MARCOS BAZZO E SUA ARTE ASSEGURADA DE NÓ EM NÓ

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Em conversa exclusiva para esta coluna, designer afirma que suas obras vão além das referências indígenas, abarcando todas as vertentes que compõem a cultura brasileira

 

Por Edson Faria

Foto abertura: Rico Mendonça – CasaCor SC 2018 | Foto: Ronaldo Azambuja

 

Derivada da miscigenação de hábitos e tradições indígenas, africanos e europeus, a cultura brasileira é marcada por uma pluralidade contrastante mas harmoniosa que encanta por sua colorida diversidade de proporções continentais. Embora tenha sido menosprezada e preterida por séculos, as primeiras décadas do século XXI foram marcadas pela redescoberta e valorização da herança sociocultural. Assim, a partir desse período, a decoração, como reflexo dos movimentos e comportamentos sociais, começou a exalar ares tropicais por meio de formas, cores, texturas e materiais de maneira a tornar a brasilidade a mais nova tendência do mercado.

Fonte: Jean de Just – CasaCor SP 2019 | Foto: Renato Navarro

Nesse contexto de autoanálise e reconhecimento, o brasileiro passou a elevar seu artesanato de subproduto barato à obra de arte, contribuindo e fazendo justiça ao trabalho de Josés, Joãos e Marias que dedicaram seu tempo a eternizar sua ancestralidade por meio de trabalhos feitos com argilas, pedras, madeiras e fibras. Dessa forma, um novo panorama se estabeleceu e com ele novos artistas ganharam espaço. Dentre tantos nomes com trabalhos expressivos, pode-se citar o do paulista Marcos Bazzo que, com seus cocares e colares sofisticados, exalta não apenas a influência indígena de sua infância, como também conecta e enaltece os vários traços culturais herdados da coexistência e interação dos diferentes grupos étnicos que por aqui passaram.

Fonte: NOP Arquitetura – Mostra CasaDesign 2019 | Foto: MCA Estúdio

O fato de ter nascido em uma cidade com nome de divindade, Tupã, no interior de São Paulo, talvez já fosse um indício da predestinação de sua trajetória bem sucedida. Afora isso, segundo Marcos, seu contato com nativos sempre foi frequente e natural, visto que havia uma aldeia próxima ao sitio de seu avô que, segundo ele, era questão de atravessar um riacho, pular umas cercas, andar um pouquinho e pronto, estava lá.

Além de tal influência direta, Marcos sempre foi um apreciador dos artesanatos, tanto que, por doze anos, sua atenção esteve voltada à produção de bijuterias que já lhe rendiam muitos elogios. No entanto, seu ponto alto veio com a transição da moda para decoração, que aconteceu após sua formação em design de interiores, possibilitando a ampliação de uso do seu talento. Os três primeiros colares, resultados de sua bagagem pessoal, foram criados ainda no interior do estado para clientes específicos, mas logo outras peças foram produzidas e difundidas pelo país.

Desenvolvidas com fios de lã, seda, veludos e fibras sobre base de algodão, as obras são totalmente artesanais e confeccionadas com técnica desenvolvida e adaptada por Marcos ao longo do tempo. Tratam-se de trançados, franjas e nós que configuram cocares e colares sofisticados, expressando diferentes vertentes da cultura brasileira. Raças, tribos e religiões foram algumas das séries desenvolvidas pelo artista para expressar fragmentos do DNA brasileiro e contar partes da história da nação.  No total, foram 118 histórias contadas e eternizadas pelas mãos habilidosas do tupãense, hoje residente em Curitiba.

Fonte: Marcos Bazzo | Foto: Divulgação

Quando questionado sobre a escolha do cocar como base visual de seus trabalhos, o designer enfatiza o simbolismo que os adornos de cabeça sempre apresentaram em todas as crenças enquanto elo entre o homem e o divino. Em suas peças, tudo é justificado por conceitos embasados em muita pesquisa e estudos. Por isso, cores, materiais, formatos e até a quantidade de nós não são determinados ao acaso, mas estão intrinsicamente vinculados ao tema abordado. Esse tipo de concepção, essencialmente fundamentada e estruturada em bases históricas, faz com que as peças sejam apreciadas não apenas por sua beleza, mas por todo conjunto de significados e simbolismos agregados e refletidos nos projetos. Marcos, assim como milhares de outros artistas, tem consciência que brasilidade não é tendência, mas sim identidade e autenticidade que resulta do entrelaçamento do presente, passado e futuro de um povo e que, por tal motivo, não é temporário ou momentâneo. Brasilidade é permanente e imortal. Com relação as series do artista que estão por vir, só Deus e Tupã podem saber, afinal, o que não falta no Brasil são vieses culturais a serem explorados e referenciados.

Fonte: Marcos Bazzo | Foto: Divulgação