UMA RAPSÓDIA UM TANTO QUANTO BOÊMIA

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Depois do lançamento de “Bohemian Rhapdosy” e um lucro de mais de US$ 539 milhões nos cinemas do mundo inteiro, não restam dúvidas: o rock não morreu

Por Eduardo Sahão*

“A única coisa mais extraordinária que a sua música, é sua história”. Assim começa a frase de impacto dos trailers de divulgação de um dos longa-metragens mais esperados de 2018. “Bohemian Rhapdosy” foi estreado em território brasileiro no dia 1º de novembro de 2018, distribuído pela Fox Film do Brasil e já contava, desde o começo do ano, com a expectativa dos fãs de Queen e do ícone Freddie Mercury.

Musicalmente, o Queen é uma banda de qualidade incontestável. As diferentes influências musicais de cada integrante unidas atribuíram uma identidade única. Formada por Freddie Mercury nos vocais, Brian May na guitarra, John Deacon no contrabaixo e Roger Taylor na bateria, a banda criou uma personalidade ímpar ao unir elementos da música clássica ao rock and roll. A performance de Freddie, sua extensão vocal invejável e polêmicas características de uma vida desregrada como drogas, amantes, DSTs e declarações ácidas à imprensa fizeram-no uma legítima estrela do rock. Histórias estas que, com certeza, poderiam ser transformadas em enredo de filme a olhos do empreendedorismo cinematográfico. E realmente foram.

O roteiro foi baseado na trajetória dos quatro jovens músicos que se conheceram em Londres e criaram uma das maiores bandas do mundo. Entre elogios e críticas, “Bohemian Rhapsody” já se enquadra como uma das mais bem-sucedidas biografias musicais de todos os tempos. Um mês após sua estreia, o filme arrecadou US$ 539 milhões (mais de R$ 2 bilhões de reais). A história da ascensão de Freddie e seus companheiros foi responsável por uma das produções mais rentáveis de Hollywood.

O filme leva o título da obra mais emblemática do grupo. Rapsódia é a definição de uma composição feita de “retalhos”, trechos de óperas, operetas, sem ter, necessariamente, algo em comum entre si. Constituída por cinco atos e feita de maneira totalmente experimental sob a direção de Mercury, a música “Bohemian Rhapsody” foi composta para o álbum “A Night at the Opera” lançado em 1975, uma espécie de revolução musical comparável a grandes álbuns da história do rock como “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, ou “Pet Sounds” da banda Beach Boys. O vocalista chegou com a ideia da música inteiramente pronta no estúdio.

Evidentemente, é impossível traçar a história detalhada de uma banda tão grandiosa como o Queen em apenas 134 minutos. Mais de 20 anos de banda, 17 álbuns de estúdio, aproximadamente 200 milhões de cópias vendidas, turnês mundiais, incontáveis brigas e infinitas garrafas de cerveja. Quem sabe uma série no Netflix com a mesma duração de “Game of Thrones” desse conta da trajetória toda, com detalhes, preferencialmente não censurados.

Por esse motivo, tabloides do mundo todo dispararam críticas sobre o filme ser “reducionista” e que não “retratava a verdadeira realidade” do grupo e da vida de Freddie. No filme, alguns aspectos cronológicos foram adaptados para dar a continuidade necessária. Por exemplo, na trama, Freddie anuncia aos integrantes que contraiu AIDS alguns dias antes da lendária apresentação no Live Aid, em 1985, evento idealizado por Bob Geldof que uniu bandas do mundo todo para angariar fundos destinados a erradicar a fome na Etiópia. Na vida real, o líder da banda só anunciou que era portador da doença no dia 23 de novembro de 1991, um dia antes de sua morte. Fato esse que, na época, foi de suma importância para a luta contra a doença no mundo todo.

Os próprios produtores rebateram as considerações afirmando que o filme não possui teor de documentário, por isso utilizaram de certa licença poética para sutis alterações que se adaptariam melhor no roteiro, dirigido por Dexter Fletcher e Bryan Singer. Claro que, se realmente fossem detalhar a vida de banda durante as turnês, teriam de inserir no filme o consumo de quantidades pantagruélicas de drogas, sexo e elementos politicamente “incorretos” que afastariam as famílias mais tradicionais das salas de cinema. E essa nunca foi a intenção. O filme dá a entender que excessos aconteciam de uma maneira mais sutil. Para bom entendedor, meia cena basta. Outro interessante fato que deve ser considerado também: Brian May (guitarrista) e Roger Taylor (baterista) fizeram parte da produção do filme. Ou seja, ninguém melhor do que quem esteve lá para contar a história.

O resumo da ópera é que “Bohemian Rhapsody” é uma excelente produção cinematográfica e musical. A trilha sonora obviamente é toda do Queen. Nada mais justo para um filme autobiográfico. Para os saudosistas modernos que entoam “o rock morreu” com veemência, é um verdadeiro renascer da Fênix. Justamente por poder reviver músicas tão bem compostas e arrojadas, como “Somebody to love”, “Don’t stop me now”, “We are the champions”, “Love of my life”, “Killer Queen”, dentre tantos outros sucessos que, mesmo boêmios, podemos chamar de eternos.

 

Dica do colunista

Como fã de Queen, não poderia deixar de sugerir algumas canções que, as vezes por estarem no obscuro “lado-b” do disco, são menos destacadas, ou não atingiram o devido sucesso comercial. Algumas composições retratam a habilidade técnica dos músicos, tão como ideias geniais de arranjos musicais que mesclam ópera, rock, folk, blues, música flamenca, entre outros gêneros. Listo aqui algumas para você ouvir e entender a essência de uma das bandas mais inovadoras da história da música.

 

MúsicaÁlbum
March of the black queenQueen II
In the lap of the godsSheer Heart Attack
‘39A Night at the Opera
Good old-fashioned lover boyA Day at the Races
InnuendoInnuendo

 

*Eduardo Assad Sahão
Músico e Jornalista