EXÓTICO E NUTRITIVO

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Originário da América central, Lulo pode ser boa fonte de renda a pequenos produtores. Cultivo da fruta está sendo testado em Guaravera

Por Nara Chiquetti

Fotos Fábio Pitrez

Na propriedade, uma cultura diferente chama atenção, com plantas rústicas, parente da família do tomate, mas de folhas largas e espinhentas. No mesmo pé, vêem-se flores, frutos verdes em crescimento e outros já maduros, prontos para consumo. Aliás, um fruto também bem inusitado: lembra um jiló maduro visualmente, mas é cheio de pêlos, como o kiwi, e por dentro lembra tomate verde. O sabor… só experimentando mesmo. Achou exótico? Prazer, este é o lulo.

O engenheiro agrônomo e pesquisador Eduardo Perilla decidiu investir em pesquisa de plantas exóticas, com o objetivo de atingir grande potencial comercial. Na estação experimental que montou na propriedade de dois hectares em Guaravera, distrito de Londrina, o lulo já se destaca.

Todos os talhões cultivados já estão produzindo. Por isso, no início da semana sempre tem colheita da fruta. De sabor ácido, a fruta tem 98% de água. Com 500 ml de água e 250 mg da fruta faz-se um litro de suco.  “O lulo está mapeado pela FAO como uma das plantas mais promissoras do século XXI, pois tem 100 vezes mais vitamina c do que a laranja, alta concentração de vitamina A, vitamina B12, riboflavina (que auxilia o metabolismo das gorduras, açúcares e proteínas e é importante para a saúde dos olhos, pele, boca e cabelos) e ainda tiamina (vitamina B1), vitamina k e cálcio (auxiliando na prevenção de osteopenia e osteoporose), além de fósforo e ferro. Ajuda a prevenir a anemia, regular o ciclo menstrual, reduzir os efeitos da menopausa, combate o estresse, ansiedade e depressão e diminui o colesterol”, elenca Perilla.

A planta do lulo produz continuamente por três anos. Depois desse período, morre e é preciso seu replantio. A produção se inicia no oitavo mês, e chega à produção de cinco a sete toneladas no primeiro ano. No segundo, já pode alcançar 15 toneladas por hectare, em condições hídricas favoráveis e chuvas regulares. Já que a planta demanda muita água, pois perde muita água pela característica da folha e transpiração, um consumo de cerca de 18 litros de água por dia cada planta.

O regime pluviométrico da região é menor que o da Colômbia, e falta água em algumas épocas do ano, principalmente em períodos de muito calor associado. Por isso, é necessária a instalação de sistema de irrigação por gotejamento. Junto com a água, também é feita a adubação. “Colocando a comida certa, no momento certo, sua produção é muito rentável”, garante. A planta tem alta demanda em cálcio, que é acumulado no fruto, além de consumir também fósforo em todo seu ciclo, pois a floração é contínua. “Adicionalmente, a matéria orgânica tem de ser abundante, e não se deve aplicar muito nitrogênio, pois a planta cresce demais e não produz satisfatoriamente”, acrescenta Perilla. Na propriedade, é feito o manejo integrado, com uso mínino de defensivos químicos, pois é fundamental para a produtividade que as mamangavas e abelhas estejam presentes.

Segundo ele, a planta é muito rentável à agricultura familiar, pois o custo de implantação da cultura é relativamente baixo – o que mais pesa é o valor das plântulas e a instalação do sistema de irrigação. “O custo, no primeiro ano, não supera os R$ 20 mil”, calcula. “Se partirmos da base de que vamos produzir sete toneladas de fruta, e o preço se mantiver em R$ 10 o quilo, vamos ter R$ 70 mil de renda. Isso significa uma operação positiva de quase R$ 6 mil ao mês, bruto”.

Na região, dois pequenos produtores já começaram a cultivar lulo, um com cerca de 300 plantas, outro de 100 plantas. “E ambos já estão tendo lucro”, garante o pesquisador. “Em uma semana recebem por 10 kg da fruta, R$ 100, renda muito superior a do tomate, por exemplo”. Produção que é absorvida pelo pesquisador, que se encarrega de colocar no mercado no nicho de mercado descoberto.

Atualmente, a fruta segue principalmente para as grandes capitais como: São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro. “Em Londrina, também estamos conquistando espaço, as pessoas que experimentam, têm gostado”. Além do suco, com o lulo também se pode fazer coquetéis, batidinha, geleia, molho e até cerveja. “É uma fruta muito versátil”, sublinha.

Perilla trabalha seguindo um planejamento, desde pesquisa, adaptação e melhoramento das plantas, até estratégias de posicionamento de mercado e comercialização. “Dentro do planejamento, uma vez que se fomente o plantio, temos o objetivo de formar uma empresa de produtores, dedicada à fabricação de suco de lulo”, observa.

Para que esta e outras espécies sejam opção de renda ao produtor, tornem-se comercialmente viáveis, é preciso que esteja devidamente adaptada à região. “Temos um programa de melhoramento de espécies com alto potencial, em especial as nutracêuticas” (termo advindo da junção de nutrição e farmacêutica. Simplificando, são espécies como vegetais, frutas, legumes, cereais que têm a capacidade de serem verdadeiros remédios). Por isso, além de lulo, várias outras plantas diferentes já estão sendo estudadas por Perilla.

O projeto

Há 13 anos, Eduardo Perilla veio com o pai ao Brasil, cursar mestrado e doutorado na área de melhoramento genético. Foi quando o pesquisador visualizou um nicho ainda pouco explorado e decidiu investir em uma estação experimental. A partir de um programa estratégico elaborado, iniciou a pesquisa de espécies nutracêuticas, que se iniciou com o lulo.

Mas, na propriedade, já há diversas outras espécies frutíferas, como: physalis (que no momento serve de isca, para que as traças não ataquem o lulo); tomate de árvore (tamarilho), maracujá doce (granadilla), morangos, mirtilo, framboesas, amoras; abacates; pitangas (roxa, amarela e preta); acerolas; kiwi – todas com banco de germoplasma em desenvolvimento. “Começamos a ver o comportamento em campo, e procuramos novas cultivares para fazer cruzamentos e aumentar a produtividade, resistência, tolerância a determinadas condições, que é o que estamos fazendo com o lulo”, explica Perilla. “Visualizamos sempre trabalhar com cultivares que tenham alguma característica que o mercado necessita. No programa de melhoramento genético, adaptamos a cultivar às condições daqui, estabilizamos para que tenha boa produtividade e melhores condições de desenvolvimento, a partir daí, multiplicamos e fazemos o fomento para chegar ao produtor familiar. E, na sequência já iniciamos o programa com outras espécies”, acrescenta.

O pesquisador trabalha em um manual técnico sobre a cultura do lulo, e acredita que dentro de sete meses vai estar apto a apresentar à comunidade científica seus estudos, para que o manual possa ser disponibilizado ao produtor rural. A principal dificuldade, para ele, é a falta de conhecimento do produtor local sobre essas plantas e seu potencial. “O desconhecimento faz que se entrave muito o desenvolvimento da inovação”. Perilla mantém parceria técnica com Embrapa – para melhoramento tanto de mirtilo como de amora e framboesa – e em fase de concretização com o Iapar. Todo o trabalho já é financiado principalmente pelo lulo. Nos próximos passos, almeja renda também por meio da política de transformação e de fomento, que fazem parte do projeto.