UM FILME FANTASMA

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Surpreendentemente nominado ao Oscar deste ano, “A Trama Fantasma” se apresentou como o melhor dos nove indicados

Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge*

 

Uma obra contra a corrente – pela temática, pela ambientação, pelo ritmo, tom, profundidade, sutileza, elegância, matizes e sensibilidade. Por isso, foi estigmatizado por distribuidores e exibidores, e condenado ao exílio. Poucos viram o filme nas salas, e é preciso recuperá-lo, seja como for.

“A Trama Fantasma” é a enraivecida, obsessiva, elegante (às vezes bem humorada) crônica de uma indústria – a da alta costura – e o encontro de três almas atormentadas. Como em quase todos os títulos da filmografia do diretor Paul Thomas Anderson, é quase impossível resumir a história em uma sinopse sem vulgarizá-la ou traí-la. É um filme povoado por elipses, silêncios e olhares no qual o peso dramático recai no que não se diz, no que fica fora do campo da câmera e no passado dos personagens, que volta constantemente na forma de lembranças fantasmagóricas que o espectador somente pode intuir enquanto o filme avança, à medida que entramos na suntuosa e dolorosa intimidade de Woodcock, sua irmã e o objeto do desejo, Alma.

O filme conta uma história de amor e também o processo criativo de um artista que está tão em dívida com a inspiração divina como com os aspectos mais prosaicos da moda. O roteirista e diretor de “Boogie Nights/Prazer Sem Limites”, “Magnólia”, “Embriagado de Amor”, “Sangue Negro”, “O Mestre” e “Vicio Inerente” nos transporta até a Londres da década de 1950. Mais precisamente, até a casa vitoriana e ateliê de Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), obsessivo, rigoroso e muito autoritário estilista de moda que, além de criador, é severo supervisor de suas confecções direcionadas para ricas e famosas, realeza incluída.

Além do batalhão de costureiras que trabalham para ele, Reynolds tem como braço direito a inseparável, metódica e cínica irmã Cyrill (Leslie Manville), personagem com fortes ressonâncias hitchcockianas e principal responsável pelos traços góticos da trama, alguém que ainda funciona como administradora de cada detalhe do empreendimento. Logo após terminar o relacionamento com uma jovem, o protagonista faz uma breve viagem ao interior durante a qual conhece em um restaurante uma garota simples chamada Alma (Vicky Krieps). Que será sua amante e sua inspiradora.

As fobias e atitudes cruéis de Reynolds não demoram a aparecer. Um pouco à maneira fetichista de Buñuel, o estilista faz de Alma seu manequim preferido: ele a observa, mede com os olhos, a veste e a desnuda. Este obscuro objeto do desejo, entretanto, é, por sua vez, alguém com ideias próprias sobre o amor que vai inocular – literalmente – na vida de Reynolds, até que se torne indispensável essa trama fantasma (trama aqui no sentido de urdidura, tecido, rede, teia) de perversões sutis com a qual é bordada, lenta e inexoravelmente, uma história de amor repleta de pespontos secretos, ocultos em suas dobras mais profundas.

E o tempo do espectador ficará, diante desse complexo encontro, buscando compreender a relação amorosa ambivalente entre o artista e sua musa: uma mescla de tensão estética e dominação patriarcal em que os papéis mudam constantemente e, como em outro dos melhores filmes de 2018, “Três Anúncios para um Crime”, as motivações dos personagens não nos ajudam a entendê-los, uma vez que provocam neles mudanças constantes que desafiam nossa expectativa ou preconceitos. Ninguém encarna melhor essas contradições do que o próprio Reynolds Woodcock, um animal difícil de entender e fascinante de observar, um felino semiadormecido cuja preguiçosa elegância implica, ao mesmo tempo, um perigo mortal.

Provocante, perturbador, exigente e fascinante como poucos filmes nas últimas décadas, “Trama Fantasma” é pleno de inteligência, com excelentes ideias e surpresas sobre o processo criador e a manipulação psicológica. Paul Thomas Anderson não estaciona no preciosismo ou na satisfação de um visual portentoso. Isto porque a intensidade das relações, a maleabilidade das interpretações, os elementos próprios do thriller hitchcockiano que surgem na segunda metade e a belíssima trilha sonora de Jonny “Radiohead” Greenwood (perfeito equilíbrio entre música, sons e silêncio) complementam um quadro de rara beleza e elegância. Para Day-Lewis, por outro lado, é uma despedida tão espetacular que a última certeza que nos revela é a verdadeira dimensão do vazio que seu anunciado afastamento vai causar.

 

*Carlos Eduardo Lourenço Jorge é crítico de cinema, autocrítico e, por consequência, cinéfilo fiel.