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Eleitas muitas vezes como pontos focais das composições, as cadeiras são capazes de criar a atmosfera desejada, agregando ousadia e elegância, sem abrir mão do conforto esperado

 

Por Edson Faria

Foto abertura: Cadeiras Benja by Gustavo Bittencourt | Fonte: Intown – CasaCor SP 2019 | Foto: MCA Estúdio

 

Talvez por ser o objeto com maior profusão de interpretações e intervenções dentro do universo do mobiliário, a cadeira se mostra o elemento que mais favorece a observação e a compreensão dos conceitos de conforto e inovação estabelecidos pelo homem em diversos períodos da história.

Assim como o entendimento de conforto foi se ampliando à medida que as possibilidades tecnológicas avançavam, as expectativas de que essa peça se adaptasse e suprisse as novas exigências sociais fez com que ela evoluísse em uma dinâmica acelerada e ganhasse as mais variadas formas e formatos.  Assim, por haver essa correlação entre a assimilação de um elemento e os valores socioculturais de determinado momento histórico, a concepção de cadeira no século XXI não corresponde ao entendimento da mesma peça nas décadas passadas.

A concepção mais trivial e aceita certamente é aquela que referencia a existência e a correlação entre assento, pernas e encosto que, em conjunto, desempenham a função de sentar-se de maneira confortável e segura. Portanto, de modo geral, trata-se de uma peça simples, com desafios práticos de sustentação e com inúmeras possiblidade de arranjos entre seus elementos. Tais características fundamentais talvez expliquem o favoritismo dessa peça entre os designers no momento de suas criações.

Poltronas Tetê by Sérgio Rodrigues e Poltronas Vintages by AD. Studio | Fonte: BC Arquitetos – CasaCor RJ 2018 | Foto: MCA Estúdio

Embora seu advento remeta há milênios, quando os homens primitivos ainda utilizavam-se de assentos rudimentares feitos em pedra, coube aos egípcios, há quase seis mil anos, a estruturação da cadeira como ela é conhecida na atualidade: com encosto, braços e, em alguns casos, apoio para os pés. Na Grécia Antiga ela ganhou mais conforto e ergonomia e, durante a Idade Média, status e símbolo de poder. No entanto, embora estivesse presente durante toda a história das civilizações e acompanhado todas mudanças sociocomportamentais, sua popularização só ocorreu no século XVI, período em que também desembarcou no Brasil trazida pelos portugueses.

Após séculos de produção artesanal, seu grande marco evolutivo foi a Revolução Industrial ocorrida no final século XIX, que proporcionou não apenas a mudança nos meios de produção, como também uma transformação nos conceitos e nos comportamentos sociais que passaram a primar pela funcionalidade. Assim, o excesso de detalhes que particularizava a produção até aquele momento deu lugar ao minimalismo funcional das formas simplistas. Exemplos icônicos desse cenário de reinvenções são as modernas cadeiras produzidas sob a influência da Bauhaus, famosa escola de artes alemã fundada no início do século XX. Dentre tantos exemplos, pode-se citar a cadeira Hill House de Charles Mackintosh, de 1928, e a cadeira Wassily de Marcel Breuer, de 1925.

Por outro lado, em relação ao contexto nacional, coube as décadas de 1950 e 1960, através do trabalho de profissionais como Sergio Rodrigues, Joaquim Tenreiro e Zanine Caldas, o desenvolvimento de exemplares relevantes pela sua genuinidade tropical materializada por meio de novos desenhos, materiais e processos de produção coerentes com o DNA brasileiro. Assim, abordando forma e função como uma única diretriz, de lá para cá, a produção só se intensificou e a valorização do produto brasileiro se estabeleceu como um dos poucos bens de consumo duráveis exportados e disputados internacionalmente.

Poltrona Dina by Fernando Mendes e Poltrona Mole by Sérgio Rodrigues | Fonte: Fernando Piva – CasaCor SP 2019 | Foto: Renato Navarro

Por ser quase impossível fugir da presença delas, hoje o homem vive a era das cadeiras. Tratam-se de bilhões de unidades dos mais variados designs, materiais, cores e estilos, resultados de uma produção cada vez mais particularizada para cada estilo de viver. Eleitas muitas vezes como pontos focais das composições, as cadeiras são capazes de criar a atmosfera desejada, agregando ousadia e elegância, sem abrir mão do conforto esperado. Apresentadas como obras de arte, principalmente em salas, as cadeiras se tornaram primeiramente um conforto visual aos usuários que, muitas vezes, em decorrência de sua configuração inusitada, se sentem impelidos a sentar-se e desfrutar daquela nova experiência sensorial. As preferidas do momentos são as brasileiras desenvolvidas por nomes como Lattoog, Zanini de Zanine, Regiane Carvalho Leite, Jader Almeida, dentre outros.

Poltrona Celine by Jader Almeida | Fonte: Bruno Carvalho – CasaCor SP 2018 | Foto: MCA Estúdio

Contrastando com os demais elementos, ou complementando a composição, é quase impossível conceber um ambiente atrativo e equilibrado sem o uso de uma bela cadeira, afinal elas agregam mais valor do que qualquer outro elemento. Tratam-se de elementos versáteis em todos aspectos: função a ser desempenhada, ambiente a ser inserida, estilo do ambiente e personalidade do morador. Assim, não há motivos para temê-las, mas sim inúmeros para amá-las. Por isso, dedique um tempo à procura daquela que corresponda a suas necessidades e traga esse elemento de fundamental importância para dentro do seu lar.