LAR: POR QUE DECORAMOS NOSSO ESPAÇO?

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Conhecer-se enquanto indivíduo único, dotado de personalidade e preferências subjetivas, é fundamental para que a casa se eleve a refúgio físico, psíquico e emocional

por Edson Faria

Foto abertura | Casa da Árvore Renault – CasaCor SP 2018 | Fonte: Suíte Arquitetos | Foto: Rafael Renzo

Enquanto entende-se por casa o espaço construído que assegura proteção e conforto físico, compreende-se por lar o conjunto cognitivo e emocional que, agregado à casa, é capaz de proporcionar identidade e acolhimento aos que ali habitam. Sendo assim, a casa resguarda o indivíduo do frio e da chuva, enquanto o lar protege do medo e da solidão.

Palco de ritmos e rituais cotidianos, o lar é único lugar em que o indivíduo consegue desfrutar de maneira efetiva do sentido de apropriação territorial e de expressão pessoal, pois, conferindo sentido e significado aos elementos que o rodeiam, ele materializa sua personalidade, demarca seu território e eleva-o a seu refúgio emocional. Por isso, configurá-lo de maneira agradável, tanto sensorial quanto visualmente, vai muito além de embelezar o espaço, garantindo bem-estar ao estabelecer coerência entre habitantes, hábitos e habitações.

Fonte: Dado Castello Branco – CasaCor SP 2018 | Foto: Rafael Renzo

No entanto, expressar individualidade através da uma proposta que equilibre design, conforto e praticidade pode ser uma tarefa frustrante àqueles sem intimidade e conhecimentos acerca de elementos básicos de composição, como cores, formas e proporção. Nessa senda, advém a figura do arquiteto ou designer de interiores que, dotado de sensibilidade, percepção e conhecimento, atua como interprete de referências e expectativas na construção desse universo, que deve conciliar passado, presente e futuro.

Fonte: CasaVogue Experience 2016 | Foto: Lufe Gomes

Na aventura que é ambientar, dois erros frequentes são os principais fatores que distanciam as pessoas das sensações de pertencimento do espaço e de satisfação pessoal: apostar apenas nas tendências e buscar aprovação social. Com relação ao primeiro, deve-se enfatizar que tão importante quanto saber as novas direções do comportamento humano é ter consciência do seu percurso pessoal, pois o que entende-se por lar é subjetivo e tem como referência o espaço em que cada indivíduo cresceu e se desenvolveu. Assim, esse resgate da herança afetiva é fundamental na obtenção de um atmosfera que auxilie na recuperação dos desgastes diários. Da mesma forma, a casa não deve ser pensada para acolher a todos os tipos de personalidade, pois aos espaços públicos cabem essa função. A busca por composições que agradem parentes e amigos acaba por gerar espaços genéricos e despersonalizados que sufocam a individualidade do morador, geram estranhamento e sabotam a ideia primaria de refúgio emocional. O lar, assim como cada ser humano, é único e deve ser entendido como uma extensão da personalidade de seus donos, expressando sua forma de sentir, pensar e atuar no mundo.

Outra dica pertinente é apostar em ambientes leves, sem excessos e que possibilitem a apreciação do espaço como um todo, já que o uso em abundância de elementos acaba por sobrecarregar os sentidos, impedindo a apreciação e a integração homem-ambiente. Além disso, ambientes fluidos e de fácil compreensão tornam o indivíduo mais perceptivo em relação a seus próprios sentimentos e ao meio em que habita.

Fonte: CasaVogue Experience 2018 | Foto: Kadu Lopes

Dessa forma, sendo o lar o reflexo materializado do conteúdo cognitivo e emocional do morador, conhecer-se enquanto indivíduo único, dotado de personalidade e preferências subjetivas, é fundamental para que a casa se eleve a refúgio físico, psíquico e emocional. Uma casa bem decorada mas sem significado aos que nela habitam limita-se a um belo cenário. Assim, expressar individualidade, trazendo referências pessoais, se torna a base para construção desse que é o único espaço onde o homem pode ser e atuar com plenitude.