ESTILO INDUSTRIAL E SUA BELEZA IMPERFEITA

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Embora tenha a neutralidade cromática como base, não há estilo de decoração que permita maior criatividade, imprevisibilidade e ecletismo do que esse. Aposte no cinza como novo bege e traga o urbano para dentro do seu lar

 

Por Edson Faria

Foto abertura: Korman Arquitetos | Foto: JP Image

 

Estética dos lofts americanos surgidos na década de 1960, o estilo industrial é o resultado visual do panorama socioeconômico que se estabeleceu com a crise dos anos de 1920 e que obrigou as classes mais pobres a procurarem espaços baratos para habitação e trabalho. Em consonância, o mesmo contexto promoveu a falência e a desocupação de inúmeras fábricas e barracões em áreas nobres de Nova Iorque que, adaptados, passaram a ser reutilizados como alternativa a essa procura crescente por moradias mais acessíveis. Assim, embora a contemporaneidade tenha tentado distanciar os aspectos visuais das configurações espaciais, o estilo industrial e os lofts estão essencialmente vinculados desde suas origens. Por isso, fazer uso efetivo dessa tendência vai muito além de vestir as paredes com revestimentos cerâmicos ou cimentícios e expor algumas instalações, visto que, acima de tudo, o industrial propõe uma fluidez espacial acompanhada de uma multifuncionalidade que não apenas funde, como também acumula funções em um mesmo espaço.

Fonte: Debaixo do Bloco Arquitetura – CasaCor Brasília 2017 | Foto: Jomar Bragança

Em decorrência das circunstâncias de seu surgimento, o industrial style é caracterizado pelo despojamento, rusticidade de acabamentos e mobiliário restrito ao mínimo. Sua composição simplista e despretensiosa ganhou notoriedade e status em decorrência da classe artística composta por pintores, músicos e arquitetos que aderiram a esse novo modo de vida fundamentado na reutilização e na beleza do imperfeito.

Com o passar das décadas, o estilo evoluiu e ganhou um pouco mais de conforto e sofisticação, chegando ao século atual como tendência em decorrência da sua singularidade e charme urbano. No entanto, apostar em uma releitura que realmente faça jus ao visual original requer alguns cuidados como a integração espacial e a rusticidade de acabamentos. Lembrando que rusticidade e brutalidade não são sinônimos de mau acabamento, mas sim de simplicidade, objetividade e praticidade de uso. O estilo industrial faz uso das texturas únicas e diferenciadas de materiais naturais, dessa forma, cimentos queimados, tijolos, elementos estruturais e instalações aparentes são fundamentais na configuração dessa estética que explora a espacialidade de maneira sóbria e crua. Por isso, quanto mais a composição se assemelhar a infraestrutura de uma fábrica do início do século XX, mais bem sucedida será a proposta.

Casa Otávio Dias | Fonte: Estúdio ZAR | Foto: Victor Affaro

O mobiliário, por sua vez, é simples, visualmente forte mas restrito ao necessário, haja vista que a fácil circulação é inerente a esse estilo que sofreu grande influência da funcionalidade e da atemporalidade da escola de arte alemã Bauhaus. No entanto, por aceitar um pouco de tudo, as disparidade e contrastes podem tornar a proposta mais elaborada e moderna, o que permite o uso de elementos sofisticados associados a peças rústicas, metálicas ou oxidadas. Já o aconchego, tão necessário para equilibrar e aquecer a composição, fica a cargo do uso da madeira, couro e tecidos naturais.

A paleta de cores, como o previsto, tem a sobriedade das cores cinza, marrom, preto e branco como base, relegando a elementos pontuais e específicos aquelas cores mais expressivas e intensas. Todavia, se enganam aqueles que associam o industrial à monotonia, pois não há estilo que permita maior criatividade, imprevisibilidade e ecletismo do que esse.

Assim, o que surgiu como solução pragmática para uma adversidade financeira resultou em um modelo de arquitetura inovadora, funcional e atemporal com estilo de decoração único e exclusivo. Sua sobrevivência por décadas só comprova sua eficácia funcional e sua expressividade marcante e indiscutível. O estilo industrial comprova que há beleza fora dos padrões simétricos, meticulosamente planejados e tidos como perfeitos. O industrial é democrático e liberal, por isso, invista no cinza, afinal, ele é o novo bege do século XXI.

Fonte: Paola Ribeiro – CasaCor SP 2016 | Foto: Rômulo Fialdini