidade” foi um dos poucos filmes notáveis lançados em 2019, sobre um Van Gogh total, pleno, de comovente humanidade

Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge*

Fotos: Divulgação

De todas as célebres aproximações que o cinema fez de Van Gogh, somente a de Kurosawa (no episódio que dedicou a ele em seus “Sonhos”, 1990, com Martin Scorsese vivendo o artista) se atreveu a representar o holandês trabalhando, obedecendo à imperativa violência de seu impulso criador. A sublimação das artes: o japonês fez sua imagem se tornar uma mimese das pinturas do holandês. Uma espécie de litografia em movimento.

O cineasta (e pintor) Julian Schnabel, convencido de que a melhor maneira de descrever uma obra de arte é fazendo outra obra de arte, preferiu se esquecer das versões cinematográficas precedentes – as de Alain Resnais (curta metragem de 1948), Vincente Minnelli, Robert Altman e Maurice Pialat – e se lançou à recriação da pintura de Van Gogh com os pinceis do cinema. Não apenas encontramos seus traços viscerais sobre a tela em branco, com suas cores vivas e densas como o óleo, mas sentimos a própria câmera invadindo as texturas como se as tivesse pintando, desfocando a parte inferior do enquadramento e se movendo como o vento que faz cair a folha de uma árvore. É um enfoque discutível? Até pode ser, mas responde ao espírito de um pintor que dialoga com a obra de um colega, frente a frente, com respeito e autoridade, mas também com uma pontinha de arrogância.

Sabendo que a vida atormentada de Van Gogh já há muito pertence ao imaginário do gênero da cinebiopic, Schnabel ignorou os conflitos entre cinema e pintura em termos de representação e reinventou o legado de seu objeto de estudo, transformando seu filme em uma extensão visual mais meditativa, à maneira do Malick em seus melhores momentos. Ele adicionou à sua reescrita sobre o trabalho do artista o único efeito especial autêntico de “No Portal da Eternidade”: a interpretação de Willem Dafoe. Distante da efervescência neurótica de suas encarnações cinematográficas anteriores, Van Gogh aqui é um Dafoe em plena serenidade zen, sempre consciente de que sua loucura pertence à capacidade que ele tem de criar, imaginar e inventar. Que sem ela, sem sua capacidade de explosão, não haveria gênio. É por isso que suas sequências com seu irmão Theo ou nas conversas que mantém com o padre no manicômio são tão belas. Há nele a calma e a tranquilidade de quem pinta, logo existe.

Mas para além de Dafoe, que transmite em tempo integral uma comovente humanidade, a característica mais marcante do filme é que ele foi feito por um pintor. Não é um fato anedótico, ou frívolo. É um dado concreto e extremamente valioso como medida de julgamento, já que Julian Schnabel tenta, em todas as cenas, com resultados algumas vezes muito bem sucedidos e em outras beirando o tosco, igualar o cinema à pintura, com o movimento da câmera, com o traço do pincel na tela. Ele experimenta isso com enquadramentos subjetivos, movimentos abruptos de câmera e arrebatamentos na planificação, tudo muito consequente no difícil equacionamento entre as duas artes.

Sem dúvida, isto representa certa afetação formal (típica do cinema de Schnabel), mas nada que retire o brilho desta recriação do febril processo criativo que o gênio holandês manteve durante seus últimos meses de vida.

O ultimo plano do filme, com a tela (da sala de cinema ou da tela do artista?) completamente amarela enquanto se ouve um texto de Paul Gauguin sobre Van Gogh, é um dos momentos mais serenos e intensos de toda a filmografia sobre o pai da arte moderna.

Carlos Eduardo Lourenço Jorge é crítico de cinema, autocrítico e, por consequência, cinéfilo fiel