35 ANOS DE MÚSICA

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Primeira orquestra sinfônica do Paraná, Osuel dribla obstáculos para apresentar boa música ao público londrinense

Por Nara Chiquetti
Fotos Fábio Pitrez

Qual o poder da música? Uns diriam que ela relaxa, outros que emociona, outros que aflora memórias, enfim, independentemente do tipo de sensação e sentimento que a música causa, é certo que é impossível ficar impassível enquanto a canção é executada. Diante de uma orquestra então, a vibração se multiplica, somos literalmente tocados pelas ondas sonoras.
Se para o expectador a apresentação de uma orquestra é algo que fascina, tenha certeza de que para os músicos, a energia emanada pelo público também é sentida e apreciada como o grande reconhecimento das horas e horas de dedicação junto ao instrumento. Os músicos da Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina (Osuel) sentem tudo isso há 35 anos. Uma instituição que já se transformou em patrimônio desse povo “pé vermelho”.
Se fosse um casamento, seria a comemoração das Bodas de Coral. E, assim como os corais vivem no mar em simbiose com microalgas, um essencial à sobrevivência do outro, assim também é a relação entre músico e plateia: um necessita do outro para que o espetáculo aconteça. Nesses 35 anos de história, foram centenas de apresentações, incontáveis emoções. O atual maestro e diretor artístico da orquestra, Alessandro Sangiorgi, exalta o calor do público. “A música ao vivo tem força. Seu corpo é atravessado pela onda sonora que desperta a sensação física. Além da parte metafísica, que acontece de forma diferente a cada apresentação, a energia emanada cria uma ponte entre executor e público. Por isso, cada apresentação é única. E nosso público é muito participativo”.
Para o maestro, ver jovens na plateia é um grande estimulo. “Isso é algo típico do Brasil. Fiz uma turnê em 2011, na Holanda, e só via cabeças brancas na plateia. Aqui no Brasil, as pessoas ficam curiosas para ver opera, e não tem preconceitos. Em Londrina, noto que há um carinho com essa instituição, afinal, 35 anos é muita história, tem gente que vem assistir a orquestra e nem era nascido quando a Osuel começou”, observa.
Além das apresentações em teatro para o público geral, a Osuel realiza concertos especiais, voltados às crianças, chamados Concertos Didáticos. As escolas procuram a administração da orquestra e solicitam a apresentação. “Explicamos sobre os instrumentos, alguns parâmetros de música. E a gente percebe que os concertos didáticos geram uma renovação do público, comenta Verônica Vogler, arquivista e encarregada da orquestra. A apresentação lúdica é para explicar como é composta uma orquestra. Uma narração traça a linha dos acontecimentos com personagens que apresentam os instrumentos, um a um, e como eles se unem na execução da música. “Trabalhar para as crianças é extraordinário, elas são extremamente curiosas. São sempre fonte de surpresa”, diz Sangiorgi.
Há 34 anos como regente, Alessandro Sangiorgi avalia como positivo o trabalho que vem desenvolvendo à frente do grupo. “Os desafios sempre fazem parte, e quando assumi aceitei todos eles, e estamos conseguindo vencer, juntos, tomando decisões para nosso bem comum. É uma responsabilidade muito grande, tanto em termos de gestão de pessoas, quanto de se encaixar na realidade que estamos vivendo. O importante é que nosso ambiente me permite fazer um trabalho tranquilo, mantendo o compromisso com a qualidade, com a cidade e o público”, avalia.
E os desafios realmente são muitos. Oficialmente criada em 14 de março de 1984, a Osuel é a primeira orquestra sinfônica do Paraná. Idealizada pelo maestro Othônio Benvenuto, é composta por músicos profissionais contratados por concurso público. Atualmente conta com 41 músicos concursados, mas o ideal seria que tivesse quase o dobro de profissionais. No entanto, ainda não há previsão para contratação dos já aprovados em concursos anteriores, nem mesmo se vislumbram novas seleções.
Para as apresentações, a Osuel tem contratado músicos pontuais, pagos com o valor dos ingressos – ao menos clarinete, violino e violoncelo. A administração da orquestra discute com a Universidade formas de solucionar o problema da falta de profissionais, por exemplo, estudando a possibilidade de se adotar parcerias privadas e contratações em regime CLT. “Por atingir um público bastante eclético, desde crianças à terceira idade, das mais variadas classes sociais, a Osuel pode ser um ótimo campo ao marketing de empresas. Somos totalmente abertos também a patrocínios. É uma parceria onde todos ganham: a empresa fortalece sua marca e nos fortalece ao oferecer condições de concertos melhores e mais atrativos”, defende Verônica Vogler.
Não bastasse as lacunas na composição da orquestra, muitos músicos (quase a metade) estão prestes a se aposentar nos próximos cinco anos, por isso, a preocupação com a renovação aumenta. “Estamos em momento de crise, porque 35 anos já é o tempo de serviço. E dificulta manter esses funcionários. Contamos com a boa vontade de alguns que não querem se aposentar, e que continuam tocando, a exemplo do spalla, que já avisou que pretende continuar até o prazo de aposentadoria compulsória”, comenta. E, resiliência, para ela, é algo que define o trabalho. “Embora estejamos fragilizados na nossa estrutura, a Osuel tem acima de tudo a missão de seguir em frente e não se deixar abater em respeito ao seu público. É uma história de mais de três décadas que não pode simplesmente deixar de existir. Seria injusto para o público, para Londrina”.
Além da escassez de profissionais no palco, atrás dele também faltam pessoas, e os funcionários têm que se desdobrar, e aprendem, por erros e acertos, como se faz divulgação, projetos, assessoria de imprensa etc.. “Mas, notamos que o retorno acontece. Divulgamos os eventos e as pessoas comparecem. As redes sociais têm ajudado muito”, conta Verônica. A Osuel realiza ao menos uma apresentação por mês, além dos concertos didáticos, e ainda se apresenta nas formaturas da UEL e festivais. “Anualmente, a média de público atingida pela Osuel, em Londrina e região, é de cerca de 12 mil pessoas, entre todos os eventos. Com recursos, a capacidade de atingir um público ainda maior seria facilmente multiplicada”, acrescenta.