GUSTAVO NAKAO, JOVEM ROTEIRISTA E DIRETOR

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O jovem cineasta londrinense está prestes a lançar “Astro Negro”, seu terceiro curta-metragem, e fala sobre seu caminho no cinema, que, apesar de recente, já o levou até para Cannes

Por Layse Barnabé de Moraes
Fotos Fábio Pitrez

Gustavo Nakao tem apenas 23 anos de idade e é um dos nomes que despontam no cenário cinematográfico de Londrina. Recém-formado em jornalismo pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), ele conta que a escolha pelo curso aconteceu pela paixão pela escrita. “Eu sempre amei escrever. Eu leio ou escrevo diariamente. Todo dia eu tento ganhar alguma coisa de experiência. Conhecer algo novo. É como se fosse minha tarefa. Então, achava que eu queria trabalhar com jornalismo, mas me apaixonei pela fotografia e depois fui fazer um curso de roteiro com o Rodrigo Grota, em 2014”, conta. Foi aí que ele acordou para o cinema. No mesmo ano, conheceu vários jovens diretores participantes do Festival Kinoarte de Cinema, que já caminha para sua 20ª edição, e se questionou: se tantos conseguem fazer um filme, talvez ele conseguisse também. Foi depois disso que rodou o seu primeiro curta-metragem, “Junie” (2015). “Eu aprendi muita coisa com a comunicação, mas meu primeiro trabalho foi com o cinema e eu continuei com isso”, conta ele.
Seu segundo curta, “O canto do claustro” (2016), foi rodado com um investimento de R$ 500 e apoio dos amigos. Acabou selecionado para a mostra Short Film Corner’, do Festival de Cannes: “Quando você termina um filme, inscreve ele em vários festivais. No caso de Cannes, tinha essa mostra de novos talentos de curta-metragem e a gente resolveu se inscrever. Foi praticamente de última hora, mas deu certo. A experiência foi um grande aprendizado. Eu entendi como funciona o modelo para fazer, distribuir e publicizar um filme e como trabalhar e viver disso. Também foi ótimo para gerar repercussão para o cinema londrinense”, diz Nakao.
Sempre assinando roteiro e direção de seus curtas, para escrever suas histórias, Nakao tem uma abordagem mais subjetiva e tenta entender o que o sentimento que pretende retratar no filme gera nas pessoas por meio de conversas despretensiosas e anotações. “É um exercício de empatia”, ele conta.
“Astro negro”
No caso de “Astro negro”, seu terceiro curta, que fala de relacionamento abusivo, Nakao pedia para amigos e conhecidos falarem mais a respeito sempre que via o assunto ganhar atenção em uma roda de conversa. “Também escrevo textos ensaísticos sobre o tema e vou elaborando para tentar entender o sentimento. Daí eu penso as cenas do filme, monto na minha cabeça e começo a escrever”.
A opção por falar de relacionamento abusivo em “Astro negro”, depois de já ter focalizado a depressão em “O canto do claustro”, deu-se por se tratar de um tema tão atual e que nem sempre é bem representado no cinema, correndo o risco de cair em maniqueísmos. “Eu tentei não julgar no filme, mas como o curta traz mais a visão da personagem mulher, acaba que ele fica um personagem que vai contra a motivação dela. Eu achava que era um tema que precisava ser falado, vi que eu tinha muitos amigos, principalmente amigas, que passaram por situações assim. Eu ouvi as histórias delas, então dá para entender o sentimento. A gente precisa colocar o dedo na ferida e falar sobre essas violências, inclusive as simbólicas”.
O nome do filme, segundo Gustavo Nakao, “veio a partir da frase ‘Buracos negros brilham com a luz de outras estrelas’. Se você pensar bem, um buraco negro consome toda a força que uma estrela tem. Um astro significa um organismo celeste que emana ou reflete a luz, então ele não pode ser negro”. Há aí uma contradição, é como se o personagem Fábio (Vitor Rocha) roubasse a luz de Lúcia (Rafaela Martins). “A Lúcia é uma personagem forte e decidida, mas mesmo assim está em um envolvimento errado. É sobre isso que eu queria tratar e eu quero que o filme fale o que tem que falar. Não adianta estar lindo, mas estar artificial. A realidade não é tão bonita e a gente tem que cortar um pouco os excessos”.
Nakao começou a trabalhar no roteiro de “Astro negro” em 2017 e em outubro já tinha uma primeira versão. Com duração de quase 15 minutos e gravado em quatro dias, em Londrina, o filme foi selecionado para o edital da Ancine em parceria com o Governo do Paraná. “Eu queria que o filme fosse contemporâneo, então peguei os estudos de cinema contemporâneo, de cinema de fluxo e narrativo, e me perguntei: o que está acontecendo no cinema atual como linguagem? E resolvi explorar no ‘Astro negro’. Não foi uma pretensão de fazer como tal diretor de tal linha, mas tentei seguir uma linguagem contemporânea de fazer cinema, por isso a escolha pelo plano sequência, contando uma história visualmente”, ele explica.

“Contar por contar não vale a pena”

Cena de Astro Negro

Do primeiro contato com o cinema para agora, a diferença, para Gustavo, está na forma de olhar. “Eu passei a entender o cinema como linguagem. É muito diferente, agora eu assisto a um filme pensando na maneira como ele foi feito, na intenção do diretor, no caminho que a luz fez para chegar àquela imagem. Tenho muita coisa para aprender, mas o olhar já está mais treinado. Antes, às vezes, eu não sabia porque tinha gostado tanto de um filme e hoje já consigo analisar e saber o que eu gosto e o que eu não gosto”, conta ele.
Entre suas principais influências, destacadamente na forma de narrar visualmente, ele aponta Yorgos Lanthimos (“Dente canino”), Ruben Östlundm (“The square”), Andrey Zvyagintsev (“Leviatã”) e Denis Villeneuve (“A chegada”): “Esses caras estão fazendo cinema bom atualmente. Eles têm verba, têm visibilidade e estão na mídia”.
Sobre cobranças e expectativas, as próprias e as dos outros, principalmente por ser tão jovem e já se afirmar como diretor e roteirista, Gustavo Nakao confessa que o medo existe, mas que não deve ser um fator paralisante: “A gente sempre vai ter medo de não ficar bom, mas tem que fazer. A vontade de fazer é grande e eu fiz o melhor que eu pude”.
A intenção de Gustavo para o futuro? Fazer filmes cada vez maiores, como um longa ou uma série: “Hoje, Londrina tem capacidade de sustentar a lógica do cinema. Eu sempre tento fazer projetos que geram empatia. Tem que ser uma história que as pessoas possam de identificar de algum modo, sentir o personagem. Contar por contar não vale a pena. Os projetos que eu estou escrevendo estão falando sobre algum assunto que eu acho que tem que ser falado. Tem que contar alguma coisa para gerar uma discussão, um conforto ou até mesmo um desconforto. Isso é o que eu quero para os próximos tempos”.