MESAS DE JANTAR: DOS BANQUETES EUROPEUS AOS LANCHES RÁPIDOS EM FRENTE À TV

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Apesar da correria da vida moderna, felizmente a mesa de jantar ainda sobrevive, imponente, fabricada dos mais diversos materiais, fazendo-nos lembrar que, independente de tendências, sentar-se à mesa com quem queremos bem é atemporal 

Por Edson Faria

Foto abertura | Fonte: Olegário de Sá – CasaCor SP 2019 | Foto: Roberto Majola

Presente em diversas culturas e civilizações desde o terceiro milênio antes de Cristo, a mesa se tornou símbolo de união e comunhão entre aqueles que ao seu redor se sentavam para partilhar refeições, experiências ou decisões. Desde seu advento, sofreu mais modificações de forma, dimensões e materiais do que propriamente de função, tornando-se um elemento indispensável e insubstituível na vida privada, social e até religiosa.

Uma das primeiras peças a ser comprada em qualquer decoração, tem o conceito de pluralidade tão intrínseco que dificilmente terá menos que quatro lugares, embora o comprador more só. Aristóteles já teorizava sobre essa necessidade humana de socialização e talvez a mesa de jantar seja a peça que materialize de forma simples e objetiva tal princípio.

Mesopotâmios, árabes e egípcios já revelavam um uso rudimentar da mesa, mas foi só na Roma Antiga que o ato de comer e beber em conjunto se tornou um rito social com valor significativo, pois percebeu-se que os requintados banquetes da corte favoreciam o fortalecimento do elo entre os soberanos e seus dependentes.  No entanto, naquele momento os romanos comiam e bebiam deitados em chaises, já que foi apenas no século VII que mesas de apoio, pequenas e desmontáveis, foram introduzidas naquela cultura.  Tanto que a expressão “pôr a mesa” advém desse período, em que a peça era montada e posicionada apenas no momento e no local das refeições.

Fonte: Débora Aguiar – CasaCor SP 2019 | Foto: Marco Antonio

Já a concepção de uma peça com tampo retangular em madeira, com quatro pés e ladeada por cadeiras ou bancos de ambos os lados só surgiu na Renascença do século XIV, com a Dinastia dos Borgonha, e se consolidou apenas na período Elisabetano, no século XVI, com a fixação dos móveis e a criação de um espaço específico para as refeições: a sala de jantar. Assim, a mesa mostrou-se a grande protagonista de uma das maiores revoluções do modo civilizado de conduta social daquele período e, posteriormente, com sua popularização, se tornou um marco no convívio familiar que perpetua até a atualidade.

Assim como na Roma Antiga, psicólogos, sociólogos e nutricionistas atestam hoje que se reunir para as refeições, seja com familiares ou amigos, afeta positivamente a qualidade de vida do homem, tanto na dimensão física quanto na mental, pois são nesses breves momentos de sociabilidade que são degustados não apenas sabores, mas também sentimentos, pensamentos e opiniões. O “table talk”’, isto é, aquela conversa informal à mesa com quem se gosta, é comprovadamente uma das bases de um lar e, em consequência, de uma sociedade mais saudável, estável e feliz.

No entanto, a rapidez, o cansaço e os estímulos estressantes da desgastante vida moderna tem tolhido do indivíduo o pouco de liberdade de escolha que ainda lhe resta. Assim, aqueles pequenos momentos de prazer e socialização em família acabam se perdendo em rotinas de horários incompatíveis e resultando em almoços rápidos no trabalho ou em sanduíches em frente à TV.

Apesar da geração de refeições multifuncionais, felizmente a mesa de jantar ainda sobrevive, imponente, fabricada dos mais diversos materiais e com seu tradicional e reluzente lustre de cristal. Afinal, ainda há vida espontânea no século XXI, embora homem e mobiliário tenham tido que se ajustar à dinâmica de sobrevivência do novo momento.

Fonte: Naomi Abe – CasaCor SP 2019 | Foto: Romulo Fialdini

Dentre as mudanças, em primeira análise logo se percebe uma inversão progressiva entre o uso das salas de jantar pelos recém-chegados home theaters que, com suas telas de múltiplas personalidades, se mostraram mais atrativos que as frias cozinhas para rápidas e frequentes refeições solitárias da vida moderna. Em consequência, as mesas laterais e de centro, reformuladas sob os conceitos de versatilidade e mobilidade, acompanharam o comportamento humano e evoluíram para as “inovadoras” mesas de apoio que, posicionadas logo em frente aos sofás, acabam por desempenhar, informalmente, a função de mesa de refeições. O uso das aspas em relação à inovação dessas peças se justifica visto que se tratam simplesmente das conhecidas mesas laterais, só que apresentadas em moldes mais leves, menores e com nova disposição. O mesmo processo de reformulação pode ser observado nas mesas de centro que, através de uma fragmentação recente e contínua, têm se transformado em conjuntos harmoniosos e bem elaborados de pequenas mesas de apoio.

Fonte: Gustavo Martins e Karen Becker – CasaCor SP 2019 | Foto: Felipe Araújo

Se observadas pelo prisma da decoração, essas recriações ou adaptações são revigorantes e bem-vindas, visto que trazem maior complexidade às composições, flexibilidade aos ambientes e comodidade aos moradores. Afinal, as definições e usos dos espaços, assim como o homem, estão em constante crescimento e transformação! Aprimoramentos como esses chegam como uma brisa que refresca não apenas o design mas, sobretudo, o entendimento conceitual dos espaços e de seus elementos. No entanto, se observadas pelo lado sociocomportamental, certas mudanças que aparentam facilitar a agitada dinâmica social acabam por prejudicar a comunicação intrafamiliar e promover, em consequência, um distanciamento fisco e emocional. Por isso, acompanhe e se ajuste aos novos tempos, mas não se esqueça de puxar uma cadeira e sentar-se à mesa com quem te quer bem.